“FC é a única maneira de visitar lugares que eu nunca vou alcançar nessa vida”: entrevista com a escritora Lady Sybylla

Recentemente, a escritora Lady Sybylla concedeu uma entrevista bem legal para a revista Livro & Café, que no mês de junho trouxe diversos conteúdos sobre o futuro visto pela literatura, o papel das utopias e distopias, ficções científicas e mais. Lady Sybylla é geógrafa, professora, mestra em Paleontologia e blogueira do Momentum Saga há vários anos! É fã e entusiasta de ficção científica, da representatividade e da diversidade neste gênero, feminista e capitã da Frota Estelar.

Livro & Café: “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”, disse Bertolt Brecht. Você acha que essa frase diz algo sobre o caso da Razer que repercutiu recentemente?

Lady Sybylla: Sinto que o caso da Razer apenas ilustra as estruturas de violência e opressão sobre a mulher que “ousa” invadir um espaço que é de dominação masculina. Os caras que exigiram a cabeça da youtuber são o rio que ultrapassa as margens, mas eles acham que não há margem nenhuma nos oprimindo. Acham que é mimimi. Se a mulher não atender a uma grande lista de exigências para ser digna de respeito, acontece o que aconteceu. O pior é a empresa corroborar o discurso dos caras, enquanto a mulher que sofreu a violência é obrigada a se desculpar, sendo que o ponto dela foi provado com todo a reação violenta pela fala de um desabafo. 

Livro & Café: Como você faz para lidar com os haters?

Lady Sybylla: Ignoro. Porque o que eles querem é que você reclame, que você se importe com as bobagens que eles dizem, que dê exposição. Então a melhor maneira é ignorar. Se o hate for em redes sociais, tiro prints e denuncio nas redes. Se são nos comentários do blog, apago. 

Livro & Café: Qual é o papel da ficção científica feminista?

Lady Sybylla: FC Feminista tem como principal objetivo colocar a mulher como protagonista em enredos de FC, seja como escritora, seja como personagem. Não precisaríamos de uma FC Feminista se mulheres fossem bem recebidas no gênero. Hoje temos muitos nomes escrevendo, tanto aqui quanto lá fora, mas ainda existe resistência, em especial de leitores homens. Muita gente acha que um enredo escrito por mulher terá romance. Nada contra as histórias de amor, mas mulheres escrevem sobre tudo, não só sobre isso. Mas ainda usam o romance pra julgar um livro escrito por mulher como “livro de mulherzinha”. 

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Livro & Café: Distopia ou utopia: o que tem mais a ver com o futuro da humanidade de acordo com a FC?

Lady Sybylla: Eduardo Galeano dizia que a utopia está sempre lá no horizonte. Isso porque ela é impossível, mas deve sempre permanecer no horizonte para inspirar algo que queremos alcançar. Então nós nunca teremos um futuro totalmente utópico ou distópico, é impossível. Mas tanto uma quanto a outra estão ali no horizonte. Uma para nos inspirar a querer algo melhor, a outra para nos mostrar o que evitar. 

Livro & Café: As utopias estão fora de moda?

Lady Sybylla: Querer um mundo melhor nunca sai de moda. Volto novamente para a questão do horizonte, onde devemos mantê-la sempre ao alcance do olhar para nos inspirar a ter um mundo melhor. As pessoas usam a literatura como forma de criticar o presente e até nas utopias podemos fazer isso.

Livro & Café: Existe FC escrita por mulheres que reproduz o machismo?

Lady Sybylla: Claro, a própria Ursula K. Le Guin, infelizmente, não estava imune a isso. Pegue A Mão Esquerda da Escuridão, pegue O Feiticeiro de Terramar, que o machismo está lá. Ursula disse que pra ser publicada naquela época, década de 1960, 1970, ela precisava escrever em um universo que fosse masculino. Ela era genial, mas infelizmente caiu na reprodução do machismo algumas vezes. 

Livro & Café: É possível mostrar situações de opressão na ficção sem reproduzi-las, sem fazer propaganda delas? O que diferencia a denúncia, a crítica da reprodução?

Lady Sybylla: É possível sim. Quando um livro tem uma personagem feminina que perde a inteligência quando conhece um personagem masculino, ou ela é salva por ele, isso é reprodução de um mito social de que mulher precisa de homem para ter sua existência validade. Infelizmente, há quem reproduza isso ainda hoje, incapaz de colocar uma mulher com protagonista. Ou um negro, ou uma lésbica, ou uma pessoa com deficiência. Quando coloca, é pra “preencher cota”. É diferente de você fazer uma narrativa em que uma moça entre para os jogos para salvar sua irmã e garantir comida e dinheiro pra sua família. 

Livro & Café: Por que você escreve?

Lady Sybylla: Porque eu preciso. Só consigo organizar meus pensamentos e ideias se escrever. 

Livro & Café: E por que você escreve FC?

Lady Sybylla: Porque FC pra mim é o gênero completo, é o que me dá as ferramentas narrativas para fazer as discussões que eu quero. Porque eu gosto do futuro e a FC é a única maneira de visitar lugares que eu nunca vou alcançar nessa vida. E porque é muito divertido!


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Mari Mendes

Estudante de jornalismo e redatora. É autora de Potências do Encontro, livro de contos acolhido e publicado pela Editora Patuá. Escrever, para ela, é se amar.

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