O visconde partido ao meio (Italo Calvino): sobre nossas incompletudes

Medardo di Terralba é o personagem central do livro O visconde partido ao meio, publicado em 1952 pelo escritor italiano Italo Calvino. A obra vai abordar de uma forma bem humorada temas comuns da vida, como a dicotomia que tenta simplificar algo tão complexo como o ser humano e suas ações.

Podemos ser totalmente bons? Ou totalmente maus? São essas e outras perguntas que o autor vai lançar a dúvida ao apresentar uma situação absurda: um homem leva um tiro de canhão durante a guerra e fica, literalmente, partido ao meio.

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Medardo é de uma família nobre e, por isso, visconde. De repente, ele se vê na guerra, mas sobrevive de um jeito misterioso. Assim, a história mostrará aos leitores os horrores da guerra de uma forma alegórica: pode uma pessoa voltar inteira depois de passar por tamanha violência?

A obra está dividida em três momentos: quando Medardo está inteiro – antes da guerra; quando o lado direito chega à cidade (pós-guerra) e quando o lado esquerdo também aparece. Contudo, esses dois lados são opostos: um é extremamente bom; outro é extremamente mal. Assim, seus familiares e toda a cidade precisam lidar com esse novo Medardo que mostra o seu pior e melhor.

Ser partido ao meio, ser bom e ser mau

É interessante perceber como as ações que definem o bom e o mau estão relacionadas à percepção de quem as vê, pois o sobrinho de Merdado, que narra a história, também se divide em acreditar ou não na mudança de seu tio.

Em contrapartida, Pamela, uma mulher que mora perto da floresta, vê os dois lados de Medardo de uma forma mais desconfiada. No entanto, seus pais, percebem nele, independente se o lado bom ou mau, uma possibilidade de suprir suas misérias.

Ao longo do desdobramento da história, o leitor será provocado de várias maneiras. Algumas delas apenas para rir – e será delicioso. Em outras será como um mergulho em si mesmo para descobrir seus lados, verdades e mentiras.

“Isso é o bom de ser partido ao meio: entender de cada pessoa e coisa no mundo a tristeza que cada um e cada uma sente pela própria incompletude. Eu era inteiro e não entendia, e me movia surdo e incomunicável entre as dores e as feridas disseminadas por todos os lados, lá onde inteiro, alguém ousa acreditar menos. Não só eu, Pamela, sou um ser dividido e desarraigado, mas você também, e todos.” (p. 71)

Portanto, a obra, que pode ser classificada como um realismo mágico, contribui imensamente para a formação de um leitor curioso pela própria vida e pelas grandes histórias.

Ítalo Calvino, sem dúvidas, é um dos grandes nomes da literatura do século XX, pois, mesmo com os padrões das narrativas e os temas já tanto estudados, como o maniqueísmo, ele conseguiu transformar seus personagens em representações muito mais complexas que apenas dois lados.

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Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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