Reinações de Narizinho: uma releitura anos depois

Reinações de Narizinho foi o primeiro livro que emprestei na biblioteca da escola. Estava com 7 ou 8 anos de idade, ainda aprendendo a ler, mas já sedenta por histórias. Era uma edição grande e com muitos desenhos. Ficava a tarde toda concentrada juntando as letrinhas para, então, entender palavras e, assim, alcançar alguma coisa do significado daquelas aventuras. Não comecei pelo começo. Abria o livro aleatoriamente e me engalfinhava com algumas frases. Depois, largava o livrão de lado, exausta, e passava para outra brincadeira.

Com o tempo, brincar de ler se tornou meu passatempo favorito. E quando já estava com cerca de 11 anos, em 2002, reencontrei Narizinho. A instituição em que estudava tinha seu nome em homenagem a Lobato e, por isso, o acervo escolar continha todos os títulos do Sítio do Pica Pau Amarelo. Era uma versão antiga, com muitas páginas amareladas e uma capa dura verde-escuro. A ortografia antiga era desafiadora e me deixou confusa em relação ao acento circunflexo por um bom tempo.

Em 2019, 17 anos depois, céus!, decidi (re)ler a nova edição de Reinações de Narizinho, lançada pela Companhia das Letrinhas em 2019.

A nova (e grande) publicação também possui capa dura e foi ilustrada por Lole, que, preciso dizer, me surpreendeu com as ideias nada convencionais que dialogam com o texto de um jeito interessante. Além disso, há uma introdução às reinações para chamar a atenção para o contexto histórico, leitura crítica, etc. Também há notas de rodapé, que se parecem com uma conversa de WhatsApp, com diálogos entre Narizinho e Emília, para elucidar questões sociais e de vocabulário.

 

Reler, reler-se

Reler Reinações de Narizinho foi revisitar não apenas o texto de Lobato, mas também minha própria infância. E muitas coisas que passaram despercebidas na primeira leitura, hoje saltam aos meus olhos.

Uma dessas coisas é a ambiguidade da narrativa. Na primeira leitura isso passou batido, acreditei muito em tudo, inclusive, falarei sobre isso mais pra frente. Nessa segunda leitura ficou bem evidente uma outra camada: as aventuras de Narizinho e Pedrinho podem ser interpretadas como uma brincadeira de criança. Dona Benta e Tia Nastácia entram na onda das “invenções” dos dois. O fato de Emília falar e Visconde se tornar um grande intelectual não passa de fabulações infantis, que, acredito, servem para que, tanto Pedrinho quanto Narizinho possam ser e dizer coisas que não têm coragem quando são apenas eles mesmos. A menina explora seu lado espontâneo e sincericida por meio da boneca. Já o garoto, investiga seu interesse ou admiração pela ciência.

Duas das jornadas mágicas de Narizinho acontecem, aparentemente, durante seus sonhos. Aquele cochilo da tarde que rende um sonho muito vívido, sabe? Pois então. Essa forma de compreender o texto ganha um gostinho a mais com as ilustrações de Lole. Com referências a Magritte, os desenhos da artista casam perfeitamente com a Narizinho “onironauta”.

Pense nos sentidos da palavra sonho:

  • conjunto de imagens, de pensamentos ou de fantasias que se apresentam à mente durante o sono;
  • sequência de ideias soltas e incoerentes às quais o espírito se entrega; devaneio, fantasia.

Essa visão dúbia transforma o Sítio num lugar livre para o exercício da imaginação das crianças. Um espaço onde a brincadeira é instrumento de exame do mundo. Por meio das histórias que contam, eles também descobrem a si mesmos. Vendo desta forma, Narizinho se torna uma menina conectada com seu eu mais profundo. Uma sonhadora.

O racismo forte demais

Outra coisa que chama a atenção, importante registrar aqui, é a questão do racismo. O trecho onde Tia Nastácia é chamada de “negra de estimação” logo na primeira página, as referências aos seus lábios grossos e a sua aparência incomodaram muito a leitura, borraram a magia da narrativa.

