O projeto “O Inventário”, do fotógrafo Kazuo Okubo, perpetua o machismo estrutural

    No início de janeiro, o fotógrafo Kazuo Okubo divulgou em suas redes sociais uma chamada para o projeto O Inventário, um ensaio dedicado a fotografar vaginas de mulheres que se tornará uma exposição e um livro. O projeto tem curadoria de Rosely Nakagawa e patrocínio do Fundo de Apoio à Cultura da Secretaria de Cultura do Governo do Distrito Federal.

    Por meio de uma carta aberta, movimentos de mulheres manifestam como as características do projeto reforçam o que há anos o movimento feminista vem lutando contra. “O projeto perpetua um machismo estrutural, na medida em que reduz nossa expressão artística, política e social à exposição do corpo e contribui para o processo histórico de invisibilização do nosso lugar de fala sobre nossos próprios corpos”, relatam no documento.

    MAVDF (Mulheres do Audiovisual do Distrito Federal) – DF

    YVY Mulheres da Imagem – Nacional

    Coletivo Amapoa – SP

    DAFB (Coletivo das Mulheres Diretoras de Fotografia do Brasil) – Nacional

    Plataforma Lótus de Mulheres Brasileiras Asiáticas – Nacional

    Mamana Foto Coletivo – SP e DF

    Coletiva Era – RJ

    Mulheres da Imagem Ceará

    Site do fotógrafo: http://kazuookubo.com.br/

    Chamada no Instagram: https://www.instagram.com/p/Bsqp4NaHhD-/

    Matéria sobre o tema: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2019/01/20/interna_cidadesdf,731651/fotografo-de-arte-brasiliense-busca-modelos-para-ensaio-sobre-vaginas.shtml

    Leia abaixo a nota de repúdio na íntegra:

    NOTA ABERTA
    SOBRE O PROJETO “O INVENTÁRIO”

    Nos últimos anos, vários coletivos, iniciativas e movimentos de mulheres que trabalham
    com fotografia, vídeo e audiovisual surgiram no país. Todos esses grupos convergem
    para o mesmo ponto: transpor as barreiras impostas por um machismo estrutural,
    impregnado nas famílias e nas instituições, que jogam um véu de invisibilidade sobre as
    mulheres, sejam as que produzem as imagens, sejam as que são retratadas nelas.

    Há uma lista de festivais, prêmios, bolsas e editais que contemplam, numericamente,
    mais homens que mulheres. Há também uma lista de trabalhos artísticos e documentais
    que objetificam os corpos das mulheres, tiram delas a identidade, a história e a opinião,
    transformando-as no reflexo desse machismo entranhado nas famílias, empresas e
    organizações. Não faltam estatísticas para mostrar que o caminho para as mulheres
    serem protagonistas de suas vidas, corpos e carreiras ainda é longo.

    A gota que fez o copo transbordar e originou esta nota, assinada por diversos coletivos,
    é o projeto intitulado “O inventário”, do fotógrafo Kazuo Okubo, com curadoria de
    Rosely Nakagawa, parceira do fotógrafo em projetos anteriores, e patrocinado pelo
    Fundo de Apoio à Cultura da Secretaria de Cultura do Governo do Distrito Federal.
    “Inventário” não é um projeto novo. Está em execução há mais de dez anos. No entanto,
    um projeto como este, executado por um homem cis e com esta justificativa, não cabe
    mais. Não, ao menos, sem que as mulheres possam se manifestar publicamente.

    Decidimos publicar esta nota com o intuito de mobilizar a sociedade para as discussões
    que têm sido realizadas em nossos grupos a respeito desse projeto. Trata-se de uma
    expressão, até então privada, de nosso desagrado quanto a características do projeto
    que parecem reforçar o que, há anos, nós e as que vieram antes de nós tentam
    combater. De forma sutil e complacente, o projeto perpetua um machismo estrutural,
    na medida em que reduz nossa expressão artística, política e social à exposição do corpo
    e contribui para o processo histórico de invisibilização do nosso lugar de fala sobre
    nossos próprios corpos.

    Somos mulheres que trabalham com imagem no Brasil. Somos trans, cis, negras,
    asiáticas, brancas, de várias idades, identidades e orientações sexuais que, diariamente,
    lutam contra a misoginia, o machismo, o racismo que, tradicionalmente, imperam em
    nossa atividade. E somos muitas.

    O intuito é o de que as reflexões aqui elencadas sejam compreendidas como um debate
    pela inclusão, e não apenas de nossas vozes, mas também de nossos olhares e
    expressões, em nossas capacidades profissionais – e aqui damos as mãos a todas as
    mulheres, de todas as áreas de atuação, pois o que sofre uma sofrem todas. Algumas
    sofrem dupla ou triplamente por causa da cor da sua pele ou da sua condição social.

    Buscamos, especialmente, a abertura real ao diálogo sobre um tema que nos concerne
    particularmente. Queremos, aqui, ativar um processo para a escuta genuína de nossas
    vozes – diversas, porém uníssonas e coletivas, numa perspectiva de que possam ser
    acolhidas décadas da luta que temos travado com a sociedade brasileira, inclusive no
    campo das disputas pelo nosso protagonismo e pelas narrativas de visibilização e de
    representação dos nossos corpos.

    De início, chama nossa atenção o título do projeto. “Inventário” se refere a um catálogo
    de bens e seu uso remonta ao período colonial, quando pessoas escravizadas apareciam
    ladeadas a objetos como meras propriedades de seus senhores. Mesmo se imaginarmos
    que a expressão tenha sido escolhida, ingenuamente, para conotar a ideia de
    “compilação”, estamos de acordo que é de grande insensibilidade política utilizar uma
    categoria do campo da economia, um termo que equivale nossos corpos a mercadorias.

