Feminismo e sociedade: rupturas e reconstruções possíveis

Nem bem chegou o final de seu primeiro trimestre e, ainda assim, 2019 já tem se mostrado um ano difícil. Em tão pouco tempo, um novo presidente assumiu o governo buscando mudar – embora tenha encontrado certa resistência – os rumos de toda uma nação: a posse de armas foi facilitada, o projeto de Reforma da Previdência começou a ser colocado em prática disfarçado de medidas contra fraudes, vide Medida Provisória n. 871 editada em janeiro que, longe de ser o “pacote anti-fraudes” que está sendo vendido, nada mais é que uma “minirreforma” que já vem debilitando diversos benefícios, tais como o auxílio-maternidade, a pensão por morte, principalmente, em detrimento dos dependentes menores de 16 anos, e o auxílio-reclusão. Além disso, inúmeros escândalos permeiam os 100 primeiros dias do novo governo, reduzindo drasticamente sua credibilidade. Também ocorreu o rompimento da barragem de Brumadinho/MG, que resultou em um dos maiores desastres com rejeitos de mineração no Brasil, um massacre em uma escola em Suzano/SP, e, como se não bastasse tudo isso, recentemente mais um ex-presidente foi preso, embora haja sérias dúvidas se essa última notícia é de fato ruim. O fato é que há motivos de sobra para esperarmos um cenário desanimador para o futuro. Mas nem tudo está perdido! Na verdade, há boas razões para comemorarmos, apesar dos pesares, e como estamos em março, mês dedicado às mulheres, porque não ressaltarmos aqui as mais recentes conquistas delas que são as homenageadas do mês? Para isso, antes preciso fazer uma breve análise da nossa história recente, então vamos nessa!

Recentemente, li uma entrevista concedida pela antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, doutora em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), à UOL Notícias, publicada em 1° de março de 2019, na qual ela falou sobre a etnografia longitudinal (método de pesquisa que visa analisar as variações nas características dos indivíduos pesquisados ao longo de um período de tempo), realizada por ela desde 2009 sobre consumo e política entre jovens do Morro da Cruz, a maior periferia de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Esta pesquisa, feita em coautoria com sua colega Lucia Mury Scalco, também doutora pela UFRGS, intitulada “Da esperança ao ódio: Juventude, política e pobreza do lulismo ao bolsonarismo”, chegou a ser publicada em livro nos Estados Unidos pela Watson Institute for International and Public Affairs, e despertou o recente interesse de acadêmicos norte-americanos que buscam se aprofundar no estudo das semelhanças e diferenças com o “trumpismo” de sua terra natal.

Em trecho da entrevista, a antropóloga revelou que, em sua pesquisa, “as mulheres brasileiras também estão conquistando um espaço que outrora não existia”. E ela vai além ao concluir que “a grande ironia foi ter sido necessário o sistema colapsar para que elas ganhassem esse espaço, porque no establishment da esquerda também não havia lugar para elas”. A conclusão a que as autoras chegaram se baseou em diversos movimentos sociais e políticos que se tornaram fenômenos nacionais no período, tais como os rolezinhos, que “sinalizavam afronta e reivindicação ao direito à circulação nos espaços urbanos”, e as ocupações secundaristas, “a virada anticapitalista da juventude”, estas últimas em grande parte protagonizadas pelas meninas, que cada vez mais vêm disputando o discurso político dentro e fora da sala de aula, e após as quais houve uma “multiplicação de coletivos negros, LGBTQ+ e feministas”.

No final do ano, eu havia lido um livro intitulado “Mulheres, Ditaduras e Memórias”, com relatos de mulheres feministas que vivenciaram a Ditadura Militar brasileira entre 1964 e 1985, especialmente para o evento Leia Mulheres Sorocaba: Especial “Ditadura militar brasileira”, última edição de 2018, elaborado com muito carinho pela Francine Ramos e pela Bruna Bengozi para nos ajudar na preparação para os tempos difíceis que – já sabíamos – estavam por vir. Em alguns momentos do livro, a autora revela situação semelhante entre a esquerda brasileira daquele período. Em contrapartida ao establishment da época, a esquerda politicamente organizada aceitava mulheres em seus quadros políticos. Porém, ainda relegavam a elas cargos de menor importância dentro de sua estrutura, tais como o de secretária e o da “moça do cafezinho”, repetindo a fatídica situação brasileira de se ver um oprimido pela classe dominante assumindo o papel de opressor entre seus pares.

