“Uma observação perene das coisas”: entrevista com a artista Eliete Della Violla

Cheguei em frente ao prédio às oito e meia da manhã de uma quarta-feira fria. Enviei mensagens pelas redes sociais porque o interfone estava com problema. Eliete Della Violla, de cabelos molhados, me encontrou na portaria. Subimos até o apartamento e entramos na sala de estar. Sofá, computador, livros, zines, a mesa do café, as suas máquinas, de projetar, de costurar e outras que não identifiquei. E a bancada de trabalho. Majestosa, toma uma parede toda, aquela bancada transforma a sala de estar em sala de ser um corpo que cria, sala de experimentação e processos.

Eliete é artista independente daqui de Sorocaba, interior de São Paulo. É formada e atua como freelancer na área de Design Gráfico. Desde 2017 publica zines.

Por meio de nosso encontro, notei que Eliete trabalha com a investigação de seu próprio processo criativo. Não fala dele com uma postura arbitrária, de quem dirige e domina um coisa. Ela fala de seu projeto, o Sim, como quem se observa, talvez porque vive o processo e deixa que ele se desenrole. Se refere a ele e o trata como algo autônomo. Eliete não coreografa sua produção artística; ela tira para dançar. No lugar da tão comum racionalidade que induz ao apelo pela produtividade, a organização e o planejamento, percebo em Eliete a sensibilidade, essa porosidade de que fala. A artista faz com que a rigidez dê lugar à fluidez do movimento, ao sim, à abertura.

Isso não significa falta de método e trabalho. Essa postura de “observação perene” se deu apenas porque a produção de desejos e textos estava acontecendo, era farta. Em vez de tentar domar o processo criativo, mutilando, determinando com antecedência seu fluxo, Eliete se permitiu deixar que o próprio processo a guiasse.

Conversamos por cerca de meia hora com o gravador ligado. Foi a primeira entrevista presencial que fiz para a Livro & Café e foi também a primeira vez que tivemos uma conversa mais longa. Nossas vozes estavam trêmulas, o frio encorpava os silêncios ocasionais. Eu olhava constantemente pela a janela grande da sala e Eliete ouvia e falava. Depois que o gravador foi desligado, relaxamos um pouco mais. Foi a vez dela perguntar. Falamos sobre silêncios e processos de criação e muito mais.

O registro que trago aqui é da primeira parte da conversa, aquela que traçamos em torno de seu mais recente trabalho, o Sim, contemplado pela Lei de Incentivo à Cultura de Sorocaba (LINC), que será lançado no sábado, dia 1 de junho, na Pupa Eventos Criativos. Para saber mais sobre o lançamento, confira este post da Livro & Café. Para adquirir um exemplar, que está com desconto na pré-venda, veja o evento no Facebook.

Mari: Como surgiu o projeto do Sim?
Eliete: Teve um momento que me dei conta que eu já tava nele, não cheguei a projetar antes, mas percebi que estava nele mais ou menos em 2017, na sequência de ter feito os trabalhos de pesquisa científica durante o curso de Design Gráfico, na área de Comunicação e Semiótica. Um ano depois que tinha terminado as pesquisas, comecei a perceber que a carga referencial desses projetos começaram a aparecer nos textos que estava escrevendo, e aí já eram textos em versos, já eram poemas. Então percebi essa coisa da comunicação, principalmente incomunicação, uma coisa que eu pesquisava lá, linguagem em geral, começou a aparecer. Junto disso, os desenhos que estava fazendo na época estavam se comunicando com isso, comecei a testar, a fazer um zine, porque, a princípio, o livro era um zine, aí depois começaram a surgir outros poemas que comecei a perceber que também se comunicavam com isso, então, percebi que coisas que eu estava produzindo mais ou menos na mesma época estavam dialogando muito, até chegar no nome Sim, que foi também mais ou menos nesse mesmo período, bem na sequência depois de eu ter relido A Hora da Estrela, e a primeira frase do romance virou a epígrafe do livro, que ela fala sobre esse início, que é o sim, mas que ao mesmo tempo o mundo, na verdade, nunca começou, que antes da pré-história havia a pré-história da pré-história, essa impossibilidade de você determinar o início de todas as coisas, que existem muitos inícios, muitas sinapses, muitos processos, mas que vai por essa via do sim, que acho que é de afirmação e de abertura. Eu percebi que isso tinha tudo a ver com o que eu estava falando ali naqueles textos e desenhos, aí eu agarrei nesse nome Sim e ficou. Desde então, um monte de coisa que eu estava produzindo eu chamei de Sim, que ainda nem era o livro, nem era o zine. Quando eu vi que tudo isso tinha um corpo só que dialogava, eu já estava com esse Sim, quase obcecada, então eu resolvi nomear, primeiro era um zine e depois o livro.

“Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.” (Primeiro parágrafo de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector).

M: Interessante que essa coisa de que não dá para determinar o começo, o seu trabalho também aconteceu assim.
E: Exatamente [pausa], acho que não tinha pensado nisso [riso].

M: O Sim tem a ver com mudanças na sua relação com seu corpo?
E: Também. Dentro do livro a gente tem duas partes, a primeira são esses poemas que escrevi em 2017, a segunda parte já são de poemas que surgiram em 2018, mas nessa mudança de um ano, mudou muita coisa na minha rotina, na minha vida prática mesmo; mudei de casa, comecei a trabalhar de casa, então, isso mudou a forma de me relacionar com a rua, com tudo, e também ao mesmo tempo deixei de usar o carro, comecei a andar mais a pé, mudou muita coisa nessa vida cotidiana. A segunda parte surgiu bem depois de eu fazer umas caminhadas longas, uma coisa que eu não fazia antes, e que, não sei, por algum motivo, eu mudei pra cá, parei de usar o carro, e me veio esse desejo de sair andando, quase que você sair de uma coisa que estava contida e entrar em uma expansão. Acho que isso tem muito a ver com o corpo, com a expansão do corpo, fazer essas caminhadas e quando voltar escrever. Essa segunda parte tem muito mais a ver com esse movimento de expansão de corpo mesmo. E nesse período também eu comecei a fazer mais atividade física, comecei a procurar uma atividade que eu me identificasse… Também dentro dos processos de fazer os zines, comecei a fazer zine em 2017, desde que comecei procurei processos que eu pudesse participar 360 graus, que pudesse elaborar o zine, projetar, e conseguisse também participar do processo de impressão, de encadernação, procurava um processo que não precisasse fechar o arquivo ir em uma gráfica e imprimir, queria algo que pudesse experimentar enquanto fazia. Dentro disso comecei a trabalhar com mimeógrafo, com stencil, depois com carimbo… e aí, no livro, entraram as ilustrações com carimbo… Então, acho que isso também tem a ver com expansão do corpo, porque todos esses processos exigem de mim um dispêndio de energia física mesmo. Senti que isso muda completamente o resultado, o processo todo, na verdade, que a gente costuma chamar de resultado.

Eliete Della Violla
Livro “Sim”, que será lançado em Sorocaba no próximo sábado, 01/06.

M: Li na sua newsletter sobre como que, quando você está nesse processo com essas máquinas, de como você entra em um fluxo, ou em um ritmo, de um fazer com o corpo…
E: Primeiro tem o processo de entender a máquina, porque ela já tem o programa, o funcionamento, que é fechado e tem suas limitações. Primeiro tem que entender isso, e aí chega um momento que você fica querendo trapacear, que já não é o que estava ali, que era esperado do funcionamento dela, mas que ainda está dependente do programa dela, não tem como desprogramar, desmontar a máquina completamente, tem um limite. E tudo isso envolve o corpo, e chega um momento que começa a sentir como se fosse parte da máquina também, está operando ela, mas também vira parte dela, tem um momento que vocês começam a trabalhar afinadas, orquestradas, e aí ela vira uma prótese sua. Do que eu vinha produzindo antes, foi uma mudança de paradigma, da maneira como vinha produzindo e do momento que entrou essa pesquisa com as máquinas, isso alterou tudo isso que eu estava fazendo.

