O que vem sendo feito para diminuir a desigualdade de gênero na literatura?

Desigualdade de gênero na literatura: acho importante destacar alguns movimentos realizados nos últimos anos que estão contribuindo para que nós possamos cada vez mais conhecer e ler literatura produzida por mulheres. Não se trata de fazer um levantamento histórico completo, mas apenas de pontuar alguns projetos que julgo ilustrativos da época em que vivemos.

Sabemos que as mulheres praticaram a escrita, mesmo que por muito tempo essa atividade fosse proibida ou inibida – isso explica, em partes, o uso de pseudônimos, como no caso de Charlotte Brontë (ao usar o nome Currer Bell), Mary Ann Evans (que ficou famosa com o nome de George Eliot), entre outras. Nunca faltaram escritoras, de qualidade inquestionável e fora dos espaços que nos vêm à cabeça quando pensamos em produção literária (Europa ou eixo Rio/SP, mulheres ricas e brancas, e assim por diante).  O que sempre faltou e ainda falta é interesse em ouvir as vozes dessas mulheres.

Nesse ponto, o aumento de discussões sobre a produção literária de mulheres não pode se separar da popularização dos debates feministas, que trouxe à tona as demandas de mulheres de diversos grupos e as diferenças não só de gênero, mas também de classe e raça. Carolina Maria de Jesus, com seu Quarto de despejo, de 1960, traduzido para mais de 13 idiomas, mas pouco lido em seu próprio país, se tornou leitura obrigatória em vestibular após décadas. Hilda Hilst ganhou o reconhecimento que sempre buscou em vida, enquanto que muitas autoras jovens, apesar de todas as dificuldades do mercado editorial, conseguem publicar seus livros e ser lidas.

Por isso, acho importante destacar alguns movimentos realizados nos últimos anos que estão contribuindo para que nós possamos cada vez mais conhecer e ler literatura produzida por mulheres. Não se trata de fazer um levantamento histórico completo, mas apenas de pontuar alguns projetos que julgo ilustrativos da época em que vivemos.

Em primeiro lugar, quero falar um pouco do Leia Mulheres, que é um dos maiores e mais bem sucedidos projetos que visam dar visibilidade à produção literária feita por mulheres. A ideia começou em 2014, com a escritora inglesa Joanna Walsh que, ao perceber as desigualdades de gênero no mercado editorial, lançou a hashtag #readwomen com o simples objetivo de ler mais escritoras clássicas e contemporâneas. No Brasil, o primeiro clube presencial foi  realizado em São Paulo e começou em 2015; em Sorocaba, começou em 2016, com a mediação da Francine Ramos e da Fernanda Fontes, e desde 2018 eu estou ao lado da Fran como mediadora. Segundo um levantamento recente, há mais de 100 clubes espalhados por todo o Brasil, além de um na cidade do Porto, em Portugal. Pode parecer pouco para alguns, mas estamos falando de um projeto que chegou ao país há apenas quatro anos e não conta com qualquer ajuda financeira do governo ou de empresas; há apenas a boa vontade de todas as pessoas envolvidas, lembrando também que alguns lugares enfrentam até mesmo a dificuldade de acesso aos livros.

Eu comentei sobre a desigualdade de gênero no mercado editorial, o que significa que a maior parte das publicações são escritas, avaliadas e vendidas por homens. O que vem sendo feito para mudar esse cenário, então? Em agosto de 2017, a Folha de S.Paulo, conhecida por suas coleções, lançou uma coletânea chamada “Mulheres na Literatura”, composta por 30 títulos escritos por autoras nacionais e estrangeiras. A coleção foi alvo de críticas por ter poucas autoras nacionais, mantendo os nomes mais conhecidos (Clarisse Lispector, Raquel de Queiroz etc.) e não incluir autoras negras (e sabemos que não se trata da inexistência de escritoras negras, não é mesmo?). Concordo com essas críticas, mas acho que isso não invalida a ação inédita. Pelo contrário, torço para que saia uma nova edição que leve em conta esses apontamentos. Nós, leitoras e leitores, só iremos ganhar com a maior diversidade.

