“Digo te amo para todos que me fodem bem” e o prazer do amor próprio

Em um começo de tarde de um sábado qualquer, estiquei um lenço embaixo de uma árvore com raízes aparentes e grandes demais, que tornaram o descanso ali mais desconfortável do que eu havia previsto. Com preguiça de levantar e procurar um outro lugar entre os casais e as crianças que também tiveram a ideia de passar aquele dia agradável em um dos muitos parques da cidade, abri o livro Digo te amo para todos que me fodem bem (com capa bonita e nome sugestivo) que uma amiga me emprestou naquela mesma manhã e, com uma expectativa bem próxima ao zero, comecei a história de Vanessa.

Agora nós cortamos para umas duas horas depois e temos uma Vanessa (no caso eu mesma) arrumando suas coisas para ir embora, com dores nas costas e com fome, mas quase sem perceber, por estar impactada demais com as quase 100 páginas que acabou de ler.

Sobre a autora e o livro

Seane Melo é jornalista, doutoranda em comunicação e integrante do Mulheres que Escrevem e autora de livros e contos eróticos. Digo te amo para todos que me fodem bem foi lançado pela Quintal Edições em 2019 e é seu primeiro romance. Além dele, ela tem dois ebooks publicados, Ao vivo em goiânia: quatro contos de patroa e O primo de Aziz, além de alguns contos (incluindo uma primeira versão de alguns dos causos retratados no romance) que podem ser encontrados em seu Medium.

Digo te amo para todos que me fodem bem
Seane Melo, escritora.

Dividido em três partes, que levam nomes de antigas paixões (ou só transas mesmo), Digo te amo para todos que me fodem bem é narrado por Vanessa, uma mulher de 20 e poucos anos que mora em São Luís, tem um trabalho que detesta, escreve poemas eróticos – e precisa lidar com a imaturidade e a curiosidade que isso desperta – e sai com alguns caras.

Como uma espécie de conversa mais íntima, o livro não tem sexo mirabolante, situações romantizadas ou descrições sem nexo, tão fora da realidade que beiram ao ridículo; ele é sobre uma mulher como eu, como minhas amigas, como você e como qualquer outra que já tenha cruzado o nosso caminho.

Não existe um grande herói

Bruna Kalil Othero, que escreve a orelha do livro, diz que o que estamos prestes a ler é sim um livro de amor, mas que ele é sobre amor próprio. Ali, não existe um grande herói, um homem misterioso que chega para resolver todos os problemas da mocinha perdida e que rasga o papel laminado que envolve a camisinha de um jeito sexy (oi???), ou mesmo uma paixão arrebatadora, do tipo “príncipe encantado” que faz com que ela esqueça de suas obrigações e que, entre juras de amor eterno, a ensine alguns truques.

Os caras que passam pela vida de Vanessa são aqueles que a gente encontra nos apps, os crushes do Instagram, os amigos de amigos, os remembers ocasionais.

(A citação a seguir é gigantesca, peço perdão, mas é que eu amo demais essa parte e não podia deixar de fora da resenha.)

Esse é um daqueles anos em que me sinto cansada na maior parte do tempo e me flagro pensando no João e em como eu só queria descomplicar as minhas relações. Eu só queria casar, sabe? Às vezes acho que as pessoas não esperam isso de mim, sei lá, que me acham desapegada dessas coisas. Mas por mim já tinha casado cinco vezes. Casado sem anel, aliança, pedido ou joelhos no chão. Sem vestido, sem festa, sem “vai ser só um almoço”, sem “vai ser um churrasco só pros mais íntimos”.

Por mim, a gente acordaria no outro dia, depois da foda cansada pós-balada, e ele me perguntaria:

“Vai fazer o que hoje?”

“Sei lá, acho que vou procurar alguma coisa pra assistir.”

“Fica aí. A gente toma café e depois banha de piscina.”

“Beleza.”

E dai eu ficaria, mesmo sem ter lembrado de levar protetor solar. E, em algum momento, a gente voltaria a sentir fome e ele diria pra sairmos pra almoçar. E dai daria sono e a gente deitaria, mas decidiria transar, transaria e dormiria. E dai acordaria com fome, ele diria que ia ver o que tinha na geladeira e me ofereceria um misto.

[…] A gente comeria e eu me ofereceria para lavar a louça. Ele procuraria um pano de prato limpo nas gavetas quase vazias do armário da cozinha e ficaria me esperando entregar as primeiras louças limpas. Quando eu já estivesse pra terminar, ele viria me abraçar por trás. Pressionando o pau duro na minha bunda e me fazendo molhar a camisa na pia.

“Ow, eu poderia ter quebrado alguma coisa”, eu reclamaria.