Fazendo uma análise mais ampla desse fenômeno, percebemos que recentemente houve uma ruptura social das classes ascendentes, que praticamente implodiram, desfazendo toda sua base de apoio. Sim, eu falo de classes dos rolezinhos nos shoppings centers, que outrora reivindicava seu direito à circulação nos espaços urbanos. Ao que tudo indica, essa ruptura se deu ao mesmo tempo em que insurgiram as vozes femininas disputando o discurso político nos mesmos espaços que os homens antes ocupavam sozinhos. Tal atitude provocou a repulsa de muitos dos homens que, apesar de até então terem sido economicamente oprimidos em um meio social mais amplo, em seu próprio meio eles eram, sob diversas formas, os opressores.

Essa repulsa surgiu do medo que alguém tem toda vez que se percebe no risco iminente de perder um privilégio de nascença. Isso pode ocorrer por diversos motivos que não vem ao caso analisar isoladamente aqui, valendo apenas ressaltar que nem sempre é pela conclusão rasa a que geralmente se chega, ou seja, de que essas pessoas sejam egoístas, que só pensam nelas mesmas. Muitas vezes elas nem percebem que, embora despossuídas e oprimidas em relação à sociedade como um todo, ainda assim elas podem ser consideradas privilegiadas em relação a uma parcela dessa sociedade, pelo simples fato de serem homens, brancos, hétero ou cis, por exemplo, frequentemente essas coisas todas juntas.

Isso não quer dizer que a vida dessas pessoas esteja fácil, nem que esse privilégio seja culpa delas. Mas, sim, isso é consequência de toda uma estrutura social preexistente à qual elas apenas se amoldam desde o nascimento. Portanto, quando alguém aponta esse quadro social, não está acusando o homem branco hétero cis com quem ela está falando de ter alguma coisa de errado, ou ainda, de ser quem ele é, mas apenas está constatando o fato de que a estrutura social em que este homem branco hétero cis se insere o favorece, independentemente de ele ter ou não ter feito algo para que isso ocorresse.

Entretanto, o enfrentamento desse sentimento de perda da pessoa privilegiada demanda um debate público amplo e geral, voltado ao reconhecimento da existência desse privilégio, que muitas vezes não é percebido como tal, e, ainda, da necessidade de combatê-lo para assim reduzir as desigualdades, ainda que isso signifique a necessidade de adaptação à nova estrutura social – essa mais igualitária – que se pretende criar em substituição à atual, que hoje é pautada na manutenção dos privilégios das classes dominantes.

Essa reflexão, necessária ao desenvolvimento de qualquer política pública progressista que busque enfrentar privilégios e combater desigualdades, não foi feita – ou ao menos não foi feita adequadamente – pela esquerda progressista. E isso teve consequências desastrosas para o equilíbrio social,  como bem demonstra a etnografia longitudinal da antropóloga citada, com a guinada à direita de parcelas significativas da população mais pobre, a mesma população para as quais são voltadas principalmente as políticas públicas da esquerda progressista, mas que, em razão da ausência de reflexão, ao invés de compreender a necessidade de mudanças na estrutura, deixou de se sentir representada pela esquerda.

O mesmo ocorre com uma parcela da população feminina que, por diversas razões, em um determinado momento não se viu mais representada por uma esquerda que, a despeito da luta contra o machismo estrutural dentro da sociedade, assim como os homens do rolezinho, é igualmente machista na luta pela manutenção do protagonismo dos homens nos espaços políticos de discussão, e assim encontrou novas alternativas de representação através do feminismo liberal, individualista e mais afeito às ideias da direita.

Nesse contexto, é essencial assumirmos a nossa mea culpa antes de apontarmos qualquer outro possível culpado. Isso porque, quando esteve no poder, embora tenha logrado êxito em diversas frentes sociais, por longos anos a esquerda deixou acumulando sua própria sujeira embaixo do tapete, o que uma hora se tornou insustentável. Assim, um governo abjeto foi eleito, graças à ruptura das diversas camadas sociais que compunham a esquerda progressista, que não apenas se desmantelou, principalmente, pela ausência de reflexão e de autocrítica, mas que, também, em algumas situações, entregou votos diretamente a esse governo, algo que até então era impensável.

