[Em defesa da educação] Viver bem acima de tudo, prazer acima de todos

Entre os dias 27 e 31 de maio, estudantes, professores e simpatizantes puderam ver e participar da série de palestras, cursos e apresentações que formavam a programação da XXI Semana de Letras da UFPR. Com o tema “Mulheres nas letras”, as mesas principais foram compostas por professoras e pesquisadoras, que falaram sobre tradução, linguagem, educação e, em meio a tudo isso, os perigos do silenciamento, do autoritarismo e do desprezo à ciência.  

O sucateamento do ensino público se fez presente quando o prédio da reitoria, morada das ciências humanas e sede do evento, precisou ser fechado por danos causados pela chuva. Assim, as atividades do simbólico 30 de maio foram transferidas para o Prédio Histórico, e a tal balbúrdia resistia ali dentro enquanto na parte de fora uma multidão acompanhava a reinauguração da faixa “Em defesa da educação”.

Eu, Vanessa, mulher, brasileira, estudante e (aprendiz de) pesquisadora, presenciei durante aqueles dias os momentos mais emocionantes da minha ainda curta vida de acadêmica das letras. Estar – principalmente em um período tão complicado, quando o óbvio precisa ser defendido – em salas onde a arrogância e os “eu fiz” e “eu posso” têm pouco lugar, presenciar a admiração mútua e sem embaraços, escutar “nós podemos”, “nós fazemos” e “vocês podem” foi, é e sempre será extremamente expressivo, um verdadeiro divisor de águas.

Eu, Vanessa, mulher, brasileira, estudante e (aprendiz de) pesquisadora, chorei, como muitos dos ali presentes, enquanto a escritora Noemi Jaffe discursava no encerramento daquela semana. E, por entender a importância dessa mensagem, tomei a liberdade de copiar nessa nota as palavras que Noemi trouxe para a noite daquela sexta chuvosa – e que divulgou um dia depois em sua página do Facebook

Eu não imaginava que estaria hoje, aqui, na Universidade de onde foi retirada à força, e euforicamente, uma faixa onde se lia “Em defesa da Educação” e nem que algum dia fosse preciso defendê-la. Mas o fato é que estamos sob um regime que é contra a educação, ao menos a educação pública, a pesquisa, a intelectualidade e, consequentemente, contra a leitura.

No encerramento deste evento, aqui no Paraná, estado que votou majoritariamente no presidente atual e que também mantém encarcerado um outro presidente, quero falar sobre a leitura e sobre a escrita. É simples, é óbvio, mas, infelizmente, é necessário.

A literatura é a criação de vidas ficcionais. Personagens que existem, agem concretamente, sentem, pensam, se coçam e amarram os cadarços dos sapatos. Por nos determos sobre essas vidas, durante o ato da leitura, passamos a vivê-la por extensão, coisa que não podemos fazer no lugar de ninguém na vida real. O tempo da leitura, a linguagem trabalhada com que ela é escrita, os detalhes que só ela é capaz de ampliar, as sequências de acontecimentos e a forma como um narrador é capaz de conhecer a intimidade dos personagens, entre muitas outras coisas, fazem com que, durante o ato da leitura, nós possamos efetivamente ser a pessoa sobre quem lemos. Somente a literatura permite que eu, paulista, branca, judia, de 57 anos, viva as venturas e desventuras de um príncipe dinamarquês na Idade Média, um retirante nordestino cuja cadela pensa mais e melhor do que ele, uma mulher carioca que encontra uma barata no quarto de sua empregada nos anos 60, um morador de uma favela carioca, um homem que cospe coelhos num apartamento em Paris, uma sobrevivente de guerra na Romênia, um jagunço mineiro. Somente através da literatura eu posso sonhar os sonhos de Einstein, conhecer as cidades por onde andou Marco Polo, ser partida ao meio e, mesmo assim, caminhar pela Europa medieval, sentir a impotência de observar um estupro acontecendo, sentar num ônibus carioca depois de ter passado o dia inteiro sentado num sebo em Copacabana, andar por Curitiba e lembrar de um vendedor ambulante que gritava “galinha óvos!”.