E daria para ele do mesmo jeito. Ele ficaria com preguiça de vestir uma roupa e ligaria a TV. Então a gente assistiria a alguma coisa muito ruim por quase duas horas, até ele decidir que a gente podia estar assistindo algo decente. E daí já seriam 23h e ele estaria com preguiça de levantar e vestir uma roupa pra se despedir de mim e não seria perigoso eu voltar sozinha? “A cidade do jeito que tá…”, ele ia argumentar enquanto contornava meu mamilo com o dedo indicador. E só quando eu parasse de olhar pra ele e começasse a rir olhando praquela arrumação é que ele perceberia. Então apertaria um bico pra me provocar e depois começaria a chupar meus peitos. […]

Eu vestiria meu sutiã e consultaria as horas no celular. “Casa comigo?”, ele pediria olhando minhas coxas. “Beleza, ainda nem escureceu lá fora”, eu responderia sem confessar que estava com preguiça de me calçar. A partir de então eu viveria o eterno retorno da sarrada na pia, do sexo no chuveiro, teria um cara pegando nos meus peitos enquanto mexia o brigadeiro na panela e todas as deliciosas monotonias da vida doméstica. Eu assistira a desfiles de cuecas velhas e manchadas da primeira fila. Veria pau murcho balançando, cofrinho peludo e ainda aproveitaria um momento de descuido para dar uma mordida na bunda dele e uma fungada no pau com cheiro de guardado em calça jeans no eterno verão maranhense. […]

Por mim, não teria nenhum problema em casar. Só não saberia descasar, não sou muito boa em acabar as coisas. Deixaria nas mãos dele, como sempre deixo. E seria dolorido, né? Então começaria a repensar esse lance de casamento. Diria que não é pra mim, sabe, me acostumo fácil, me apego demais. Repetiria isso e assistiria a 500 dias com ela pra lembrar como é quando só um gosta. Então sairia com mais gente que não pode ficar pra dormir, que tem que estar na rodoviária até 10h da manhã, que tá com uns projetos. Até encontrar outra pessoa que estaria com o dia livre, e o seguinte também e, talvez, mais um.  (p. 60, 61, 62, 63)

Digo te amo para todos que me fodem bem
Capa do livro

O que não pode ser nomeado

Entre desilusões, inseguranças, crises e dias em que acorda se achando uma baita gostosa, a protagonista faz sexo, pensa em sexo e fala sobre sexo. Fala, inclusive, sobre algumas das partes que, como o Lord Voldemort, parecem não poder ser nomeadas, nem mesmo em conversas de bar. Vanessa fala sobre como é normal o cu ficar como que de ressaca depois de um anal e que acha pau grande um pouco supervalorizado, até pelas dores e sangramentos que podem vir no dia seguinte. Vanessa fala sobre transas legais que viram papos estranhos no WhatsApp, sobre as fantasias que a gente, mesmo que sem querer, cria antes daquele date que demorou meses para acontecer. Ela explica que diz “eu te amo” para todos que a fodem bem “porque, no duro, quando eles fazem direitinho, fico achando que entenderam alguma coisa muito íntima sobre mim e meus desejos” (p. 16).

Assim, Seane mostra que para se fazer literatura erótica basta retratar as várias formas de sexo, os com diálogos, com risadas, com preguiça e mesmo aqueles com encaixes estranhos, os que não deram muito certo. Que basta deixar de lado todos os sinônimos para “carne”, “buceta”, “pau” e “porra”; que o prazer pode rolar na identificação, no “isso já aconteceu comigo!” ou no “cara, isso super pode acontecer comigo”.

Que todas as amigas leiam!

De leitura leve e prazerosa (eu não podia deixar essa passar, risos), Digo te amo para todos que me fodem bem é daqueles livros que a gente quer que todas as amigas leiam, que a gente quer conversar sobre, que a gente manda partes para o boy, para a crush e até para a mãe.

É tão assustadoramente real que, para alguém com o mesmo nome da protagonista, em alguns dos momentos parecia um pouco difícil saber quem era ela e quem era eu.

Portanto, para quem se interessa por literatura erótica ou mesmo para quem pensa em escrever algo do gênero, vale assistir essa conversa (de alguns anos atrás) do ótimo e, infelizmente, falecido Clube do Livro Erótico com a Seane.

Onde comprar Digo te amo para todos que me fodem bem: Quintal Edições

* Foto da capa por Camis Fontenele.

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Vanessa Pessoa

Vanessa é uma feminista introvertida, estuda letras na UFPR e coleciona uma porção de figos maduros que apodreceram aos seus pés. Gosta de livros riscados, lombadas quebradas, café sem açúcar e não sabe muito bem como escrever sobre ela mesma.

2 Comentários
  1. Resenha Maravilhosa. Super bem escrita.
    Mesmo o título sugestivo do livro sendo suficiente para aguçar minha curiosidade, fiquei ainda mais afim de lê-lo após essa resenha.

    Parabéns pelo texto, moça.

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