M: Como que você acha que as máquinas interferem na sua produção?
E: Depois que passa esse momento de entender como funciona, ela começa a determinar o que estou produzindo também, mesmo esteticamente; o mimeógrafo já tem a limitação dele que é usar um estêncil que é roxo, aí procurei para ver se existia stencil de outras cores, então, primeiro tento ver todas as possibilidades, e aí não existe, ou até existe mas não acha em lugar nenhum, não tem no Brasil, enfim, aí pego essa limitação dele e incorporo esteticamente. Dá um resultado que é muito típico dele, cheio de ruídos, cheio de falhas, então, pra trabalhar com texto tentava fazer sair uma coisa perfeitinha para que as pessoas pudessem ler, aí chegou um momento que tentava chegar no máximo de clareza, de legibilidade que dava e depois disso começava a experimentar com o que ele tem, vai falhar em algumas partes mesmo, então, trabalhar com uma intervenção gráfica, coisa que não vai interferir em uma leitura, por exemplo, mas ele vai determinando até a estética, com aquele resultado bem roxo, com umas falhinhas, às vezes o papel encharca de álcool e fica meio ondulado, então, determina. No carimbo também isso fica bem evidente para mim porque quando começa a carimbar, quase que te desperta um estado que estava adormecido, é uma coisa muito assim de bater e carimbar, bater e carimbar, o resultado sai muito imediatamente; eu começava a perceber que criava um ritmo totalmente diferente do que estava antes na vida cotidiana, tem dia que aquilo dá vontade de fazer um monte de repetição, é uma coisa que sai rápido, então você pega um desenho e faz um monte, quase que um padrão de repetição; tem dia que dá vontade de sobrepor muito porque a tinta às vezes tem uma transparência, se é uma tinta mais clara faz uma cor. Então, só por ser manual já vai te impelindo a fazer isso ou aquilo, totalmente diferente se eu fosse pegar um papel e desenhar. Eu vou para outro lugar, acesso outro território, a própria máquina te leva para um caminho ou por outro.

M: A limitação faz bem para a criatividade…
E: Eu acho, porque se você tem liberdade, se é irrestrito, pra fazer, você às vezes paralisa.

M: A angústia da escolha, posso escolher tudo, o que vou escolher?
E: Parece que é muito mais difícil.

M: Quais são as outras frentes do Sim que você pretende trabalhar daqui pra frente?
E: Neste caso  foi se encaminhando para o livro, porque tem os poemas, tem o desenho, aí virou uma publicação; naturalmente veio o desejo dele ser um livro, mas eu percebo que ele é um projeto bem aberto mesmo. No dia do lançamento a gente vai ter uma performance de dois músicos que vão propor uma interpretação desses poemas, uma interpretação musical, e eu vou fazer uma performance com o retroprojetor, que é outra [pausa] bugiganga que eu estou incorporando [risos]. Ele já não é mais o livro e o texto, vai acabar se expandindo para essas outras coisas. A linguagem da música, como é uma coisa que eu não domino, tinha vontade de ver alguém fazer uma interpretação musical através dele. As próximas que já consigo enxergar são essas. Mas está bem aberto para coisas que não consigo prever e controlar. Realmente não vejo que é um projeto de literatura porque é um livro, sabe? Tem quase uma vida própria de querer se expandir, que vai me mostrar para onde que está indo, ainda não sei muito definir.

M: É interessante que você não tenta controlar, ou engessar o seu processo criativo, isso faz com que ele flua…
E: Exatamente…

