O amor de uma boa mulher (Alice Munro): sutilezas e ações sem respostas

Crianças descobrem um corpo dentro de um carro às margens de um rio e o leitor irá se perguntar como isso pode levar ao “amor de uma boa mulher”. Um pouco antes, um instrumento médico está sendo exposto em um museu, com a intenção de contar sobre o passado de uma pequena região no Canadá. Nada demais ou muito grandioso nesse momento, mas o leitor desconfia das intenções da autora e vai querer descobrir o que há além das crianças brincando e aquele objeto antigo. O amor de uma boa mulher (Alice Munro) começa assim e revela, aos poucos, a genialidade da autora em trabalhar as tramas cotidianas com as surpresas psicológicas que somente bons personagens podem nos dar.

O amor de uma boa mulher: um livro de contos de Alice Munro
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Há algo na literatura realmente encantador e mora no pequeno espaço da simples vontade de virar mais uma página. De alguma maneira, a narrativa – com seus personagens, cenários e ações, causam no leitor o desejo de ser enganado pela aquela história.

Então, a ficção se torna um poderoso instrumento, que tira o leitor de sua realidade, o leva para um universo único e, ao retornar, o leitor irá ter um novo olhar para o seu mundo:

  1. quando a história é boa, esse novo olhar se amplia conforme o tempo passa.
  2. quando a história apenas cumpre sua função de entreter, o novo olhar pode se dissipar ao longo do tempo.

Na obra de Alice Munro, o leitor irá mergulhar e não será mais o mesmo, o que é maravilhoso.

Um conto sobre violência

O amor de uma boa mulher é um conto sobre violência física – o estupro. Mas também sobre violência psicológica. Duas mulheres, com vidas diferentes, se encontram em um momento crítico (uma está doente e a outra é a sua enfermeira). No entanto, por estarem dentro de um mesmo sistema patriarcal, as ações dessas mulheres serão um reflexo do quanto elas estão mutiladas e caladas por um machismo invisível.

Por certo, aquele objeto que aparece no museu no início da história, pode representar essa frieza que temos para lidar com a violência. Na medida em que o tempo passa, o que fica é só um objeto, sem história, sem vida, sem marcas. Emoldurado em uma caixa de vidro, dentro de um museu para as pessoas acessarem e se sentirem confortáveis na crença de suas sabedorias.

Por fim, sendo o próprio livro um objeto que nos dá acesso a história e, neste caso, uma história tão violenta, é como se Alice Munro quisesse nos dizer que, assim como uma das personagens, ficamos sem ação diante da violência. E quando conseguimos agir em prol da justiça ou de nossas morais, por fim, será difícil contar e terminar a história. Ou seja, definir suas verdades, mentiras e os amores das boas mulheres (contém ironia).

“O infortúnio nos pega enquanto dormimos, a dor e a desintegração estão à espera.” (p. 63)

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Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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