Carnaval: tempo de “tirar” máscaras

A ideia não é fiscalizar o passado, mas, ao contrário, compreendê-lo, analisá-lo e, com sorte, perceber as mudanças do mundo atual.

Embora o carnaval tenha sofrido grandes alterações ao longo das décadas — tanto em sua temática como em sua manifestação — algo que está sempre vivo no imaginário popular é a marchinha de carnaval.

As marchinhas sempre foram uma forma de crônica da vida cotidiana, tratando das relações humanas, algumas com conotação amorosa, outras com tom de humor. Há, porém, uma demanda recente por rever as letras dessas canções sob um ponto de vista mais crítico e alinhado com as necessidades de mudança de postura da sociedade atual.

Em época de luta por firmar a mulher como agente protagonista da História e não somente como coadjuvante na construção social, o carnaval toma uma dimensão complexa. Se, por um lado temos a exaltação da alegria e da liberdade, por outro, temos a grande exposição do corpo feminino e, com isso, a necessidade ainda maior de se impor a voz da luta atual que visa a romper com o legado de violência sobre a mulher.

Com essa ambivalência, podemos olhar canções carnavalescas e refletir sobre sua temática. A ideia não é fiscalizar o passado, mas, ao contrário, compreendê-lo, analisá-lo e, com sorte, perceber as mudanças do mundo atual.

Não se pode perder de vista que o Carnaval é uma festa popular legítima e deve ser respeitada em toda a sua história. O que não significa que não se possa transformá-la a fim de se construir integralmente uma sociedade mais justa e feliz para todos.

Há algum tempo vemos, em diversos meios de comunicação, que algumas marchinhas foram excluídas dos blocos de Carnaval de rua de São Paulo ao apresentarem, justamente, uma temática preconceituosa. Exemplo dessas canções são “Maria sapatão” e “o teu cabelo não nega”.

Dentro da temática a que nos propomos refletir neste breve texto, há diversas marchinhas que retratam a mulher. A maioria delas valorizando a beleza física, outras mencionando o comportamento de personagens femininas. É o exemplo de “Maria Escandalosa”, marchinha de 1951, escrita por Klécius Caldas e Armando Cavalcanti, dupla responsável por diversas outras canções que renderam sucesso nos carnavais da década de 50. Em “Maria Escandalosa” menciona-se a personagem que, não tendo adquirido conhecimento na escola sobre as matérias regulares, tem “corpo de sereia” e “dá aula de anatomia”. A construção da personagem é, de toda forma, carregada de conotação sexual, usando metáforas e outras figuras de linguagem para caracterizar a mulher de forma bastante superficial, sugerindo a valorização de seu corpo em lugar do conhecimento amplo oferecido pela educação formal. A mesma visão objetificada encontramos na canção “Exaltação à mulher”, em que a letra destaca a mulher como “coisa mais sublime desta vida” e “a melhor coisa do mundo”.

Não é à toa que temos blocos de carnaval abolindo essas canções. É a transformação que queremos no mundo: a mulher sendo valorizada por suas diversas facetas no trabalho, nos estudos e, quando mencionada sua beleza física, que não seja carregado de teor machista, que diminui seus demais atributos, como a inteligência e a capacidade de construir a sociedade.

O desejo da sociedade atual é que se possam criar canções para divertimento, para alegria, para a festa popular sem que, para isso, um grupo social seja desqualificado ou diminuído. Que as marchinhas preconceituosas sejam mesmo esquecidas. É possível, a qualquer momento, na hora da festa ou do trabalho, que sejamos capazes de manter nosso posicionamento crítico e nossos valores bem definidos.


Artigo publicado no Jornal Cruzeiro do Sul

Por:

Bianca Nóbrega, mestra em Literatura, escritora, professora de Língua Portuguesa da Uniso (bianca.silva@prof.uniso.br)

Denise Lemos Gomes, doutora em Educação, supervisora de ensino do Estado de São Paulo aposentada, coordenadora do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid) da Uniso e professora da Uniso (denise.gomes@prof.uniso.br)

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Bianca Nóbrega

Estudei Literatura porque sempre fui apaixonada pelas palavras. A arte e a poesia das pequenas coisas são partes de mim.

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