Por uma vida de mais encantamento linguístico

Sempre me pergunto o porquê de gostar tanto de ler. Mesmo que ainda me cobre pela lista de livros que só se acumula; por nunca ler nos prazos que estipulo; por não conseguir cumprir os desafios literários de que quero participar; tampouco ler na rapidez que gostaria, descobri que parte da lentidão se dá, exatamente, por aquilo que a leitura tem de mais atraente: a possibilidade que nos dá de saborear cada palavra e ir descobrindo caminhos e estratégias de narração, de construção de personagens, de resolução das tramas do tempo. Gosto de perceber as escolhas de palavras e de pontuação feitas por cada autor para expressar seu pensamento, seu ideal, seu desejo… Muitas vezes, me pego pensando se aquela ausência de ponto final é fortuita ou proposital; se o uso de itálicos no texto serve para distinguir lugares diversos de fala; ou se aquelas reticências indicam incerteza, descontinuidade, falta de conclusão, ou preguiça de seguir com o pensamento… Às vezes, não consigo me conter e falo em voz alta, pergunto a outras pessoas o que elas acham: – quis o autor realmente deixar o parágrafo em aberto ao não pontuar ou você acha que foi erro de digitação? E, imediatamente, arrependida, de mãos unidas, lanço ao alto uma prece pedindo clemência e compaixão ao meu interlocutor para que não me considere a doida da gramática, preocupada com pormenores como esses!

Mas o fato é que, sim, a gramática, a linguagem escrita, tem sua beleza. A beleza de se fazer de letras, palavras; de palavras, frases; de frases, parágrafos, e se ter, aí, a comunicação e a construção de pontes que unem, mas que também podem separar. A beleza de nos abrir campos de escolhas e de deliberações como leitores e escritores, já que o sentido das palavras, frases e parágrafos nem sempre é hermético e pode requerer interpretações e diálogos nem sempre inequívocos.

Tendo uma formação em História, esse saborear da linguagem é algo recente para mim. Não me recordo de, ao longo da faculdade, ter cruzado com professores que chamassem nossa atenção para a importância da linguagem como uma forma elementar e essencial de transmitir ideais. Parece óbvio dizer algo assim, mas, na nossa cartilha, o que constava era que historiador precisava conhecer bem as fontes, usar bons métodos investigativos, delimitar seu objeto de pesquisa de forma clara, escolher um tema relevante para o presente e que pudesse ser investigado sem anacronismo em um passado recente ou remoto. Escrever? Preocupar-se com a linguagem? Era melhor deixar isso para os literatos e estudantes de Letras!

Como professora de História, durante muitos anos, reproduzi a cartilha do ofício do historiador sem discutir abertamente com os alunos sobre a importância de se ter atenção com a escrita, mas me pegando cheia de irritação no final de semestre quando tinha que corrigir provas e trabalhos finais, alguns dos quais não conseguia entender – não por falta de domínio das fontes ou da bibliografia básica, mas por questões de linguagem. Falar que um rei é untado ao invés de ungido comporta sentidos diversos, evidentes a quem tem conhecimento da língua ou interesse em consultar o dicionário! E não só isso: a diferença no significado da palavra leva o leitor a uma imprecisão histórica, pois ao atestar, por escrito, que na Idade Média um monarca era untado ao ser coroado, a compreensão que se abre ao leitor sobre esses tempos passados é de que, facilmente, poderia se servir este rei, repleto de banha de porco ou óleo, no banquete que celebrava a ascensão de uma nova dinastia!

Ainda assim, poucas vezes vi o debate sobre a escrita pura e simples ser trazido para a sala de aula, e foi somente nas minhas últimas turmas que passei a encarar o desafio de partilhar com futuros historiadores a preocupação que a boa escrita merece. Sem retomar aqui o velho debate sobre as diferenças entre Literatura e História, e sem me aprofundar na defesa da natureza narrativa da História e do aspecto inventivo e criativo que a narrativa comporta, tenho defendido um argumento mais básico: se para um escritor de obras literárias, a linguagem pode se tornar um desafio e um fim em si mesmo, e penso aqui nos modernistas que tanto experimentaram com a forma (d)e linguagem, historiadores têm na linguagem sua ferramenta de trabalho, um meio de comunicar seus argumentos e convencer seus leitores. E não há nada mais belo e delicioso do que ter diante dos olhos um texto bem escrito, bem encaminhado, no qual o estudioso e pesquisador transmite que não apenas foi diligente ao construir sua pesquisa, mas tomou o cuidado de partilhá-la o melhor que pôde, escolhendo o que e como comunicar para abrir portas de interlocução com outras pessoas.

Sei que esse texto pode soar clichê a muitos ouvidos! Mas tenho percebido que, às vezes, é preciso falar o óbvio. Sobretudo porque, atualmente, tenho me deparado com muitos deslizes, problemas, más compreensões, falhas, perdas de sentidos e impasses de comunicação. Parece-me que é justamente nesta era tecnológica, em que os mecanismos de comunicação e de mídia se multiplicam em uma velocidade assustadora, que temos nos comunicado cada vez menos e pior. É bem aquela história, sabe, do cara que anuncia que vende bolo de chocolate a R$10,00 na porta da faculdade, entre 10h e 12h, e recebe uma enxurrada de mensagens com perguntas requisitando informações que estão ali, por escrito, expressas explicitamente pela linguagem, para quem tiver olhos para ver!? Essas experiências têm me feito questionar o quanto nossos ouvidos e olhos fechados apontam para uma perda de capacidade de ouvir, de ler, de interagir uns com os outros por meio da linguagem escrita e oral e, principalmente, de nos maravilhar com a beleza e o poder criador da linguagem!

Mas, para não terminar esse texto em tom pessimista, compartilho aqui as palavras de Conceição Evaristo, em Becos da Memória (Pallas, 2018), que me serviram de inspiração para essas poucas linhas, compostas de letras, palavras e parágrafos. Se se trata de algo bonito ou pura bobagem, deixo a vocês o veredito:

Antônio João da Silva tinha uma letra bonita e sabia soletrar alguma coisa. Dava trabalho ler. Juntar letra por letra e no final a palavra. Depois juntar palavra por palavra e, no final, debaixo das palavras em ajuntamento, surgia algum pensamento, algum dizer bonito ou alguma bobagem. (p. 19)

Rossana Pinheiro-Jones

Rossana Pinheiro-Jones é historiadora, aprendiz de barista e tradutora de araque.

Não há comentários. Seja o primeiro!

Leave a Reply

O seu e-mail não será publicado