Também temos os movimentos das editoras, publicando e relançando livros escritos por mulheres. Apenas como exemplos, cito a editora Morro Branco, que comprou os direitos autorais da Octavia Butler, até então inédita no país; além do selo Via Leitura (da editora Edipro), cuja produtora editorial, a Carla Bitelli, por uma posição pessoal, buscou aumentar o catálogo de livros de autoras, lançando, por exemplo, dois livros importantes de Charlotte Perkins Gilman: Herland e O papel de parede amarelo. Isso nos mostra a necessidade não apenas das editoras contratarem mulheres, mas que essas mulheres sejam sensíveis às desigualdades de gênero.  Vale mencionar, além disso, o relançamento do selo Rosa dos Tempos, da Editora Record, no início de 2018. O selo foi fundado em 1990 pela escritora Rose Marie Muraro e pela atriz Ruth Escobar e foi dedicado a obras de gênero e interesse feminino. Desativado em 2005, voltou à tona no ano passado com o lançamento do livro da Marcia Tiburi, Feminismo em comum, escrito especialmente para o relançamento.

Livros também estão sendo organizados em torno do próprio ato de escrita das mulheres, como é o caso da obra As coisas que as mulheres escrevem, organizado pela Luciana Lhullier e que foi publicado neste mês pela editora Desdêmona.

Há também os controversos clubes do livro, sendo a TAG o mais conhecido, e que depois foram se especializando em certos temas. No caso, cito o Garimpo do Livro, que possui uma seção que você pode assinar chamada “Clube Escritoras”, com curadoria de Mellory Ferraz, mediadora do Leia Mulheres de Jundiaí e criadora do canal literário “Literature-se”.

Saindo um pouquinho do mundo dos livros em si, podemos encontrar diversos clubes de escrita e atividades como o podcast Mulheres que Escrevem, comandado por quatro mulheres, Seane Melo, Estela Rosa, Natasha Silva e Taís Bravo, e que consiste em um programa quinzenal de leitura e debate de literatura oriundo da iniciativa de mesmo nome, que realiza curadoria, divulgação e edição de conteúdo produzido por mulheres desde 2015.

Acho importante ressaltar que todas essas ações não estão descoladas de uma visão de mercado, já que as pautas feministas, de alguma forma, foram sequestradas pelo capitalismo. Se hoje vemos camisetas com frases empoderadas ou o aumento de livros escritos por mulheres nas prateleiras, não se trata apenas de uma transformação cultural, mas de uma capitalização do movimento. Novamente, não acredito que a saída seja descartar as ações, mas refletir sobre as mesmas e melhorá-las.

O ponto chave é percebermos que, pouco a pouco, as mulheres – nas mais diversas áreas de atuação – estão deixando de ser neutralizadas e invisibilizadas. No campo da literatura, não é mais admissível utilizar os argumentos de que os textos escritos por mulheres são meramente “romances água com açúcar”, “literatura de mulherzinha”, “escritos que não têm a forma estética bem apurada”, “mal estruturados”, entre outros, usados para dizer que essas obras não merecem uma leitura séria, nem passam pelo crivo do rigor crítico.

Hoje, depois de todo um movimento de resgate dos textos do passado e uma atenção maior aos textos contemporâneos, se tem e se deve ter outra visão. As escritoras existem, produzem literatura de igual ou superior qualidade e colocaram dedos nas feridas que nenhum dos nossos escritores colocou. As histórias que nós, mulheres, contamos importam; nós temos o direito de contar essas histórias.

Gostaria de encerrar com o trecho de um texto escrito pela jovem Aline Valek em 2018 sobre a existência e resistência das escritoras:

“Vai achando. Enquanto isso, continuamos escrevendo, pensando, existindo. Mais um livro. Mais outro. Nos diziam que não e escrevemos; nos empurravam para a miséria e escrevemos; diziam que este não era nosso lugar e escrevemos; nos dizem que não somos o suficiente (nem numerosas, nem boas), e escrevemos. Mais um livro. Mais um conto. Mais um poema. Vai achando que nos cansamos. Que precisamos de autorização. Da sua aprovação. Escrevemos. Se você ler, vai descobrir o quê. E também descobrir que somos tantas, com tantos estilos, vozes e temas diferentes, que não há um rótulo único onde se possa encaixar todas nós.”

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Bruna Bengozi

Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

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