M: Como foi trabalhar com a Talita Annunciato, que fez a coordenação editorial do projeto?
E: Percebi o quanto o projeto, tendo mais uma pessoa, me surpreendeu, elevado à décima potência. Quando está você e a máquina e seus processos, já sente que tem infinitas possibilidades e quando entra uma pessoa, quase dá um giro total para o outro lado. Essa pessoa vem com as referências dela, com a bagagem. E principalmente no caso da Talita, acho que a sensibilidade, porque ela conseguiu mergulhar no processo que eu já estava e entender o que estava acontecendo ali, e acho que isso exige muita sensibilidade mesmo, porque a gente está falando de coisas muito abstratas, e depois, ainda trazer o que ela achava que somava, que contribuía, que senti que tinha um diálogo total com o que estava fazendo. Já tinha o zine, os textos todos, os desenhos já estavam ali, ela pegou esse material, leu, sentiu, a gente trocou uma ideia sobre, e daí ela me veio com provocações, na verdade, me questionando mesmo: O que você acha disso? O jeito que está o desenho aqui é realmente o jeito que você quer colocar? Será que ele não está muito contido? Ela foi me estimulando neste sentido. Que tipo de técnica será que ele tá pedindo? Ela foi jogando essas perguntas e veio com referências. No começo eu não sabia se queria pôr os desenhos ou não, a princípio estava tendendo para colocar só o texto, aí ela me veio com referências de design editorial, de livros, como é que eles resolveram a questão de texto e imagem e nosso desafio era criar uma unidade, não ser uma coisa bruta. Nisso ela contribuiu muito, porque veio com essa referência de livros, de como isso tinha sido feito, e tinha “n” maneiras de fazer isso. E me acompanhando por todo o processo. A gente tinha reuniões semanais, eu ia testando, experimentando e mostrando para ela, ela ia olhando, dando sugestões. Depois a gente foi pro texto, a gente fez uma edição, mais pra entender o ritmo, a cadência dos versos. Não podia mais fazer grandes alterações, o texto tinha que ser mantido, mas a gente foi só para essa edição de ritmo e revisão textual, ela me veio com referências de poetas pra gente ver que caminho a gente achava que tinha mais a ver. Ela fez o texto de apresentação e esse acompanhamento global. A hora que eu olho pro que era o zine e o que é hoje o livro, percebi um salto gigantesco, claramente eu vi que tem muito dela ali, que sozinha eu chegaria para outros lugares menos interessantes, foi uma contribuição muito rica.

Eliete Della Violla
Eliete Della Violla ao lado da Talita Annunciato, coordenadora editorial do projeto.

M: Quais são as principais referências do seu projeto?
E: A Clarice Lispector já estava lá, desde a ideia do sim, que veio principalmente de A Hora da Estrela, uma ideia que está presente em várias obras dela. Tem Uma aprendizagem: ou livro dos prazeres, um outro romance dela que tem uma personagem principal, a Lori. O primeiro poema é dedicado a ela, tem muito dela ali. E Água Viva, um romance bem marcante que coloca, através da linguagem, esteticamente, a ideia da expansão e do sim. Tem esses autores da comunicação, o Vilém Flusser, filósofo, também escreveu sobre comunicação, sobre design, tem o Norval Baitello Júnior, naquela newsletter que falei sobre o corpo mencionei ele, é um pesquisador brasileiro da comunicação. Uma coisa que estava ouvindo muito na época da segundo parte do livro era Luiza Lian, que é uma compositora contemporânea, super jovem, ela tem uma escrita bem poética e quando vai pra música é uma coisa bem falada, quase recitada, mesclada com algo mais melódico, mais cantado.

M: Na entrevista para o Projeto Curadoria, você fala de um incômodo inicial que surge no seu processo criativo e que depois, quando parte para a ação, entra no fluxo, em estado febril. Você entende esse processo artístico como um processo de cura desse incômodo? O que você acha dessa interpretação?
E: Interessante isso que você está perguntando… Não sei eu já pensei nisso em termos de cura, teria que pensar isso agora… Acho que de alguma forma é cura, porque esse incômodo inicial é inerente à vida, mas, de alguma forma, esbarra em uma coisa muito específica, em geral eu sinto que quando vou pra uma criação é porque tem algo que precisa ser comunicado e não está saindo de maneira nenhuma, daí quando vou pra esse estado da criação, de alguma forma, é uma cura, porque é algo que estava em um canal obstruído e que, em algum momento, aquilo desentala e vem esse fluxo. Acho que de modo geral, sim, é uma cura. Esse lugar do incômodo, do desconforto sempre vai existir, não é uma cura total.