E o que acontece comigo, com qualquer leitor atento, depois de passar pela experiência de viver concretamente a vida de outra pessoa, de falar sua língua, sentir seu medo, suar, tremer, apaixonar-se, até mesmo morrer com ele, é que, sem que ele se dê conta, aumenta sua reserva interna de tolerância e de compreensão do outro. Ele pratica, mesmo que não tenha consciência disso, a qualidade mais valorosa e difícil de atingir do humano: a compaixão, que é, em outras palavras, a possibilidade de sentir o sofrimento do outro. E isso, inevitavelmente, leva o leitor a ser mais compassivo também no mundo real, compreendendo, pela letra e pelo tempo da leitura, a dor e a alegria daqueles que são diferentes dele.

Ler é, fundamentalmente, estranhar. O estranho, etimologicamente, é aquele que vem de fora, o estrangeiro, o alien. Ao deparar com um mundo falso, o mundo literário, a primeira atitude do leitor é de estranhamento: quem são essas pessoas, como agem, o que comem, como dormem? Por que estou interessado numa vida feita de palavras? E, além disso, esse leitor também estranha a si mesmo. Será que eu faço essas mesmas coisas? Por que me identifico tanto com alguém que não conheço e que não passa de palavras escritas num papel ou numa tela? Estranhar, ao outro e a si mesmo, é por-se fora de si, distanciar-se desse centro magnético de atração cada vez mais forte, que é o eu e suas vicissitudes e caprichos, e olhar a si e ao mundo a partir de outras perspectivas. Quem sou eu, Noemi, vista do ponto de vista de uma anã, como no conto de Veronica Stigger? Como é ser propriamente a menor mulher do mundo no meio de uma floresta africana, como no conto de Clarice Lispector? Mudar de perspectiva, vocês todos sabem, vindo da área de conhecimento que for, é o recurso necessário para pensar as descobertas científicas, as invenções de todas as naturezas e categorias, para produzir arte e conhecimento, cultura e educação, para prosperar e se transformar. Mudar de perspectiva, estranhar, é reinaugurar-se continuamente e também aos modelos estabelecidos e confortáveis, origem de todo tipo de autoritarismo e reacionarismo. Quem tem a coragem de mudar de perspectiva vive de forma ousada, desbravadora e ativa e não, como quem não gosta de se estranhar, de forma conservadora, estagnada e reativa.

Ler é contrariar o tempo cronológico e funcional e entregar-se a um tempo não linear, subjetivo e alongado, em que as coisas não se medem pelo cumprimento de tarefas, mas sim pelas sensações, pela repetição, pela dúvida, pelo retorno, pela penetração no tempo do personagem, em que 30 anos podem se passar no intervalo de três minutos entre duas estações de metrô, uma vida inteira no intervalo de um dia caminhando por Dublin, ou apenas duas horas em 300 páginas, como em O Professor, de Cristovao Tezza. Poder vivenciar esse outro tempo, tempo da subjetividade e, principalmente, tempo da duração, é poder entregar-se a uma realidade onde não se priorizam somente as finalidades, mas sobretudo os meios, os caminhos e os processos que, como todos sabem, são as vias para verdadeiramente educar e formar um cidadão. Um bom cidadão, um bom homem e uma boa mulher (e não um homem de bem), pensa em como atingir os resultados e não somente em obtê-los. E pensa também não somente nas finalidades, mas no ato mesmo de realizar as coisas, muitas vezes sem o objetivo de atingir algo no final. Isso é o nascedouro da arte e da cultura: prestar atenção ao meio e não ao fim. E os meios são também, é claro, o princípio da ética: os meios é que justificam os fins e nunca o contrário. Descobre-se aonde se chega pela prática do que se faz. Aliás, esse é também o próprio princípio da alegria e da vida boa e não existe ética onde inexiste a ideia de uma boa vida, uma vida alegre para mim e para todos à minha volta.

