A narrativa política nas mãos de Glenn Greenwald

Há algumas semana, Glenn Greenwald se tornou um nome forte para o sistema de comunicação do Brasil que, até então, parecia sempre contar com as mesmas caras, imagens e personagens. Isso nos leva a uma ideia: se nossas histórias são construídas a partir de um ponto de vista, a grande narrativa da vida possui uma linha contínua, que traz sentido (ou deveria) a tudo que está acontecendo em nossa volta. E de acordo com as percepções, saberes e ignorâncias de cada um, essa narrativa da vida vai sendo interpretada.

Um dos exercícios mais difíceis, e quase diários, é compreender todas as informações que recebemos. Pensar nisso é uma maneira de nos sentirmos um pouco mais distantes da ignorância. Se não for assim, vamos receber e aceitar tudo de um jeito tão prático e óbvio que ficaremos para sempre nesse papel de marionetes de um sistema que nos aprisiona todos os dias.

Então, a comunicação e toda sua amplitude neste país sempre foi exclusiva dos mesmos meios, das mesmas famílias e dos mesmos poderes. Sempre feita da mesma forma e com requisitos necessários para o grande show: pitadas de sensacionalismo ali, pitadas de seriedade acolá, um pouco de humor e uma boa imagem de neutralidade, de imparcialidade, de bons moços querendo levar a informação – como fonte de conhecimento – a todos.

Glenn GreenwaldUm pouco de história

Em 1808 surgiu o primeiro jornal do Brasil, “A Gazeta do Rio”. Uma publicação oficial da corte, que utilizava o jornalismo como uma forma de moldar a opinião pública e apaziguar os ânimos do Brasil da época. Conta-se também que o “Correio Brasiliense” surgiu nesta mesma época, mas com objetivos diferentes. Era produzido fora do país, comercializado de um jeito clandestino, pois trazia críticas à corte e a forma de se administrar o Brasil da época.

Neste sentido, ainda somos os mesmos. De um lado a mídia tradicional cumprindo seu papel de propagar o poder da corte. De outro lado, a informação que enfraquece o poder da corte. É um eterno maniqueísmo que ainda não vencemos.

O nosso presente

De um lado, os mocinhos ricos limpando o Brasil da corrupção e da “ameaça comunista’ encabeçados por líderes do magistrado, que representam uma imparcialidade que nunca existiu. Essa mesma imparcialidade vendida nas entrelinhas dos jornais tradicionais e das religiões, que construíram uma narrativa de mocinhos, bandidos e salvadores da Pátria desde que o Brasil é Brasil.

De um outro lado, uma postura crítica sobre os defeitos dos governos anteriores, mas também de seus acertos e os olhos abertos: juízes não são deuses, a notícia não é neutra, a comunicação é um dos grandes poderes. É preciso falar sobre uma outra narrativa, aquela que não aparece no Jornal Nacional.

E chegou o Glenn Greenwald

Glenn Greenwald é um dos fundadores do The Intercept Brasil. Jornalista, advogado e escritor americano, mora no Brasil desde 2005 e possui diversos prêmios jornalísticos importantes, inclusive o Prêmio Pulitzer na categoria Serviço Público por conta de reportagens suas publicadas no jornal The Guardian.

Gleen Greenwald
O norte-americano Glenn Greenwald, na 12ª FLIP. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Na contramão da forma como a comunicação do Brasil sempre foi feita, Glenn apresentou um outro lado da história nas últimas semanas, pois divulgou conversas que comprovam a imparcialidade do juiz, hoje Ministro, Sérgio Moro. Ele trouxe mais força a uma narrativa sempre anulada pelos donos dos meios de comunicação por colocar o dedo na ferida do próprio poder hegemônico.

Assim, a cada dia ele está divulgando informações que mostram o quanto o trabalho do sistema jurídico do Brasil é falho e que ainda representa o desejo dos poderosos de sempre. Um sistema que permitiu a Moro cometer diversos atos ilegais que podem anular os processos que possuem o seu nome e a Lava-Jato, uma força tarefa da polícia que, para muitos, já se tornou um partido político.

O que podemos ver nisso tudo – que ainda está muito longe de acabar – é que pela primeira vez a narrativa política do Brasil não está nas mãos das mesmas pessoas e isso é de uma conquista tremenda para um país tão cego quanto a função do jornal, da impressa e principalmente da contínua manutenção do poder que começou lá atrás, quando os portugueses desembarcaram por aqui. Podemos aprender mais sobre isso lendo o livro 1984, de George Orwell, por exemplo.

Uma nova narrativa política

Pela primeira vez, alguém denunciou e mexeu com as estruturas e fez, alguns jornais, mudarem também a narrativa, que apenas é uma forma de contar a história com um fio condutor para trazer sentido nas informações que recebemos todos os dias e também aquelas que não recebemos, mas estão lá, como as forças que conduzem marés.

Difícil saber se tudo isso trará um pouco mais de luz à podridão sistemática da política e dos poderes do Brasil. No entanto, a narrativa política nas mãos de Glenn Greenwald nos mostra que os poderes existem, caem e podem mudar e, mais do que nunca, que o povo precisa abrir os olhos para a comunicação que recebe diariamente pelos meios tradicionais e tecnológicos.

Com um pouco de fôlego, é possível sair dessa aceitação grotesca e violenta produzida pelos meios de comunicação e construir uma narrativa própria, mais representativa à sua própria realidade. E, claro, parar de endeusar juízes, presidentes, procuradores ou qualquer outra profissão com status social faraônico, como se vivêssemos ainda nos moldes dos plebeus e dois reis.

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Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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