M: O objetivo não é eliminar o incômodo…
E: Porque aí não haveria mais criação. Tem questões que voltam muito, às vezes naquele momento conseguiu resolver uma questão que comunicou, em outro momento da sua vida aquilo vai voltar, aparece de novo. Mas se a gente pegar o momento em si da criação, sair de um escombro e ir para a superfície, nesse movimento da superfície há uma cura sim. Nunca parei para pensar nesses termos de cura, mas agora que parei pra pensar na sua pergunta, acho que faz sentido pensar em cura, porque quando vai para a superfície é um lugar onde comunica, faz sentido pensar em cura [pausa]. Eu sei que você tem uma pesquisa que envolve a cura, acho que as pessoas definem cura de muitos jeitos…

M: Tem isso, a cura pode ser muitas coisas, e se a gente pensar num incômodo que nunca cessa, porque a própria vida é uma fonte desse incômodo, essa cura nunca é definitiva [pausa]. E se a gente pensar que esse incômodo é um estado patológico, tem várias nuances disso, você não se sente doente e precisando de uma cura, mas existe um nozinho ali que você acaba desatando quando você vai para a superfície.
E: O fato desse incômodo sempre existir não significa que a gente não possa usar a palavra cura, se curou algo ali talvez muito pontual…

M: E a cura tem esse sentido de tratamento, que é algo que não cessa, pessoas que têm doenças crônicas, por exemplo, sempre tem que estar lidando com aqueles sintomas, sempre tem que estar em tratamento, e aí a cura vira um estilo de vida novo.

M: O que é inspiração para você?
E: Tem muitos mitos envolvendo inspiração, então, a gente tende a achar que é uma coisa que veio do nada, que tomou você naquele momento, você resolveu escrever, pintar, desenhar, enfim. Mas eu sinto que tem a ver com processos anteriores que talvez você só não elaborou conscientemente e talvez por isso parece que veio do nada. Mas acho que nosso corpo, principalmente no inconsciente, está o tempo todo elaborando estímulos, ou mesmo esse lugar que é mais referencial, então, coisas que você leu, que você assistiu, exposições que você foi, ou mesmo que não sejam coisas diretamente artísticas que você acessou, mas as próprias experiências do seu corpo, sua memória corporal, sua memória inconsciente também, que a gente nem acessa, algo que se elaborou em um sonho, por exemplo. É muito uma mistura de tudo isso, e que não deixa de envolver o gesto também, no caso da criação artística, é como se somasse tudo isso, com o gesto em si da sua criação, porque toda criação vai envolver, se você escreve, vai envolver o momento de sentar e escrever à mão, à máquina, seja o que for, se você é músico é o momento que vai pegar o instrumento e ficar ali meio tateando pra achar uma coisa, se você desenha é o momento que vai rabiscar, enfim, existe esse momento do gesto que tem a ver com técnica, não tem a ver com virtuosidade necessariamente, mas alguma técnica que você também aprendeu e que seu músculo está aprendendo, a memória dele. Quando essas coisas se encontram é que dá esse momento que a gente chama de inspiração. Tudo que vem desse repertório não vem só de coisas artísticas, às vezes tem mais a ver com uma observação perene das coisas, você vai na feira, começa a observar o formato das frutas, a textura, a cor, o jeito que o sol bate na fruta, na banquinha e tem a pessoa te atendendo, o jeito que ela fala, o jeito que o outro caminha. A inspiração é uma coisa muito ampla mesmo, esse repertório vem às vezes de lugares muito improváveis.

M: E aí vem a coisa da abertura que você falou no início, de estar aberta para essas coisas…
E: É um estado que eu sinto que é de porosidade, você não está em um corpo fechado, contido nos seus limites. Você entende que seu corpo tem um limite físico, que é o que eu estou enxergando, mas ele se expande e se prolonga, por alguma coisa que é invisível, mas que pode ser energia, que não tem nada de místico, é uma coisa física mesmo, que a gente não enxerga, mas… Tem uma energia aqui que está passando, seja pela onda sonora da minha voz quando estou conversando com você, por um olhar, pelo calor do nosso corpo, pelo cheiro, tem um monte de coisa aqui acontecendo que a gente não está vendo, e que não deixa de ser físico, e que tem a ver com esse estado de abertura, e é por onde você emite coisas e recebe tudo que está acontecendo.

Fotos de capa e da matéria: Camis Fontenele.

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Mari Mendes

Estudante de jornalismo e redatora. É autora de Potências do Encontro, livro de contos acolhido e publicado pela Editora Patuá. Escrever, para ela, é se amar.

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