Pelo fato de promover a vivência de uma outra vida e de operar no estranhamento – do tempo, da linguagem e da realidade – ler é também ocupar o espaço da diferença, por oposição ao espaço conhecido da identidade. Por facilidade, hábito e mesmo por necessidade o indivíduo contemporâneo, burguês e urbano, ainda mais urgido ou aprisionado pelas atuais tecnologias, está mergulhado numa bolha identitária. A publicidade estimula a afirmação do eu – eu sou único, eu sou especial, eu sou diferente. Os algoritmos criam redomas de mesmidão, em que os supostos interlocutores pensam o mesmo que eu e eu me regalo em contemplar a mim mesmo na voz de outras pessoas que reafirmam o que eu quero, aquilo de que gosto e que me aplaudem naquilo que digo e faço. A cidade impede a circulação e a convivência das diferenças e tendemos a frequentar os lugares que reiteram e estendem nossas opiniões. Até mesmo os estudo identitários, que buscam conhecer e ajudar a preservar a identidade de grupos minoritários, muitas vezes partem de pressupostos enviesados, procurando fazer com que sua compreensão da identidade do outro se adeque a determinado pensamento antropológico, linguístico ou político. O que esses estudos deveriam fazer, por princípio, não é ir atrás da identidade (o que é) mas do que não é (o que, no outro, eu não sei, não entendo, não é eu). Não temos condições de saber o que o outro é de verdade, a não ser pela escuta profunda e vivencial ou pela invenção, ou seja, pela literatura.

Ler faz com que eu imagine e viva, sobretudo, a linguagem do outro e, por isso, possa, minimamente, virar-me do avesso e conhecer a diferença, a anti mesmidão, o desenraizamento, a desabituação, aquilo que não me espelha nem me confirma. Preciso ouvir a voz daqueles que não conheço e de quem discordo. O próprio escritor, ao criar dicções diferentes dele, é obrigado a dizer coisas com que não concorda e, com isso, é também obrigado a perscrutar os bastidores do pensamento alheio. Creio que uma das causas do preconceito seja o estímulo à identidade, à identificação, muitas vezes pelo caminho do geral, que, aliás, é o que permite a superficialidade dessa patinação identitária. Pela investigação do particular, própria da literatura – um tique, uma mania como dormir com os pés para fora do lençol importam mais do que aquilo que o personagem pensa ou diz sobre a liberdade, por exemplo – o leitor é dado a ver ao outro também em si mesmo e constatar que sua própria identidade é feita de diferenças. O que nos constitui é a língua e experimentar línguas, linguagens, sotaques, dicções e dialetos alheios é furar, por um tempo curto que seja, o balão da igualdade, causador de um tipo de narcisismo que convém ao autoritarismo.

Em função da importância que a literatura, e a arte como um todo, dá à forma da escrita – importa mais como se diz do que o que se diz, ler também faz com que o leitor, sempre sem precisar se dar conta disso – opere e valorize as construções linguísticas, as novidades formais, a ousadia experimental, faz com que ele fale como nunca falou, com que tropece em pontuações esquisitas, com que relativize a ideia de erro, com que erre intencionalmente, com que não pense somente no conteúdo e na ideia em questão, mas também e muitas vezes principalmente, na maneira de dizê-la. Os transtornos linguísticos da literatura, a atenção à função poética da linguagem, fazem com que as transformações conquistadas não ocorram somente pelo lado subjetivo, mas também pelo lado da forma de construção dessa subjetividade, caminho da emancipação. Quando simplesmente concordo com uma ideia, com um conteúdo, não passo pelo processo de invenção e apropriação que ele implica. Já quando me detenho sobre a linguagem e a forma como construo esse mesmo conceito, quando me preocupo com a beleza e a autenticidade do objeto de que falo, passo a inventar o real, não somente a reproduzi-lo.

E a novidade da arte, uma de suas propriedades mais importantes, não é oferecer o novo esperado pelas pessoas (assim como faz a publicidade, que pesquisa as supostas necessidades do cliente e corresponde a elas, travestindo-as de novidades), mas oferecer um novo que ninguém nem sabia desejar, um novo não antes imaginado, que fica aquém ou além das expectativas, um novo que cria novas possibilidades e caminhos. Muitas vezes, pela expressão única de uma forma de ver o mundo, a própria realidade passa a imitar a arte, como no caso, por exemplo, dos girassóis de Van Gogh, que fazem com que a visão de qualquer campo de girassóis lembre aquele de sua pintura. Milan Kundera fala sobre a ética do novo, que é a de fazer com que o leitor pense as mesmas coisas (a literatura não passa de dois temas) de formas diferentes.

