O que significa dominar a linguagem?

Repito a pergunta do título: o que significa dominar a linguagem?

O acesso à informação aumentou e todo mundo tem algo a dizer; poucos dizem algo de fato.

Hoje, a inclusão digital é muito maior, temos todos os amigos e crushes ao alcance dos nossos dedos pela tela do celular, mas jamais vimos conversas tão supérfluas e contatos tão rápidos.

Não estou demonizando a tecnologia, que realmente facilitou a vida que temos hoje. No meu caso, em que meus laços de amizade estão espalhados por diferentes cidades, estados e até países, o contato virtual acaba sendo necessário. O meu ponto é: o que estamos nos comunicando ou deixando de comunicar?

Conheço pessoas que “dominam” a linguagem; escrevem e falam com desenvoltura e sabem até outros idiomas. É isso o que realmente importa? Versadas no inglês, francês, alemão e ignorantes no “bom dia”, “por favor”, “obrigado”. Inteligência emocional nula.

Por que é cada dia mais difícil falar, compreender e ser compreendido(a)? Por que somos ensinados na escola a decorar a gramática, mas ainda não temos a educação emocional necessária para utilizar uma comunicação não agressiva, uma educação empática que leve em conta outras vivências, outras realidades, outras linguagens enfim?

Por que não ensinamos nossas crianças, especialmente os meninos, a expressar o que sentem, sem medo de ridicularizações? Por que temos que crescer e nos entupir de remédios para acalmar a mente que quer falar, gritar? Por que temos que crescer e agir com violência contra tudo e todos (especialmente contra nós próprios), pois não sabemos comunicar nossas frustrações e desejos de outra forma?  O que significa, afinal, dominar a linguagem?

E, se a dominamos, significa que vamos exorcizar nossos demônios? Dizem que a palavra tem esse poder; não é à toa que várias são repetidas à exaustão em rituais de exorcismo. Mas não posso deixar de me perguntar se a nossa comunicação também não encontra um limite, se a palavra realmente cura tudo. Achava que sim (se eu estou escrevendo esse texto, é porque ainda acredito no seu poder expurgatório) até ler um trecho do ensaio “Em cada língua estão fincados outros olhos”, retirado do livro O rei se inclina e mata, da autora romena Herta Müller (Biblioteca Azul, 2013):

“Não é verdade que há palavras para tudo. Também não é verdade que sempre se pensa em palavras. Até hoje há muitas coisas que não penso em palavras, não as encontrei, não no alemão do vilarejo, não no alemão citadino, não no romeno, não no alemão oriental ou ocidental. E em nenhum livro. Os meandros interiores não coincidem com a linguagem, eles nos levam a lugares onde as palavras não podem permanecer. Muitas vezes é o decisivo, sobre o que não se pode dizer mais nada, e o impulso de falar a respeito é bem-sucedido porque ele passa ao longe. A crença de que falar destrincha os emaranhados só conheço do Ocidente. Falar não conserta nem a vida no milharal e nem aquela sobre o asfalto. Também só conheço do Ocidente a crença de que não se pode suportar o que não tem sentido.”

Talvez dominar a linguagem passe pelo domínio do silêncio. E eu me calo sem compreender e ser compreendida.

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Bruna Bengozi

Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

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