Sete Anos em Sete Mares (Barbara Veiga): a coragem de uma mulher ativista

Nos últimos dias, houve um bombardeamento de notícias anunciando cortes promovidos pelo governo federal nas áreas da Educação, Ciência e Meio Ambiente. Também nos últimos dias, terminei a leitura de Sete Anos em Sete Mares, lançado pela editora Seoman (Grupo Editorial Pensamento) em 2019.

A obra traz as memórias de Barbara Veiga, fotojornalista e ativista ambiental carioca, que decidiu se lançar à vida em alto-mar dentro das embarcações do Greenpeace e da Sea Shepherd usadas no combate à exploração da vida marinha.

Tais lembranças, organizadas como entradas de um diário, nos colocam à bordo dos barcos e navios em que Barbara viveu ao longo dos anos, mas também nos apresentam sua vida em terra, especialmente as festas e viagens que ela fez por todos os continentes e também suas descobertas pessoais.

Barbara Veiga.

Foi muito emocionante acompanhar a trajetória de uma mulher que abandonou tudo – amigos queridos, uma família disfuncional etc. – para se colocar em um ambiente predominantemente masculino e em situações de extremo perigo. Sua atuação como ativista, mesmo no Greenpeace, que preza por ações não-violentas, foi recebida com perseguições, agressões e até uma prisão com ares de tortura no Caribe.

“[…] descobri que, no mar, sinto uma paz inexplicável. A imensidão, o cheiro de sal, os animais que nos acompanham pela água ou pelo ar, tudo isso me toca profundamente. Navegando me sinto em conexão com a mãe natureza, pela qual decidi lutar, disposta inclusive a arriscar o meu conforto e, por vezes, a minha segurança.”

Enquanto eu avançava na leitura, buscava ter mais acesso às campanhas e modus operandi do Greenpeace, mas Veiga não abordou em profundidade essas questões no livro. Por outro lado, quando se tratou da ONG Sea Shepherd, o tratamento foi diferente, já que ela se dedicou mais a comentar sobre as ações na Antártida contra a pesca de baleias promovida pelos japoneses (pesca esta justificada como pesquisa científica, sendo que na verdade só serve para alimentar um lucrativo mercado), ou, então, a atuação contra o massacre de baleias e golfinhos nas Ilhas Feroe, um território independente da Dinamarca que mantém essa terrível tradição, o Grindadráp, que mancha o mar de vermelho, como marca cultural.

E aqui o livro pode ser uma ferramenta para produzir grandes e importantes reflexões sobre o modo como consumimos os alimentos e o quanto certas tradições perpetuam violências contra os animais. Esse é um debate que sempre vem à tona, por exemplo, quando pensamos nos rodeios, touradas, farra do boi e tantos outros “eventos”. Veiga também indica um outro aspecto que está intimamente ligado à (falta de) proteção aos animais: interesses econômicos. Quando chega à Amazônia para protestar contra uma fábrica envolvida no desmatamento da floresta para a plantação de soja, a ativista nos lembra sobre as dificuldades dos trabalhadores locais, sem alternativas além do emprego na empresa. Logo, a necessidade imediata por trabalho e renda (mesmo que pouca) se sobrepõe à conservação da biodiversidade, cuja importância para o equilíbrio de todo o planeta é fundamental!

Fotografia tirada por Barbara Veiga durante campanha ambiental.

Sete Anos em Sete Mares foi uma grata surpresa, uma leitura que me permitiu pensar sobre questões ambientais tão urgentes. Também foi uma história bonita de superação, já que Barbara Veiga enfrentou diversas decepções pessoais, a solidão, as incertezas sobre o ativismo etc. Para mim, este é um livro sobre a coragem de encontrar e reencontrar, seja um encontro consigo mesma, com outras pessoas e culturas, seja com a própria natureza, afinal, somos parte e dependentes dela! Quem ignora esse fato precisa refletir imediatamente!

“Sete Anos em Sete Mares é uma jornada sobre ser mulher no Oriente Médio, na Ásia e na África; sobre ser mulher num veleiro ou nas embarcações do Greenpeace e Sea Shepherd, no meio do oceano, por meses em cada campanha. É sobre se apaixonar pela floresta e seus ensinamentos. Sobre experimentar diferentes comidas ao redor do mundo. Sobre ser traída e reaprender a confiar nas pessoas. É sobre entender que não existe organização perfeita para se trabalhar, religião ou relacionamento que me complete inteiramente. É sobre ser solidária e se entregar a causas que possam fazer a diferença para ajudar o Planeta – e ser uma das poucas mulheres entre tantos homens no mundo da navegação. É sobre sentir saudade de coisas simples como comer chocolate e cerejas depois de passar 5 meses embarcada numa missão para salvas baleias na Antártida. É sobre ser abordada por piratas na costa da Somália; ser presa e ficar numa solitária no Caribe; fazer voos quase diários em um helicóptero no meio da vastidão da Antártida para impedir a matança baleeira japonesa. É se emocionar, se decepcionar e se entregar. E também é sobre ouvir o coração dizendo quando chega a hora de voltar para casa.” (Barbara Veiga)

 

Sobre a autora:

Barbara Veiga é uma jornalista carioca com sólido trabalho internacional, cuja atuação abrangeu mais de oitenta países da América Latina, Ásia, África, Europa e Oceania. Uniu a atividade jornalística à fotografia e, posteriormente, ao audiovisual, que durante uma década foi realizada em parceria com importantes organizações mundiais como Greenpeace, Sea Shepherd, Amazon Watch e Avaaz. Como fotógrafa ganhou um prêmio da National Geographic com o trabalho “Pelo Homem, Pela Natureza”, o qual foi exposto em 2011 em Paris, no Jardin des Plantes, e em Cannes, durante o Festival de Cinema. Na Rede Globo, Barbara fez uma série de vídeorreportagens para o Fantástico, e, durante uma temporada, foi produtora/diretora do programa Vídeo Show.

Bruna Bengozi

Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

Não há comentários. Seja o primeiro!

Leave a Reply

O seu e-mail não será publicado