Astrofísica para apressados (Neil deGrasse Tyson) e nosso lugar no universo

Alguém pode estar se perguntando o que uma resenha sobre um livro de astrofísica está fazendo em uma revista que se propõe a falar sobre literatura e artes em geral. Sendo assim, vou dar um pouco de contexto. Primeiro, eu me sinto uma astrônoma frustrada. Não tive boas aulas de Ciências durante o Ensino Fundamental feito em escolas estadual e municipal, uma vez que estas não tinham laboratórios nem professores constantes (obrigada, governo PSDB). Então, quando cheguei ao Ensino Médio e me propus a fazer a Olimpíada de Astronomia, foi um show de horrores. Apesar do trauma, que levou à minha formação em outra área, sempre mantive o interesse e as leituras sobre esse campo. Segundo, porque inicio esta resenha no dia em que a Astrofísica deu um dos passos mais importantes deste século: a primeira imagem de um buraco negro, fruto de uma colaboração internacional que levou anos de pesquisa e comprovou diversos aspectos da teoria da relatividade de Albert Einstein, logo, é motivo de grande emoção não só para mim, mas para qualquer pessoa que saiba o impacto desta notícia. Terceiro, porque ao abrir os comentários sobre esse evento, foi outro show de horrores. Chegarei neste ponto.

A astrofísica requer conhecimentos físicos e químicos, na maioria das vezes, complexos, então fiquei intrigada quando vi na biblioteca um livro intitulado Astrofísica para apressados, escrito pelo Neil deGrasse Tyson e publicado pela editora Planeta em 2017, com tradução de Alexandre Martins. Se não reconheceu o nome do autor, ele é um dos astrofísicos e divulgadores científicos mais conhecidos da atualidade, tendo participado da nova versão de Cosmos (série consagrada por Carl Sagan) e do seriado The Big Bang Theory.

Se ainda não reconheceu o nome, talvez o meme de Neil deGrasse Tyson te ajude.

A obra se propõe a ser uma introdução ao campo da astrofísica “para quem tem pressa”. Assim, minha expectativa era encontrar um livro com conteúdo bem mastigado. Porém, apesar de escrever de maneira acessível e com seu típico bom-humor, Tyson manteve diversos conceitos complexos, enquanto que a abordagem é, de fato, bem enxuta ao longo de 12 capítulos. Como eu havia finalizado recentemente um curso introdutório de Astrofísica pela UFSC, a leitura não foi tão complicada, mas fico imaginando como seria ler tal material tendo como base apenas conhecimentos do ensino básico. De qualquer forma, isso não retira o caráter de divulgação da área e serve como um excelente ponto de partida para curiosos e para aqueles que estão iniciando estudos e buscarão outras obras.

A leitura fluiu bem, mesmo nos momentos em que o Tyson abordou temas mais abstratos, como matéria e energia escuras. Porém, no último capítulo, senti como se tivesse sido atingida por um meteoro (desculpem o trocadilho). A parte, intitulada como “Reflexões sobre a perspectiva cósmica”, introduzida por uma bela citação de James Fergunson, astrônomo escocês que viveu no século XVIII, é um verdadeiro manifesto do autor sobre o nosso espaço no universo e sobre o quanto pensar sobre os elementos cósmicos coloca as nossas ações em perspectiva. Sim, somos praticamente nada diante da vastidão do universo; não somos tão inteligentes nem tão diferentes como pensamos. Soa pessimista, mas não é. Essa constatação nos coloca numa posição de humilde, coerência, união. Somos seres integrados à natureza da Terra e ao universo em si, afinal, somos “poeira das estrelas”.

“De todas as ciências cultivadas pela humanidade, a astronomia é reconhecida por ser, e sem dúvida é, a mais sublime, a mais interessante e a mais útil. Pois graças ao conhecimento produzido por essa ciência não apenas a magnitude da Terra é descoberta […] mas nossas próprias faculdades são ampliadas com a grandiosidade das ideias que ela transmite, nossas mentes exaltadas acima de [seus] preconceitos inferiores adquiridos.” (James Fergunson, 1757)

Essa visão de Fergunson, compartilhada por Tyson e tantos outros, também encontra eco no pensamento de um cientista que muito admiro e é um exemplo para a ciência brasileira: Marcelo Gleiser, cosmólogo e professor na Dartmouth College.

“Ao desvendar o código da criação, transcendemos nossa essência humana, estabelecendo uma conexão com uma dimensão além do tempo. […] Existem muitos caminhos que levam ao conhecimento do mundo e de nós mesmos, e as artes e as disciplinas humanas têm um papel complementar ao da ciência. Todos são tentativas de compreensão da dimensão humana.” (Marcelo Gleiser, 2015)

Mas esse capítulo de Astrofísica para apressados também lança um lembrete sobre a necessidade de mantermos a nossa curiosidade. É a curiosidade que nos leva a olhar os céus, mas também a olhar os outros e a nós mesmos; é ela que nos leva a explorar, a fazer pesquisa, arte, literatura. Quando nós temos escolas que não investem na curiosidade de suas crianças e jovens, quando governos não incentivam a pesquisa, cortando recursos das agências de fomento e instituições diversas, o que esperar dessa sociedade? Não consigo dissociar essa precarização do conhecimento – que dá lugar à pós-verdade – do advento de gurus, como Olavo de Carvalho, que é “capaz” de “refutar” Einstein, e da proliferação de terraplanistas e de pessoas que afirmam que tudo relativo à ciência não passa de “mentira”, “montagem mal feita” – como no caso da imagem do buraco negro -, ou, então, “perda de tempo e de dinheiro”.

Penso que investir em saúde e segurança pública é, obviamente, essencial, mas incentivar a ciência, assim como incentivar a cultura, tem igual importância. São áreas que nos ajudam a explorar, a enxergar o diferente, a pensar. Uma pessoa que pensa, que questiona, não se deixa manipular; uma pessoa que pensa é uma pessoa viva!

“Pelo menos uma vez por semana, se não uma vez por dia, deveríamos todos refletir sobre quais verdades cósmicas não foram descobertas antes de nós, esperando a chegada de um pensador inteligente, uma experiência engenhosa ou uma missão espacial inovadora que as revele. Poderíamos refletir ainda sobre como essas descobertas podem um dia transformar a vida na Terra. Na ausência dessa curiosidade, não somos diferentes do fazendeiro provinciano que não demonstra qualquer necessidade de se aventurar além da divisa do município porque seus 16 hectares atendem a todas as suas necessidades. Mas se nossos predecessores tivessem pensando assim, o fazendeiro em vez disso viveria em uma caverna, caçando seu jantar com um porrete e uma pedra. Durante nossa breve estadia no planeta Terra, devemos a nós mesmos e a nossos descendentes a oportunidade de explorar – em parte porque é algo divertido de fazer. Porém há uma razão muito mais nobre. No dia em que nosso conhecimento do cosmos deixar de se expandir, corremos o risco de retornar à visão infantil de que o universo, figurativa e literalmente, gira ao redor de nós. Nesse mundo desolado, pessoas e nações armadas e com fome de recursos poderão ter a tendência a agir seus ‘preconceitos adquiridos’. E isso seria o último soluço do iluminismo humano – até a ascensão de uma nova cultura visionária que mais uma vez abraçasse, no lugar do medo, a perspectiva cósmica.” (p. 178-179)

Deixo meus agradecimentos ao Tyson e a professores e professoras, escritores e escritoras, artistas e cientistas que ainda nos inspiram a buscar a bondade, a beleza e a verdade em meio a tanta ignorância.

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Bruna Bengozi

Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

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