Precisamos ressignificar Clarice Lispector

Querido diário de leitura, parece que não lhe dei atenção neste mês. Não foi por falta de assunto, mas sim de oportunidade de estar em meu teto e poder pensar sobre minhas leituras, minha vida e minhas escolhas. É por isso, afinal, que tenho essa coluna chamada Diário de Leitura. É sobre a leitura de livros, mas também sobre ler-me.

O mês foi de mergulhar novamente em Clarice Lispector. Tentei reler alguns romances, não deu certo. Mas funcionou muito bem revisitar alguns de seus livros de crônicas e outros textos difíceis de classificá-los em um gênero textual, o que pouco importa, na verdade.

Quando me perguntam sobre os livros de Clarice Lispector que mais gosto, me vem à mente o pouco comentado A maça no escuro. Mas como ele não representa o estilo mais intenso de Clarice e tenho um pouco de dificuldade para explicar porque é o meu preferido, acabo deixando de lado essa primeira ideia e respondo que o meu preferido é A paixão segundo G.H., o que também não deixa de ser uma grande verdade, porque, quando se trata de experiência pessoal com um livro, é neste que percebi pela primeira vez o quanto a literatura é potente, o quanto ela pode fazer mudar o curso de nossos próprios rios.

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Então, neste mês de mergulho clariceano, reli alguns trechos do livro “Outros escritos” e sorrisos saíram dessa minha cara cansada a partir dessa incrível experiência de releitura. A Francine de tantos anos atrás que leu Clarice Lispector não sabia muito sobre feminismo, apesar de já ter atitudes feministas. A de hoje, possui um pouco mais de consciência sobre si, sobre o feminismo, o patriarcado, o país em que vive e tudo mais.

Assim, me veio à cabeça, depois do encantamento que eu, de verdade, pensei que não sentiria mais em relação à obra de Clarice Lispector, que é preciso ressignificar a ideia que temos de Clarice Lispector.

Muitas vezes considerada uma escritora que não se importou com questões sociais do Brasil e tampouco se posicionou perante o seu lugar de fala e o mundo, em Outros Escritos, podemos ver outros lados de Clarice, diferentes daquele moça fina que escrevia crônicas “femininas” para jornais.

E, talvez, toda essa urgência que sinto em olhar Clarice Lispector de um outro modo, tenha começado quando reli A Hora da Estrela e tudo sobre Macabeia e sua miséria me atingiu totalmente. Ali Clarice fez uso da metalinguagem, buscou na vida quase insignificante de Macabeia uma revelação dolorosa a respeito de nosso país e as camadas sociais que nos dividem. Ela também produziu um efeito de transformar Macabeia em algo mítico e mágico, como se ao mesmo tempo que denunciasse o quanto somos como ela, seria impossível aceitar tal definição, uma vez que conhecer Macabeia é transformar-se e, portanto, ela é algo especial. E somos especiais?

Era isso, agora tenho certeza, que ficou maturando em mim para que neste mês de março de 2019 eu relesse Outros Escritos e pudesse ver essa outra Clarice.

Selecionei três excertos que considero primordiais para ressignificar Clarice Lispector.

1. Clarice Lispector e as leis: “Observações sobre o direito de punir”

“Não há direito de punir. Há apenas o poder de punir. O homem é punido pelo seu crime porque o Estado é mais forte que ele, a guerra, grande crime, não é punida porque se acima dum homem há os homens acima dos homens nada mais há.” (p. 45)

“Houve um tempo em que a medicina se contentava em segregar o doente, sem curá-lo e sem procurar sanar as causas que produziam a doença. Assim é hoje a criminologia e o instinto da punição. (…) Surge na sociedade um crime, que é apenas um dos sintomas dum mal que forçosamente deve grassar nessa sociedade. Que fazem? Usam o paliativo da pena, abafam o sintoma… e considera-se como encerrado um processo. Como então imaginar que o fundamento desse poder que a sociedade tem de punir está na sua legitimidade, se essa legitimidade só se explicaria por sua utilidade? (…) A punição esqueceu-se de encarar a reincidência no seu sentido lato. (…) Só haverá direito de punir quando punir significar o emprego daquela vacina de que fala Carnelucci contra o gérmen do crime. Até então seria preferível abandonar a discussão filosófica dum “fundamento do direito de punir”, e, de cabeça baixa, continuar a ministrar morfina às dores da sociedade.” (p. 48 e 49)

Ao ler esse texto, fiquei realmente encantada pela lucidez em que ela analisa o direito e o poder que tanto dilacera a nossa sociedade. A clareza com que ela explica o difícil sistema de punição de nosso país (e de outros lugares também) me faz pensar no quanto ela estava a todo tempo criticando as esferas de poder. Impossível não lembrar do conto Mineirinho.

