O pacote de responsabilidades da mulher casada

O casamento ideal da sociedade em que vivemos é aquele com um marido e uma mulher, unidos pelo contrato civil e pela benção de alguma religião, ainda que estas duas condições sejam dispensadas por muitos casais. Quando digo casamento ideal, estou falando do que a heteronormatividade deseja com todas as suas forças.

Se antigamente a família da noiva pagava um valor em dinheiro, chamado de dote, para o noivo, configurando uma transação comercial em que o pai comprava a tutela e o sustento da filha, hoje as coisas mudaram um pouco. O casamento persiste como uma transação comercial, na qual interesses econômicos e de status são considerados. Em tempos de crise do capitalismo, em que o desemprego, o subemprego e o empreendedorismo por necessidade batem à porta de muitas famílias, esse tipo de arranjo é ainda mais cogitado, acredito eu.

Apesar das mudanças, ainda existe na sociedade a ideia de que o casamento é, para a mulher, uma forma de conseguir suporte financeiro de um homem enquanto ela cumpre o papel esperado pela sociedade: a maternidade e o cuidado com a casa. Mas outras necessidades se somam a essas, fazendo com que as várias jornadas de trabalho se acumulem. E com as alterações recentes na configuração social, novas demandas se somam na vida da mulher de classe média* que resolve se casar.

Vamos pensar sobre quais são as responsabilidades atribuídas às mulheres no casamento. O objetivo número 1 aqui é desvelar essa pressão geral que recai sobre as mulheres e faz com que muitas de nós sintam culpa e tenham o péssimo hábito de levar o mundo nas costas. O segundo objetivo é fazer com que cada vez mais mulheres entendam que essas não são suas tarefas pelo simples fato de serem mulheres, mas algo que foi construído ao longo do tempo como uma forma de dominação e que precisa acabar.

As demandas do casamento empurradas para as mulheres

A mulher lida com algumas demandas pesadas no casamento. Alguns pesos lhe tomam mais ou menos tempo dependendo de suas especificidades, como a cor da pele, a classe social e a região do país em que ela se encontra. Não é um check-list, então, nem todas as mulheres vivem tudo isso e pode ser que coisas que muitas vivem, como o casamento infantil, por exemplo, vão passando batido. Mas, também, vamos com calma, isso é um artigo pra pensar na condição da mulher que se casa. Não é uma tese nem um tratado, beleza? Vamos falar um pouco sobre o itens que vêm no pacote de responsabilidades da mulher casada.

mulher casada

Mulher casada e o trabalho doméstico

A primeira demanda do casamento, que já começa na montagem do enxoval, é o trabalho doméstico. Se a limpeza e a organização da casa e das roupas, além da preparação das refeições não são atribuídas apenas à mulher, muitas vezes a divisão destes trabalhos é desigual e recai principalmente sobre nós. Se pensarmos que todo mundo suja e desarruma, por que raios essa é uma tarefa da mulher?

Mulher casada e o cuidado com os filhos

É verdade que a tarefa de gerar novas vidas é ainda intransferível. O cuidado com a criança, porém, é algo majoritariamente desempenhado pelas mães. Lembrando que 5 milhões e meio de crianças não têm sequer o nome do pai na certidão de nascimento. A educação e cuidado com as crianças recai sobre as mães de forma individual. E não é pouco trabalho! Muitos pais simplesmente ignoram sua responsabilidade e saem por aí vivendo suas vidas como se nada tivesse acontecido. E ainda se vitimizam quando a pensão é cobrada. Existem exceções? Certamente. Mas isso não tira o peso enorme do que ainda é, infelizmente, a regra: as mulheres que criam as criança tudo!

Trabalho formal e empreendedorismo por necessidade

Além de cumprir as tarefas já citadas, existe uma coisa com a qual a mulher casada precisa lidar: o homem não é capaz de manter a casa sozinho. Então, ela precisa contribuir e, muitas vezes, manter a maioria das contas da casa. Para isso, ela arranja um emprego, em geral sem registro em carteira e com vários direitos ignorados solenemente. Outras vezes, a mulher casada entra na odisseia preferida dos liberais: o empreendedorismo. Só que por necessidade. Nada de tirar um ano sabático e viajar até a Índia para encontrar seu propósito de vida. O jeito é fazer o que dá: bolo de pote, trufa, qualquer coisa gourmet, lanche podrão delivery, quitutes veganos. E segue o baile.

Satisfação do desejo sexual do marido

As coisas estão ficando bem difíceis para a nossa amiga mulher casada, não é mesmo? Mas ainda tem muita coisa para colocar no pacote de responsabilidades do casamento. E esta é bem complicada. Quando um homem e uma mulher se unem em um relacionamento estável é normal que se espere a satisfação do desejo sexual do homem. Foda-se que ela está cansada, foda-se que vai acordar cedo amanhã.

A desculpa da dor de cabeça pode até ser uma piadinha, mas sejamos sinceras: muitas de nós se sentem obrigadas a transar com o marido mesmo quando não estão nem um pouco a fim. E mais: muitas de nós já transaram apenas por obrigação e não me surpreenderia se você, que está lendo, comentasse neste post dizendo que já foi forçada pelo seu parceiro, que usou de força bruta e violência para conseguir seu “consentimento”. Ah, isso é estupro.

