Combate ao feminicídio passa pela reinvenção do masculino

Desconstrução de padrões de masculinidade tóxicos está na ordem do dia para reduzir violência contra mulher

Reportagem de Paula Ferreira, para O Globo.

A transformação da “masculinidade hegemônica” entrou na ordem do dia do combate ao feminicídio no quinto país do mundo, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), com maior número de mortes violentas de mulheres. Grupos de discussão coordenados por Tribunais de Justiça país afora promovem rodas de conversa entre agressores e abordam temas relacionados a gênero para incentivar mudanças no comportamento. Neles, está em xeque o estereótipo do homem incapaz de demonstrar fragilidade, não chorar ou falar sobre seus sentimentos.

Os padrões de masculinidade em que grande parte dos meninos são forjados carregam, dizem especialistas no tema, características autoritárias que, elevadas às últimas consequências, estariam na raiz da escalada de casos de violência contra a mulher. Até o fechamento desta reportagem, tentativas ou casos consumados de feminicídios no Brasil desde janeiro chegaram a 131, de acordo com levantamento do professor Jefferson Nascimento, da USP.

Curso aborda questões relativas à masculinidade e ao papel do homem perante a sociedade. Foto: Guito Moreto/Agência O Globo.

O desejo de romper com a masculinidade tóxica tem motivado ainda a criação de cursos voltados para discutir as posturas perpetradas pelos homens. No Rio, um seminário pago sobre o tema tem lotado sala no centro da cidade.

— O padrão do que é ser homem está marcado por uma noção de superioridade sobre as mulheres. Isso determina práticas específicas em que homens se identificam como tal a partir do agir violento. Mas não existe uma essência violenta em ser homem, é uma imagem que se constrói por uma noção de poder— explica o sociólogo Tulio Custódio.

Uma relação desigual

Criado em 2007 com base na Lei Maria da Penha, o “Grupo reflexivo com autores de violência doméstica”, coordenado pelo TJ-RJ, atende, em oito encontros, homens condenados por violência contra a mulher.

— Só faremos a ruptura da violência contra a mulher se trabalharmos com os homens. Observamos que, com os padrões sociais internalizados, os agressores imputam às mulheres a responsabilidade pelos delitos deles. Só cuidar da proteção delas não é suficiente — diz a juíza Adriana Mello, do Juizado de Violência Doméstica e Familiar do TJ-RJ.

A eficácia desse tipo de trabalho foi analisada pela psicóloga Cecília Soares, pesquisadora em gênero e violências, que acompanhou as atividades do grupo do TJ-RJ. Em sua tese de doutorado ela concluiu que os encontros têm impacto no comportamento dos agressores, mas não suficiente para ocasionar uma mudança perene.

— Os grupos freiam a violência. Depois que participam deles, boa parte dos homens pensa antes de cometer novamente uma agressão, mas isso não basta para mudar a relação de desigualdade — diz ela. A pesquisadora defende ainda que a desconstrução das relações de desigualdade e violência deve ser levada para o currículo das escolas.

Já a historiadora e professora da Faculdade de Educação da UFRJ, Giovana Xavier, aponta ser preciso abandonar conceitos estruturados há tempos na sociedade.

— Esse padrão tem muito a ver com a história escravocrata do Brasil. Mas a cultura do patriarca não condiz com a realidade. Durante a história as mulheres assumiram posições de comando em casa, na família e no mercado de trabalho — explica, acrescentando: — Esperamos que as gerações presentes e futuras de homens aprendam a reconhecer seus medos e limites. E busquem ferramentas para se reinventarem em algo mais criativo e inovador do que, por exemplo, a figura do senhor de engenho.

Estudos mostram que os homens são impactados pelas amarras da masculinidade em voga, tornando-se, muitas vezes, indivíduos isolados. Diante desse quadro, a Associação Americana de Psicologia (APA) publicou, pela primeira vez, neste mês, diretrizes para ajudar psicólogos a trabalharem com homens e meninos.

A organização justifica que a “masculinidade tradicional é psicologicamente prejudicial” e causa “ danos que repercutem interna e externamente”. Marcado pela competitividade e agressão, este comportamento aumenta a probabilidade da violência contra eles mesmos ou destinada a terceiros, especialmente, as mulheres.

Foto de capa: Paulo Pinto/ AGPT/ Fotos Públicas

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Bruna Bengozi

Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

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