Por que o novo filme da Capitã Marvel é tão importante para as mulheres

Texto de Jacqueline Elise, para o Universa

O filme “Capitã Marvel” entra em cartaz nos cinemas mundiais na quinta (7). A expectativa é grande por parte dos fãs da editora Marvel, que publica os quadrinhos da personagem. A introdução da super heroína é de grande importância porque ela é tida como peça-chave para finalizar a saga “Vingadores” no cinema e, provavelmente, será a responsável por derrotar o poderoso vilão Thanos.

As mulheres fãs de HQs estão empolgadas: é a primeira vez que uma personagem feminina da editora terá um filme solo, a exemplo do que aconteceu com a Mulher Maravilha, da DC.

A atriz Brie Larson vive Carol Danvers, personagem principal de “Capitã Marvel”. Imagem: Divulgação.

Quem é Carol Danvers

Para contextualizar: a capitã é Carol Danvers, membro da Força Aérea norte-americana que, após ser exposta a um material alienígena de uma raça chamada Kree, adquire poderes extraordinários. Na Marvel, ela é uma das personagens mais poderosas dos quadrinhos. Gabriela Franco, jornalista especializada em quadrinhos e editora-chefe do site “MinasNerds”, explica que a Capitã Marvel pode ser comparada a outros super-heróis igualmente importantes e fortes na cultura pop.  Na DC, a Mulher Maravilha é capaz de lutar de igual para igual com o Super-Homem — a Capitã teria uma força comparável a dela e não havia ninguém nesse nível na Marvel.  Ela também fecha o ciclo de alguns heróis no cinema. Isso porque os contratos dos atores intérpretes de Capitão América e de Homem de Ferro vão terminar depois da estreia de ‘Vingadores: Ultimato’. Assim, ela chega para introduzir uma nova era da Marvel no cinema: trazer heróis que unem os universos galático e terráqueo.

Uma heroína com um Oscar na estante

A atriz que interpreta a personagem é Brie Larson, conhecida por ganhar o Oscar de Melhor Atriz pelo longa “O Quarto de Jack”. Larson é feminista e já se posicionou muitas vezes contra casos de assédio em Hollywood. De acordo com a especialista, esse foi um fator que pode ter pesado na hora da seleção do elenco, como estratégia de marketing. “Ela casou o papel de atitude da Capitã com a sua postura pessoal. No filme, isso fica bem claro: ela é uma personagem bem assertiva”, afirma.

Representatividade e adaptação da história

Gabriela Borges, jornalista e criadora da página “Mina de HQ” (@minadehq no Instagram) se interessa e estuda quadrinhos feitos por mulheres, pessoas trans e não binárias. Ela ressalta que ter alguém como Capitã Marvel protagonizando um longa é de grande relevância social. “No mundo todo, o movimento feminista tem tido mais voz, e os estúdios estão surfando na onda. A Carol Danvers vem como uma grande representação feminina num universo tão masculino. Quando surge uma heroína num filme, é importante para a cultura pop e é bom para as meninas mais novas, especialmente, terem outras referências. E os meninos também, porque saem dessas centradas sempre na força do homem e na submissão da mulher. Isso vai além da Marvel, é sobre a sociedade”, explica.  Para que a capitã fosse adaptada de forma que encaixasse com as tramas já retratadas no MCU e também para que não tivesse uma história de origem trágica, foi necessária a contratação de uma quadrinista que pudesse ajudar a construir o roteiro e dar um ar mais feminista ao filme.

“Nos quadrinhos, a capitã foi muito mal usada durante uma época. Em uma parte de sua história, ela foi estuprada por um alien e apareceu grávida sem saber de quem era o feto. Ainda usavam estupro como recurso narrativo — o mesmo aconteceu com a Gata Negra, do universo do Homem-Aranha. Foi por isso que a Kelly Sue DeConnick, quadrinista, foi chamada para dar esse repaginada na história da capitã nos cinemas”, conta Franco.

Boicote dos homens e mundo nerd machista

A importância de “Capitã Marvel” é perceptível, também, quando se observa o boicote organizado contra o filme. Comunidades “nerds” online têm se juntado para tentar negativar a nota da produção em sites de crítica especializada. Até o fechamento deste texto, a nota do público para o filme no site IMDB, um banco de dados de produções audiovisuais, era de 5.6, sendo 10 a nota máxima. O filme ainda não tinha sido lançado oficialmente. Para comparar, a nota de “Vingadores: Guerra Infinita”, lançado em 2018, e protagonizado por homens, é 8.5.

No Rotten Tomatoes, plataforma que agrega críticas de filmes e séries, a equipe editorial só permitiu que o público pudesse emitir suas notas após a estreia oficial.

As especialistas acreditam que essa atitude é um reflexo de posturas machistas ainda muito presentes na comunidade nerd. “O reduto nerd é masculino. Eles ficam a vida toda mergulhados nisso e a mulher representa uma ameaça nesse mundo. Para eles, é um absurdo que uma mulher domine o mesmo assunto, então querem repelir. ‘Como assim tem uma mulher tão poderosa quanto o Super-Homem? Agora tudo é feminismo, é tudo lacração’. E não é isso, a gente só está finalmente usufruindo desse espaço, já tínhamos interesse e agora podemos nos ver representadas ali”, argumenta Franco. Borges concorda: “Esse movimento deles é mais que um simples boicote ao filme, é uma negação da mulher nesse espaço da cultura pop. É ótimo ter cada vez mais mulheres no cinema, nos quadrinhos, nas séries. É um pequeno avanço. Dentro do universo, Marvel já vai ser um impulso grande porque a capitã é a primeira heroína deles a ganhar um filme solo, mas ainda falta muito, ainda mais dentro deste mundo dos heróis. Não é o mundo ideal porque ainda é muito pouco, mas é uma celebração, mesmo que tenha vindo só em 2019”.

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Bruna Bengozi

Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

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