Manutenção estética

Esta é uma obrigação de todas as mulheres. Precisamos estar, todas nós, preocupadas com nossa aparência. Existe um padrão (inalcançável) que deve ser atingido. Não consegue? Tudo bem, mas, veja bem, você pode ser melhor do que isso. O patriarcado consegue ser passivo-agressivo de um jeito muito irritante. E ai de você se reclamar! A pressão por uma manutenção estética tem crescido entre os homens, afinal, o capitalismo precisa ampliar o consumo das pessoas, mas é preciso admitir que as mulheres são o público-alvo da indústria da beleza. E, para a mulher casada, é preciso estar bonita para o marido, né?

Reputação virtual

Esta eu ainda não vi por aí. Mas quero chamar as manas para pensar sobre isso. As coisas mudaram, a TV é coisa do passado, ou melhor, ela está no nosso bolso e apita a cada cinco minutos, pedindo sua atenção. Roubando seu tempo. As redes sociais são um lugar onde nós vendemos nossa imagem pessoal, compartilhamos fotos nossas, nossos interesses e crenças. Você é a mercadoria.

As marcas se matam para conseguir um pouco do seu tempo e da sua atenção. Em troca, você alimenta um self digital, uma reputação virtual. Isso toma seu tempo de descanso, de lazer e de tudo de bom que deveria estar fazendo. Óbvio que isso não é algo exclusivo das mulheres casadas, mas é um peso a mais, já que elas dispõem de pouco tempo para muita responsabilidade.

Carga mental

Já esta não é nova. Até entre as que têm maridos ma ra vi lho sos que ajudam (!) nas tarefas da casa, a carga mental persiste. O que vamos fazer para o jantar? Será que o leite está acabando? E as fraldas? Com quem vamos deixar os filhos para fazer aquela viagem de descanso? Acho que precisamos comprar meias novas para todos.

Enfim, uma teia gigantesca e grudenta de preocupações onde a mente da mulher se prende com frequência. A propósito, a carteira de vacinação do pequeno está em dia?

Violência

Clássico. O marido, trabalhador exemplar, começa a ficar estressado, coitado. Aí ele grita uma vez, duas; em outro dia, dá um empurrão; em outro dia, a agarra pelo braço. Até o dia em que a agride abertamente. Ódio, muito ódio. Depois se arrepende, volta todo bonzinho, diz que ama, que vai mudar. E o ciclo recomeça.

E a culpa? É da esposa, com certeza. Como ela não se livra dele? Foda-se que não tem um emprego, foda-se que o dinheiro não dela não dá pra criar os filhos sem ele, foda-se que ela tem medo e nenhum apoio de amigos e familiares. Foda-se que quem coloca a culpa na mulher nunca é a pessoa que oferece ajuda. Aí já é demais, né? Daqui a pouco, vai querer responsabilizar o homem pelas suas próprias atitudes…

Esgotamento e a terceirização da responsabilidade

Imagina, agora, se essa mulher quiser estudar. Vai ficar esgotada! E fica mesmo, viu? O tempo é finito, não existe uma prorrogação do dia, com tantas obrigações empurradas às mulheres é certo que elas não vão dar conta de tudo. Isso faz com que muitas de nós não consigam descansar. Ócio e lazer? Pffff… Com tanta coisa para fazer, não é surpresa que muitas não se alimentem direito e não durmam o tempo necessário.

A isso se soma uma pressão absurda por produtividade, a racionalidade econômica. Vivemos correndo atrás de sucesso e sucesso é direito ao consumo. Quando mais você pode consumir, melhor. E, para dar liga a tudo isso, vem o discurso da mulher guerreira. Porque bonito mesmo é ser guerreira, dar conta de tudo isso que a sociedade pede, sem esmorecer, sem reclamar (ah, reclamar é tão feio!, sem chorar, sem se cansar nunca). E sorria, mais uma selfie! 😀

As mulheres mais privilegiadas são levadas a terceirizar essas demandas. Quem pode paga alguém para limpar a casa, lavar a roupa e cuidar das crianças. É a compra do direito de “ser deixada em paz”. Algo como “um teto todo seu” enquanto a sua coleguinha – mulher pobre, periférica – garante as tarefas para você. Massa!

E as mulheres pobres, como se viram? Muitas contam com uma rede de apoio. As avós e outras mulheres da família acabam dando uma força, justamente aquelas, que ralaram desde criança, agora passam a velhice ajudando as filhas e netas. E seguimos nessa até o momento em que (finalmente) dizemos não. E nos tornamos conscientemente feministas.

Nessa hora, muita gente se incomoda. Você pode passar por chata, reclamona, pessoa “negativa”. Bom mesmo é ser guerreira…

Feminismo e Política

Para quem quer saber mais sobre essas e muitas outras questões do feminismo, fica aqui uma dica de leitura: Feminismo e Política, de Luis Felipe Miguel e Flávia Biroli, que saiu pela Boitempo Editorial. O livro é ótimo, mas o tema do casamento é mais tratado nos capítulos 2 e 3. Vale a pena a leitura e a reflexão. Do livro todinho, aliás.

*Digo mulher de classe média, mas considero que não tenho condições de trazer à tona neste texto a realidade da mulher negra, indígena, trans, além de outras representações plurais do que é ser mulher no Brasil. Então, considere que esta análise possui lacunas. Caso você tenha contribuições sobre essas questões, fique à vontade para colocar nos comentários.

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Mari Mendes

Estudante de jornalismo e redatora. É autora de Potências do Encontro, livro de contos acolhido e publicado pela Editora Patuá. Escrever, para ela, é se amar.

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