No final do texto, há uma nota, sobre um colega de faculdade que considerou o seu texto sentimental. Clarice o responde com tanta sabedoria e ciência de sua posição enquanto mulher que eu fiquei me perguntando: como dizem que Clarice Lispector não era feminista?

Assim veio a primeira parte de minha ressignificação.

2. Clarice Lispector e o trabalho: “Deve a mulher trabalhar?”

Ela também tinha uma veia jornalística. Entrevistou alguns alunos de Direito sobre o direito da mulher trabalhar ou não. Antes de apresentar os entrevistados, relatou suas ideias a respeito.

“Num momento de crise, haviam apelado para o seu auxílio. Sua reação surpreendeu o mundo e, sobretudo, a ela mesma, provando-lhe qualquer coisa de absolutamente novo: a mulher também pode.

Essa descoberta foi a causa do problema surgido na sociedade e, simultaneamente, de um conflito interior nascido na própria mulher.” (p. 50)

Entre toda a complexidade do tema, um homem respondeu que a mulher não deveria trabalhar, pois a “mulher nasceu para se dedicar exclusivamente ao lar, à família, e não para cultivar qualquer espécie de trabalho…” E continua um pequeno relato das ideias e concepções embutidas nesse homem. Ao final da entrevista, Clarice faz uma pergunta que surpreende:

“- Tem notado alguma diferença de nível intelectual, entre os colegas masculinos e femininos, desde o curso primário até agora?

A pergunta é insidiosa. Romulo reluta um pouco.

– Não, diz depois” (p. 52/53)

Clarice Lispector, sempre tão conhecida por sua capacidade de colocar o leitor em uma arapuca existencial, entretanto sem conectá-lo ao mundo exterior (social, político etc), demonstrou, para mim, nesse pequeno relato, o quanto ela estava atenta ao mundo à sua volta. O quanto, como mulher, ela estava questionando.

Assim veio a segunda parte de minha ressignificação.

3. Clarice Lispector crítica literária: “Literatura de vanguarda no Brasil”

Ela foi a única mulher convidada a realizar uma palestra sobre literatura brasileira no Texas, no ano de 1963. Assim produziu um ensaio belíssimo sobre o tema. Na época, algumas de suas obras estavam sendo traduzidas para outros países, portanto, ela já era um nome grande no meio literário. Uma pequena declaração a um jornal americano trouxe para mim mais um pouquinho de ressignificação.

“Nosso país, o Brasil, é um país demasiado grande. Nós não conhecemos a nós mesmo. E usamos a literatura como um meio mais profundo de autoconhecimento.” (p. 94)

Nesse ensaio, é possível vislumbrar a mente tão vasta de Clarice e até mesmo olhar com outros olhos para a sua obra, considerada erroneamente por muitos, como literatura “de mulherzinha”. A sua linguagem, a sua sintaxe, tão particular, é também uma forma de se encontrar e buscar o que seria esse povo brasileiro. Está tudo lá. Como um momento de implodir. Em sua obra ela captou esses segundos. Esses momentos em que as pessoas estão dentro de si e vão para frente, logo mais, viver a sua consciência e pode transformar a sociedade em algo maior. Mesmo que depois venha uma explosão.

“A linguagem está descobrindo o nosso pensamento, e o nosso pensamento está formando uma língua que se chama de literária e que eu chamo, para maior alegria minha, de linguagem de vida. Quem escreve no Brasil de hoje está levantando uma casa, tijolo, por tijolo, e este é um destino humano humilde emocionante.” (p. 106)

Obrigada, Clarice Lispector.

Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

2 Comments
  1. A jovem Clarice tinha mesmo umas tintas de feminismo; seus primeiros escritos mostram os isso muito bem. Mas o feminismo juvenil desintegra-se com o passar dos anos. Na sua fase madura, jamais se identificou como feminista, e nunca teve a menor ligação com o movimento. E Clarice não estava só: também Rachel de Queiroz, Cecília Meireles e, se não me engano, Lygia Fagundes Telles nunca se colocaram como feministas. A tentativa de enquadrá-las nesse grupo, indo contra o repetido depoimento das próprias escritoras, se me afigura teimosa, cega e insustentável…

    1. Olá, João!
      O feminismo vai muito além de se colocar como tal, muito além do movimento. E não defini-se pela ideia de um homem sobre o assunto.

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