    Até onde pudemos alcançá-lo, o objetivo do projeto é fotografar, compilar, expor e
    publicar genitálias consideradas “femininas”. Aqui, acreditamos ser necessário lembrar
    que homens trans também podem ter vulvas e vaginas, e que a genitália, sem cirurgia,
    de uma trans é uma genitália feminina. Há, portanto, uma inadequação da terminologia
    utilizada.

    Embora cercado de uma certa retórica de “empoderamento” calcada, de modo
    simplista, no ato de expor a nudez como uma liberação, o projeto não parece se propor
    a uma abordagem, de fato, diferente daquelas que já são feitas, há séculos, acerca dos
    corpos possuidores de vulva e vagina. É provável que exista um conceito estético
    singular, mas não chega a oferecer novas leituras geradoras de algum impacto positivo
    na reconstrução de uma narrativa cultural sobre nossos genitais.

    Trata-se, mais uma vez, de reforçar uma noção de feminilidade como “delicada” e de
    representar a vulva e vagina pautadas por uma metáfora já desgastada. Assim, cria-se
    uma definição pessoal do que são a sensualidade e a beleza do corpo alheio, um olhar
    predatório acompanhado, ainda, da frase “deixe essa vergonha e vamos conversar?”
    que aparece nas redes em chamadas a “voluntárias” para que se deixem fotografar.
    Note-se: a chamada é por mulheres “voluntárias”, ou seja, sem remuneração, para um
    projeto em que vão atuar como protagonistas. Sem nada receber? O contrato, no site,
    é uma via de mão única que beneficia apenas o fotógrafo.

    No site do projeto, a proposta diz: “Sua expressão subtrai elementos que muitos
    consideram indispensáveis, resultando em imagens singulares da delicadeza ingênua da
    nudez” e quando nos deparamos com as imagens de “divulgação” do projeto, no perfil
    do fotógrafo no Instagram, é possível perceber que elas impõem, inconscientemente,
    um padrão de beleza opressor e que não consideram a diversidade. Ao focar-se nas
    genitais todo o resto da mulher e cada vivência, em particular, é esquecida nos corpos
    de mulheres, aparentemente, cis, uma negra e outra branca, depiladas, magras, calcinha
    de renda, em um enquadramento que não mostra seus rostos apenas suas genitais
    encobertas.

    Ou seja, o projeto agencia não só na imagem, mas no texto, a proposta de que o genital
    que uma pessoa possui está ligado, obrigatoriamente, à sua identidade de gênero, como
    se fosse imposição uma mulher precisar de vulva e vagina para ser uma mulher, ou, que
    apenas as mulheres as possuem, excluindo-se os homens trans que também podem ter
    vulvas e vaginas.

    Estes são alguns pontos que levantamos diante dos debates instaurados nas nossas
    redes nos últimos dias. Certamente, ainda muitos outros virão.

    O fato é que estamos batalhando, arduamente, para escapar da lógica à qual projetos
    como esse insistem em nos aprisionar. Trata-se de uma luta por conquistar espaços
    profissionais e de protagonismo nas artes que nos livrem dos papéis históricos aos quais
    fomos confinadas: musas e objetos sobre os quais se tecem as mais diversas narrativas
    à nossa revelia.

    Não há, intrinsecamente, nada errado em um homem cis ou qualquer outra pessoa
    retratar nossos corpos. Entretanto, historicamente, não mais é possível admitir que as
    pessoas com vaginas e vulvas apareçam em obscena minoria no espaço de
    protagonismo e em maioria enquanto objetos das mais diversas expressões realizadas
    por homens. É urgente transformar essa equação. Podemos assegurar, ainda, que se
    trata de uma questão política de grande pertinência no cotidiano que vivenciamos neste
    País.

    Por fim, é importante lembrar que trabalhamos com as mais diversas linguagens
    artísticas em toda a sua cadeia produtiva e criamos projetos, nos posicionamos de
    maneira crítica, somos profissionais com responsabilidade política, buscamos espaços e
    caminhos que transformem a espectatorialidade masculina do audiovisual, dos festivais
    de fotografia, das curadorias, dos espaços museológicos no Brasil, e não tem sido nada
    fácil.

    Acreditamos na relevância de nos posicionarmos nesse momento em que políticas
    públicas e os discursos políticos têm sido atacados a todo tempo. Acreditamos que
    debater sobre as impressões que esse projeto nos tem causado possa ser, de fato, um
    exercício democrático e pedagógico para mudar a relação histórica que coloca as
    mulheres no lugar de objeto e o homem cis no lugar de sujeito das narrativas artísticas
    sobre nossos corpos. Acreditamos que apenas por meio do debate e da reflexão
    conseguiremos empoderar mulheres e trazer homens para esta luta.

    Com esta NOTA esperamos uma reflexão e revisão nas estratégias de apresentação e
    execução do projeto.

    Assinam essa nota grupos e coletivos de mulheres que atuam nos diversos segmentos
    da Economia da Cultura no Brasil.

    Brasília, 31 de Janeiro de 2019

    MAVDF (Mulheres do Audiovisual do Distrito Federal) – DF
    YVY Mulheres da Imagem – Nacional
    Coletivo Amapoa – SP
    DAFB (Coletivo das Mulheres Diretoras de Fotografia do Brasil) – Nacional
    Plataforma Lótus de Mulheres Brasileiras Asiáticas – Nacional
    Mamana Foto Coletivo – SP e DF
    Coletiva Era – RJ
    Mulheres da Imagem Ceará

    * Imagem de capa: Colagem por Ju Coelho.

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