Por fim – mas somente o fim dessa minha fala e não das propriedades da literatura e da leitura – ler é extrapolar os limites da superfície do real. Falamos muito da literatura realista, mas grande parte da literatura é fantástica, absurda, imaginativa, surreal. Imaginar mundos inexistentes, homens transformados em insetos monstruosos (daquele autor, Kafta), pessoas com o mesmo nome que vivem todas mais de cem anos, casas que expulsam seus moradores, seres que ensinam a subir uma escada ou a chorar, como os cronópios, é recusar a conformação normativa e normótica de uma ideia do real por decreto. É acolher o tempo contemplativo, o tempo onírico, o tempo da confusão necessária, do ócio e da liberdade criativa, tempo da conexão com o passado, o futuro, o cosmos e a natureza e, portanto, não restringir a vida à operacionalidade e à previsibilidade. Extrapolar esse limite é ser capaz de desafiar o próprio tamanho: se isso servirá para transformar o mundo e a si mesmo, se será a fonte de novas invenções ou tecnologias, ou se será fonte de prazer puro, cada um dirá. Mas o prazer puro, sem função nem serventia, é, certamente, o sentimento mais revolucionário que existe, porque contraria a tradição do sofrimento como caminho necessário para a prosperidade e a “felicidade”, uma invenção do capital para manter-nos constantemente na busca de algo inatingível.

Quando um ministro do governo vai à TV afirmar, orgulhosamente, que não lê livros, mas somente mensagens de Whatsapp; quando o ministro da Educação faz, consistentemente, erros de português; quando o presidente constrói uma imagem amadora em suas aparições públicas; quando uma palavra como corte é renomeada de contingenciamento; quando o filho do presidente mostra uma imagem de estudantes pelados como se fosse a síntese da universidade pública; quando uma militante de esquerda vai à manifestação a favor do governo portando uma placa que diz “Menos livros e mais armas” e é aplaudida; quando um decreto de segurança nacional aprova a posse e o porte de armas, incluindo fuzis, argumentando o direito de defesa do cidadão; quando o governador de um estado como o Rio de Janeiro entra num helicóptero e ajuda a atirar em civis; quando se mata um inocente com 80 tiros atirados num carro, por equívoco e depois os policiais são soltos; quando se valorizam mais as consequências do que as causas e quando a solução para uma doença é dar cada vez mais remédios no lugar de procurar as causas da enfermidade – uma das definições de alienação -, quando tudo isso e muito mais se reúne num mesmo governo que ostenta orgulhosamente e professa a ignorância como forma de vida, nós, que acreditamos no pensamento e no conhecimento, ficamos não só apreensivos, mas efetivamente desanimados (sem anima). E é isso o que eles querem.

Mas quando o pensamento está ameaçado, o que devemos, precisamos e gostamos de afirmar e fazer é reerguer as faixas em tamanhos maiores. O que oferecemos para contrapor à ignorância e à canalhice pode parecer fraco a curto prazo, mas a longo prazo não é. É, na verdade, muito mais forte do que nós mesmo imaginamos.

Ler – e escrever – , produzir arte, imaginar, não são as únicas saídas, é claro. É preciso se reunir, produzir, ir às ruas, manter a pesquisa, a ciência, as conversas, a luta política social. Mas ler está na base de tudo isso. E ler literatura está, me desculpem as outras formas de conhecimento, ainda mais na base de tudo. Antes de falar o ser humano já representava, já fazia poemas e já contava histórias.

Vamos ouvir as histórias do mundo. Vamos ficar em silêncio, agora, e escutar a história que se processa neste instante em cada um e, principalmente, na face do outro. Cada pessoa ao nosso lado é uma história. Vamos olhar para o mundo e contá-lo, escrevê-lo e lê-lo. Vamos ensinar quem não sabe a ler e escrever, cada vez mais, para que a gente, a nossa sociedade, seja mais alegre e cultive os bons afetos: a amizade, a confiança e o prazer de estar vivo e passar nossas histórias adiante.

Viver bem acima de tudo, prazer acima de todos.

* Foto de capa por Ninil Gonçalves.

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Vanessa Pessoa

Vanessa é uma feminista introvertida, estuda letras na UFPR e coleciona uma porção de figos maduros que apodreceram aos seus pés. Gosta de livros riscados, lombadas quebradas, café sem açúcar e não sabe muito bem como escrever sobre ela mesma.

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