Falar sobre política: uma contaminação que esvazia

Há uma tendência que muito me incomoda. E é difícil falar dela usando apenas uma palavra. Mas é um sentido, um caminho que leva a obediência cega ao senso comum, disfarçado de conhecimento adquirido pelas frases de efeitos e comparações simples sobre o que é certo ou errado; o bom e o ruim; a inteligência e a burrice.

Talvez, esse caminho raso apareça no discurso e na vida de uma pessoa em todas as suas esferas, mas que fica mais evidente quando o assunto é a temida política. Um campo sempre tratado com olhares de algo do mau, da corrupção, do crime, da enganação. Portanto, quando há a frase de efeito ou uma interpretação reducionista, essa força violenta emerge, os olhos se arregalam e a violência verbal atinge escalas complexas e ao mesmo tempo denunciam o vazio da linguagem, da comunicação, da empatia e do respeito.

É assim que todos se tornam presas fáceis de um sistema que talvez não tenha dono, mas que pode ser aproveitado por todos aqueles que colocam a sensação do poder e da persuasão à frente de qualquer pequena atitude mais humana.

Curiosa e asquerosa é a postura daquele que branda aos quatro ventos a podridão da política ao mesmo tempo que possui a solução para todos os problemas. E segue firme em seu caminho de falar sobre política e mal sabe a contaminação em que se encontra. A direção é o vazio, o caos.

É muito difícil não cair nessas armadilhas do caminho simplificado, pois é muito mais fácil inflar o próprio discurso para agradar quem está à volta ou até mesmo para se sentir mais próximo de alguém admirável. Temos tantos problemas, mas cada vez percebo que o mais importante é não esquecer que o sonho de todo oprimido é ser opressor, como nos ensinou Paulo Freire e, portanto, muitas vezes o discurso de ódio é só mais uma camada do vazio de ter sido oprimido e querer livrar-se dessa opressão transformando-se em mais uma figura opressora, mais uma figura de poder.

De repente, percebo que se esse caminho fosse em linha, mesmo com curvas perigosas e túneis escuros, não seria tão sofrido, mas é uma grande roda que movimenta-se por uma força perpétua. Como pará-la?


Imagem: Banksy

Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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