Carta à Rainha Louca: um retrato da condição da mulher no Brasil dos Setecentos

Carta à Rainha Louca é o novo romance de Maria Valéria Rezende, publicado pelo selo Alfaguara, da Companhia das Letras, em abril de 2019. Com uma bela capa do Estúdio Bogotá, o livro é uma carta escrita por Isabel das Santas Virgens à D. Maria I de Portugal, conhecida como Rainha Louca.

Primeiramente, a coisa que chama a atenção durante a leitura é o estilo desenvolvido pela autora. Rezende resgata palavras e nuances correntes naquela época ao mesmo tempo em que dá uma roupagem moderna e fluida ao discurso da protagonista, tornando a leitura muito agradável.

A missiva é um apelo de uma mulher branca e pobre presa em um convento no Brasil, considerada louca. O objetivo de Isabel é contar sua história para a ilustre Rainha, com a esperança de que a nobre Piedosa a ajude a se libertar. Conforme narra suas aventuras, a personagem faz um registro de sua vida e das condições de existência da mulher branca no Brasil Colônia.

A mulher branca no Brasil dos Setecentos

Pensar com autonomia e sustentar uma opinião contrária ao comumente aceito era algo praticamente impossível para a mulher que viveu na época de Isabel das Santas Virgens. Qualquer uma que ousasse falar sobre as opressões da sociedade, que fosse audaciosa o suficiente para desvelar o caráter injusto do lugar ocupado pelas mulheres brancas naquele constructo social, qualquer uma, seria considerada louca ou criminosa. O que, na prática, dava quase no mesmo.

Assim, Maria Valéria Rezende consegue expôr a condição de vida da mulher branca em um período histórico do Brasil sem invisibilizar ou minimizar a violência sistematicamente cometida contra as pessoas indígenas e negras escravizadas. Isabel é, inclusive, consciente dessas e de outras tantas injustiças, conforme o que retrata em seus escritos.

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O casamento como uma transação comercial entre homens

Naquela época, a mulher branca deveria, para conseguir se casar, pagar ao noivo um dote, ou seja, um valor em dinheiro. A partir do recebimento de um montante, proporcionado pela família da noiva, o casamento era consumado. O matrimônio era uma transação comercial em que o pai da noiva comprava a tutela masculina de sua filha. No caso de mulheres brancas pobres, que por sua condição financeira não tinham como pagar um dote, o casamento era algo impossível. Mulheres filhas de pais ricos e poderosos com frequência também não dispunham da chance de se casar, pois a herança, de acordo com a lei, deveria ser dividida igualmente entre os filhos, independente de sexo. Mas, qual era, então, o destino dessas mulheres? Presas em mosteiros. Isabel era uma dessas desafortunadas e, ao conhecer sua história, temos uma ideia da falta de perspectiva de vida das mulheres dessa época.

Dessa forma, pouquíssimas tinham acesso à alfabetização, o espaço público lhes era negado, e assim, não podiam exercer qualquer profissão pelo simples fato de serem mulheres. Naquele tempo, ainda, era muito difícil conseguir papel, tinta e pena para escrever, produtos caríssimos, ainda mais em uma colônia onde era proibida a produção industrial de qualquer um desses artigos.

Conventos eram prisões para mulheres

Carta à Rainha Louca apresenta, também, uma crítica mordaz à Igreja Católica. Mostra o luxo em que viviam as madres de um convento de ordem franciscana. Conventos estes, inclusive, eram um espaço de enclausuramento de mulheres, enviadas para lá por seus pais e maridos, independente de seu desejo.

Algumas eram punidas com a reclusão por causa de sua desobediência, por serem acusadas de loucas, por engravidarem fora do casamento ou para que a herança da família não fosse muito fracionada. Nesses lugares, muitas subsistiam com pouca comida e muito trabalho. Quanto mais pobre a mulher, ou se as doações que sua família enviasse fossem baixas, pior era sua condição de vida dentro desses retiros.

Amor aos livros

A epígrafe do conto de Clarice Lispector, “Felicidade Clandestina“, abre o caminho para uma relação especial da protagonista com o universo da leitura e escrita. Ter a sorte de ser alfabetizada é uma dádiva que acompanha Isabel por toda sua vida. Os livros, as letras e a escrita são seu porto-seguro, são o motivo de sua resistência.

Epígrafe do livro “Carta à Rainha Louca”.

Como uma sacerdotisa das palavras, guardiã de uma sabedoria perigosa e apaixonante, Isabel persiste em seus últimos dias de vida e de prisão apenas para escrever sua própria história. Entrelaçou seu desejo de viver ao de compartilhar seu depoimento de vida com outra mulher, uma que, como ela, também foi chamada de louca e, mesmo que não chegasse a ler sua carta, dividia consigo algo substancial: a condição de mulher.

“De tal modo agarrou-me o costume de viver no escuro que, mesmo quando não tinha cópias a fazer, ali entre os papéis e livros me metia pelas noites adentro, a ler tudo o que me inspirava a fantasia e me permitiam os restos de vela roubados dos altares ou mesmo algumas brasas vivas que trazia do fogão numa concha de ferro. Aprendi assim a criar dentro de mim mesma lugares de uma vida livre, protegida pelas trevas, da qual ninguém mais podia suspeitar.” (p. 16).

Portanto, Carta à Rainha Louca nos fala sobre o silenciamento a que fomos submetidas por tantos anos e sobre nossas lutas, cuidadosamente apagadas da história. É um resgate do que era ser mulher por muito tempo neste país, uma ancestralidade que se desdobra no Brasil de 2019, infelizmente.

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Mari Mendes

Estudante de jornalismo e redatora. É autora de Potências do Encontro, livro de contos acolhido e publicado pela Editora Patuá. Escrever, para ela, é se amar.

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