As notas de rodapé estão bem escritas e tentam incitar um debate sobre contexto histórico, assim como a introdução do livro procura chamar atenção para a leitura crítica. Apesar disso, reler esse livro foi incômodo para mim. Imagino como deve ser para uma pessoa negra…

O contexto histórico pode explicar muita coisa, mas não justifica, sabe? Vi especialistas minimizando o racismo da obra de Lobato, argumentando que esses são frutos do tempo em que o autor viveu e escreveu a obra. Entendo essa defesa, mas já que estamos falando de leitura crítica, não deixo de perguntar:

Será que na época de Lobato não existiam pessoas que lutavam por igualdade de direitos entre brancos e negros? Será que, já naquela época, não existiam pessoas que se levantavam contra o racismo? Acredito que sim. E, sendo desta forma, não seria ingenuidade demais acreditar que uma pessoa como Monteiro Lobato fosse passiva? Ele não tem nenhuma responsabilidade sobre o que reproduziu em suas obras?

Digo isso porque vi uma entrevista em que o pesquisador afirmou que “racista” era uma palavra “forte demais” para definir Lobato. Parece até que discutir o racismo em sua obra é uma forma de calúnia, uma ofensa ao autor. Ver uma mulher negra ser representada de forma depreciativa, como acontece no livro, é muito mais ofensivo às pessoas negras do que qualquer possível debate sobre as posições políticas de Lobato. O racismo no texto, esse sim, pareceu-me forte demais.

E não só: questões de gênero também, embora bem menos evidentes, não deixaram de aparecer.

Esse mesmo livro foi considerado escandaloso por conservadores da época de seu primeiro lançamento, em 1920, e acaba trazendo tantas discussões hoje em dia. Ítalo Calvino disse que clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer. Da mesma forma, cada leitor, em sua época e com sua bagagem, é capaz de questionar e refletir de uma maneira diferente sobre um texto rico.

Esses pontos são uma ótima oportunidade para conversar com a criança sobre a leitura e introduzir desde já a leitura crítica.

Como escritora, no entanto, não deixo de refletir sobre a representação de situações de opressão na literatura. O autor é diretamente responsável pelas opiniões e situações que cria em suas histórias? Recriar situações dessas na ficção serve para denunciar, promover reflexão ou apenas para reproduzir? Essas questões ainda atravessam minha vivência e, se você tiver alguma contribuição, por favor, vamos conversar nos comentários!

 

A formação como leitora ativa

Os livros são objetos envoltos em uma mistificação. Minha mãe costumava (e ainda o faz) se referir ao ato de ler com a palavra “estudo”. Não podia me ver lendo que logo comentava: “Estudando de novo, filha?”. E não era só a forma de minha mãe falar, tudo que rodeia os livros tem essa aura solene, de algo importante, venerado, superior e cultuado. Toda essa romantização do livro, do escritor, da própria escrita e da leitura influenciam a forma de ler. Influenciaram minha identidade enquanto leitora. E por muito tempo procurava apenas aprender, apenas absorver o conhecimento contido nos livros que lia, como se a própria leitura fosse um estudo. E como se o estudo fosse algo passivo.

A conquista da minha própria visão, o resgate da minha opinião sobre o que lia foi construída aos poucos. E não tenho vergonha de dizer: esse processo é recente. A bem da verdade, ainda está em curso. Será que ele acaba antes de nossa própria vida chegar ao fim?

É espantoso pensar que, na primeira vez em que li Lobato, absorvi o preconceito do texto como quem aprende lições. Na época não tinha ninguém com quem conversar sobre as leituras e digeri as reinações como pude.

Essa releitura me rendeu muito em que pensar. Essas são questões para refletir por uma vida, sem chegar a um consenso. Ao mesmo tempo, aprender formas diferentes de responder a essas perguntas nunca será perda de tempo. Afinal, ler deve ser uma atividade ativa, que envolve fazer muitas perguntas, conectar conhecimentos e desenvolver o pensamento crítico.

Para quem quer se inteirar nas discussões sobre a obra de Monteiro Lobato, deixo algumas referências que me foram úteis:

 

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Mari Mendes

Estudante de jornalismo e redatora. É autora de Potências do Encontro, livro de contos acolhido e publicado pela Editora Patuá, com lançamento previsto para 2019. Escrever, para ela, é se amar.

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