Lugar de mulher é na literatura e onde ela quiser!

Por Ana Beatriz Brandão, escritora.

Depois do lançamento dos meus livros “O garoto do cachecol vermelho” e “A garota das sapatilhas brancas”, recebi muitas mensagens e e-mails de leitoras contando que passaram por abusos como a personagem Melissa, e que se inspiraram na coragem da personagem para denunciar os agressores.

 “Eu senti medo, tive dúvidas se deveria denunciar. Só que, se eu o protegesse, com certeza ele faria aquilo de novo; se não comigo, com outra. E eu seria, de certa forma, cúmplice dessa violência”. (trecho do livro O garoto do cachecol vermelho)


Todos os relatos me inspiraram a escrever esta crônica, principalmente para o Dia Internacional das Mulheres, pois me dei conta da força e da importância que a literatura tem na vida das pessoas. E do quanto é importante o autor ser consciente quando escreve suas histórias.

A violência contida nas histórias me emocionou e entristeceu, mas a coragem que essas leitoras tiveram de dar um basta em tudo o que estavam passando, me trouxe um alivio imenso, pois tive a certeza que consegui passar a mensagem certa, de que toda violência deve ser denunciada, que não devemos nos calar. Dá medo, mas calar é o mesmo que aceitar, permitir que o agressor faça o mesmo com outras mulheres.

Nós, escritores, somos formadores de opinião. Quem lê nossas histórias são sempre tocadas por elas de alguma forma, e devemos usar nosso amor pelas palavras para levar a mensagem certa. Não podemos romantizar nenhum tipo de abuso, seja ele de cunho físico ou psicológico. Não devemos tornar algo como um namorado batendo em uma mulher, ou um cara lindo e rico abusando emocionalmente de uma garota, em algo romântico.

A submissão não salva e nem transforma ninguém em uma pessoa boa!

Geralmente é isso que vemos em algumas histórias: essa mensagem de que se você for boazinha e submissa, aquele cara lindo e rico, que te xinga, bate, se aproveita de uma situação de poder para te humilhar, vai se transformar em um príncipe encantado e te amar para o resto da vida.

Ser mulher não é ser fraca, submissa, oprimida. Ser mulher deve ser significado de empoderamento. E já passou da hora de nós nos apossarmos disso!

O fato de tudo ser permitido na literatura não significa que tudo pode ser feito sem responsabilidade. Imagine se as leitoras dos relatos que recebi tivessem lido uma Melissa aceitando o abuso que sofreu? Qual teria sido a repercussão que isso teria tido na vida dela? Será que ela teria denunciado seu agressor?

Quem ama de verdade não faz sofrer, não abusa, não humilha, não maltrata, não espanca.

Já é passada a hora de nós nos unirmos para fazer deste um mundo melhor, com mais compaixão, respeito e aceitação. Devemos nos unir em prol de algo que vai muito além da busca por sermos lidos. Devemos nos unir para tornarmos a vida dos nossos leitores melhor. E tomo também para mim, minhas palavras.

Espero ver uma literatura nacional forte, com os autores recebendo o reconhecimento que merecem, tendo destaque nas livrarias de todo o país, e conquistando o mundo. Mas para isso, precisamos mostrar que não é “romântico” a violência. Coisas como: abuso, maus tratos, homofobia, transfobia, racismo, criminalidade e palavras preconceituosas por causa de características físicas não são aceitáveis. Devemos escrever sobre esses temas com a consciência de que também temos que mostrar que para toda ação, existe uma reação. Que atos como esses não são “bonitos e românticos”.

E deixo um recadinho para minhas anjinhas leitoras:

Você é especial, maravilhosa e poderosa. Ninguém pode tirar o brilho que você tem dentro do seu coração. Ele pode estar meio apagado, escondido pela dor, ou pelo sofrimento, mas ele está aí, só esperando que você o deixe sair. Ninguém pode te fazer sofrer ou te humilhar. Não aceite ser menosprezada ou subjugada por ninguém! Você merece ser amada, ser valorizada, ser respeitada!


E lembre-se: VOCÊ NÃO É OBRIGADA A NADA!

Que o Dia Internacional da Mulher as palavras de “parabéns pelo seu dia” sejam trocadas por atos de respeito e reconhecimento.

Bruna Bengozi

Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

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