Fato é que, por todas essas razões, a sociedade brasileira como a conhecíamos entrou em colapso. Mas o ponto aonde eu quero chegar é que, ao que parece, esse colapso era algo necessário, e eu explico o porquê mais adiante. Por natureza e por vocação, eu sou um eterno reformista. Sempre busco ver o lado bom da realidade posta e corrigi-la apenas naquilo em que ela precisa ser corrigida, sem nunca romper completamente com as estruturas existentes. Talvez eu pense assim por acreditar que rupturas são sempre extremamente desgastantes e, na maioria das vezes, têm consequências desastrosas. Porém, toda regra comporta exceções. Certas coisas, em determinados momentos históricos, só são possíveis com a ruptura do sistema vigente, que não aceitaria, de modo algum, a mudança que se pretende.

Esse, a meu ver, é um exemplo claro da exceção ao reformismo. Embora houvesse diversas frentes de combate às desigualdades, ao preconceito de qualquer espécie e à exclusão social, sempre nos deparamos com uma situação-limite, a de que o macho não está pronto, nem sequer disposto, a perder o papel de protagonista em nenhuma circunstância. Muito ao contrário, em diversas ocasiões ele vêm tomando de assalto o protagonismo alheio para si: ele aceita a liberdade de negras e negros, desde que ele é quem tenha concedido a abolição da escravatura; ele aceita a homossexualidade, desde que ele é quem seja o bom samaritano que perdoa a todos os pecadores; ele aceita a liberdade da mulher, desde que ele seja feminista e esteja na linha de frente do combate à misoginia e ao machismo, porque o combate, no fundo, é coisa para eles, os homens.

Na maioria das vezes, a ruptura tem consequências desastrosas, como eu havia mencionado. Dessa vez, infelizmente, provavelmente não será diferente. Mas essa ruptura era necessária. É graças a ela que as mulheres protagonizaram as ocupações secundaristas e disputam, cada vez mais, o discurso político dentro e fora da sala de aula. É essa ruptura que inspira a crescente criação de coletivos negros, LGBTQ+ e feministas pelo país afora, assim como impulsiona espaços de comunicação, de diálogo e de informação que trazem os olhares femininos até então pouco conhecidos pelo público em geral sobre os mais variados assuntos, tais como o Podcast Mamilos, produzido e apresentado pela Ju Wallauer e pela Cris Bartis, que eu faço questão de mencionar sempre que possível, ou como a Hysteria, plataforma de conteúdos “sonhada, criada e produzidas por mulheres”, nas palavras delas mesmas, ou como a Livro & Café, que dispensa apresentações aqui, assim como tantos outros espaços incríveis feitos por mulheres para todo mundo que eu poderia mencionar por horas a fio aqui. Ainda, é graças a essa ruptura que as mulheres conseguiram, por exemplo, que fosse aprovada no Congresso Nacional a legislação que trata da misoginia na internet, a Lei Lola, em 2018, ou, então, ainda neste mês, que a OAB passasse a considerar a violência contra a mulher prova da ausência de idoneidade moral para o exercício da advocacia que impede a inscrição de novos advogados.

Enfim, essa ruptura foi necessária para legitimar todas essas conquistas das mulheres, tirando, assim, a pecha de que elas teriam sido concedidas pelos homens por sua virtude e benevolência. E, nesse sentido, essa ruptura deve ser comemorada! Quanto a nós, homens, devemos entender que as mulheres não estão tentando roubar esse protagonismo que sempre ocupamos indevidamente. Esse espaço é de superioridade e não cabe a ninguém! O que elas estão fazendo é criar um espaço até então inexistente, um espaço de igualdade, para que nós ocupemos juntos, lado a lado. Cabe a nós, homens, a partir de agora, partilharmos desses espaços ouvindo suas experiências, conhecendo os seus olhares e aprendendo com suas vivências para que, assim, possamos elaborar, com elas, a reorganização da sociedade – que precisava dessa ruptura como uma semente precisa se romper para então surgir uma nova árvore – em outra mais inclusiva, mais igualitária e mais solidária que precisamos ser de agora em diante.

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Diogo Miguel

É advogado no escritório Martins Miguel Advocacia e Consultoria. Adora ler livros, assistir filmes e séries e ouvir podcasts. Além disso, também é aspirante a fotógrafo e se interessa por conversas sobre arte, cultura, educação, política e sociedade.

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