Fun Home, de Alison Bechdel: uma HQ sobre família e verdade

Como vocês sabem, também estou participando do #desafioleiamulheres e, no mês de fevereiro, o desafio era ler uma HQ. Eu já havia lido O melhor que podíamos fazer, da vietnamita Thi Bui, para o encontro do Leia Mulheres Sorocaba de janeiro e sobre o qual fiz uma resenha aqui. Porém, quis ler outro, já que tenho tomado gosto pelo universo dos quadrinhos. Portanto, acabei escolhendo Fun Home: uma tragicomédia em família, da americana Alison Bechdel, livro lançado em 2006 (com publicação no Brasil em 2018 pela Todavia e tradução de André Conti), e não me arrependi!

A graphic novel trata das relações familiares, especialmente entre Alison e seu pai, Bruce, e dos segredos que ambos tentam esconder ao longo da vida. Tudo vem à tona quando o pai morre atropelado, em um acidente que Alison vê como suicídio, pouco tempo depois dela contar à família que era lésbica e após sua mãe revelar que o marido também era homossexual.

Aqui, vale uma menção à biografia de Alison.  Nascida em Lock Haven, na Pensilvânia, em 1960, a quadrinista foi pioneira, tanto em aspectos técnicos e na forma de se fazer quadrinhos, utilizando a HQ para a autobiografia, quanto no conteúdo e na militância, ao trazer à luz a homossexualidade e a presença das mulheres lésbicas no mercado dos quadrinhos. Em 1987,  ela produziu uma tirinha chamada Dykes To Watch Out For (em tradução livre, Sapatonas com quem se preocupar), tratando com naturalidade e humor a questão da diversidade sexual e colocando em cena personagens comumente marginalizados na literatura e na sociedade: a protagonista é homossexual e feminista, e entre os seus amigos estão uma drag queen, uma mãe solteira, uma adolescente transgênero e um professor universitário frustrado com o casamento. Quase duas décadas depois, lançou Fun Home, que conquistou grande reconhecimento, ao ser eleito o livro do ano pela revista Time e, em 2015, ser levado à Broadway num musical vencedor de cinco prêmios Tony.

Além disso, ela ficou famosa  por criar o Teste de Bechdel, que busca discutir a representação feminina em filmes, séries, quadrinhos e qualquer outro produto da cultura pop. O teste consiste em três requisitos para a produção: ter duas personagens femininas com nomes; ao menos uma cena em que as mulheres desenvolvem um diálogo; e diálogo não pode ser sobre garotos/homens.

Foto: Contour / Getty Images

Agora, voltemos ao livro. Fun Home, um título divertido, já que não se trata de um “lar engraçado”, mas sim uma brincadeira com a palavra “funerária”, uma vez que a família Bechdel era dona de uma tradicional funerária da cidade, possui diversas camadas impossíveis de tratar em uma única leitura e em uma rápida resenha. O que mais me chama a atenção é o modo como a cartunista apresenta a força e as limitações da linguagem, especialmente da linguagem escrita, literária. Se as conversas e cumplicidade entre os integrantes familiares não parecem tão frequentes na história,  por outro lado, a todo momento a literatura está presente. É por meio de um clássico da literatura norte-americana, O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, que o pai fantasia a sua realidade, criando uma narrativa para a sua vida em uma pequena cidade do país, enquanto esconde sua verdadeira persona atrás dos livros, do trabalho na funerária e da obsessão pela reforma da casa e pela jardinagem. É por meio dos livros da faculdade que Alison se descobre lésbica e passa a consumir obras de diversas escritoras para entender essa “descoberta”, como Colette, Virginia Woolf etc. A Odisseia, de Homero, e a jornada de Ulisses, de James Joyce, também ajudam Alison a compreender sua família. São as palavras colocadas em cartas que conseguem revelar e aproximar pessoas tão diferentes e desconectadas.

Porém, são as palavras ocultas que mostram a dificuldade de Alison em lidar com situações simples, mas ainda tabus, como a menstruação e a masturbação. Ao não conseguir processar as mudanças em si e em sua vida, ela também não consegue se expressar em palavras, mesmo sendo metódica no relato do seu diário desde pequena. Há um bloqueio que não a ajuda a se entender e entender o mundo; a falta de palavras adequadas aumenta a sua solidão.

Foi muito interessante ler outra HQ que trouxe os temas da memória e das relações familiares, ainda mais em um momento que se torna crucial entender o quanto as famílias podem, sim, ser tóxicas e limitadoras. Porém, ao invés de só apontar os problemas dentro de casa, a autobiografia de Bechdel é, assim como o livro de Thi Bui, um exercício de afeto, de empatia, de perdão, mesmo diante de tantos acontecimentos tristes. Se Bruce tinha diversos defeitos, sendo machista e violento com a esposa e os filhos, ele também estava ao lado da filha em tantos outros momentos, especialmente quando ela assumiu sua sexualidade, e desenvolvendo a sua veia artística e literária. Essa HQ, ademais, me lembrou sobre a importância de buscar os laços que nos unem às pessoas, que vão além do sangue. Na casa Bechdel, é o amor compartilhado pela literatura e pela arte que coloca esses personagens na mesma órbita, que diminui a imensa distância entre eles.

Também é incrível perceber como essas escritoras conseguem expressar, por desenhos e diálogos rápidos, tantos assuntos complexos e de difícil aceitação. Afinal, sabemos quantos jovens são expulsos de casa ou agredidos quando revelam sua homossexualidade, também sabemos quantas pessoas passam toda uma existência mentindo para si e para outras pessoas por medo do preconceito, da rejeição. Fun Home é poderosa ao mostrar que deixar de ser quem realmente é não é um ato isolado e sem consequências: famílias e talentos são destruídos, vidas deixam de ser vividas em sua plenitude. Se a literatura pode nos dar um belo escapismo à vida, encarar a realidade parece ser a forma mais justa para se viver.

Onde comprar o livro

Amazon

Americanas

Saraiva

Avatar
Bruna Bengozi

Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

Não há comentários. Seja o primeiro!

Deixe um comentário

O seu e-mail não será publicado