Fome (Roxane Gay) e as violências que sofremos e praticamos em nome do machismo

Acredito que uma das maiores dádivas da literatura é nos colocar em uma situação empática. E alguns livros nos exigem tanta empatia, algo geralmente tão dolorido, que a leitura precisa de respiros e pausas, como foi a minha experiência lendo Kindred: laços de sangue, da Octavia E. Butler.

Com a leitura de Fome: uma autobiografia do (meu) corpo, da norte-americana Roxane Gay, a sensação de profunda empatia não foi diferente. Apesar da dor suscitada pela história, não consegui desgrudar do livro; foi como mergulhar e segurar o fôlego, em um misto de angústia, curiosidade e coragem.

 

As violências

Na obra, Roxane Gay expõe um evento que mudou completamente o curso de sua vida: um estupro coletivo sofrido aos 12 anos praticado pelo seu então namoradinho e seu grupo de amigos. Após o episódio, Gay começou a comer compulsivamente, chegando a atingir o que o IMC (índice de Massa Corpórea) categoriza como obesidade super mórbida. Ela passou a utilizar o seu próprio corpo como um esconderijo contra os seus piores medos, guardando sua história apenas para si. Um desses medos era ser vista pelos homens e sofrer, novamente, tamanha violência. Por isso, acreditou que ao ganhar cada vez mais peso, estaria protegida dos olhares e dos desejos masculinos.

“Este é um livro sobre o meu corpo, sobre a minha fome e, no fim das contas, este é um livro sobre desaparecer e estar perdida, e querer muito ser vista e compreendida. Este é um livro sobre aprender, por mais devagar que seja, a me permitir ser vista e compreendida.” (p. 6)

Ao longo do relato marcado por muita dor, vergonha e humor ácido, a autora nos leva pelos caminhos de um trauma e também faz uma análise sociocultural sobre a demonização e a crueldade com a qual se julga, e se castiga, a obesidade, assim como todo o machismo que marca com violência a história de muitas mulheres.

“Meu corpo é uma jaula. Meu corpo é uma jaula feita por mim mesma. Eu ainda estou tentando descobrir um jeito de sair dela. Venho tentando descobrir uma saída há mais de vinte anos.” (p. 27)

 

Olhares

O livro, já tão marcante, ganhou novos contornos no encontro do Leia Mulheres Sorocaba, realizado no dia 22 de junho e dedicado a esta obra. Naquela mesa, nós, cinco mulheres, nos reunimos para trocar experiências de leitura, mas, principalmente, nossas vivências. Éramos cinco pessoas, com idades, pesos, cores de pele, histórias de vida completamente diferentes, mas ao iniciarmos a conversa, fomos vendo quantos paralelos podíamos fazer sobre pressões estéticas sofridas, preconceitos, autoboicotes… Nos enxergamos no livro de Gay e fomos enxergadas por ele. Nos enxergamos nas histórias e silêncios dentre nós.

E isso é imensamente revoltante. Quantas de nós aprendemos a odiar nossos corpos, os mesmos corpos que nos levam aos lugares que queremos, que abraçam, que geram vidas? Quantas de nós nos deixamos levar por empregos e relacionamentos – afetivos e amorosos –  ruins, porque achamos que é isso que merecemos? Quantas de nós deixamos que pequenas e grandes violências determinem nosso futuro? Por que tanto autoboicote?

 

Nossa fome

A resposta é simples e, ao mesmo tempo, não é. O patriarcado e o machismo condicionam desde o início o nosso lugar no mundo, e, como bem lembrou Gay, mulheres não devem ocupar espaços. E mulheres devem ser disciplinadas a se comportar, a amar, a perdoar, a comer pouco. Tudo para agradar aos olhares e gostos dos homens. Mulheres não devem querer muito, não podem exigir muito, não podem ter fome. Mas sempre devem ceder mais e mais, dar, ser suficientes. Nunca somos.

Ao ler e conversar sobre o livro, vi o quanto estamos famintas! Famintas por nosso espaço, por nossa voz, por respeito. Diria até que estamos famintas por vingança após séculos e séculos de dominação, de violência, de morte. Roxane Gay colocou em palavras e no seu próprio corpo as marcas dessa fome e tenho a plena certeza que todas nós carregamos essas marcas do machismo. Quais são as suas?

 

Sobre a autora:

Reputada ensaísta, escritora e ativista norte-americana, Roxane Gay é professora universitária em Purdue e suas colunas são publicadas regularmente no The New York Times e no The Guardian. Editora de ensaios da The Rumpus, a compilação de seus textos em Má Feminista (traduzidos no Brasil pela Globo Livros) alcançou tanto sucesso e aplauso midiático que os sites satíricos brincavam com manchetes do tipo “Má feminista ainda não leu Má Feminista”. Analista da questão racial (Gay é de origem haitiana), de gênero e de identidade, a autora escreveu um dolorido e corajoso livro chamado Fome: uma autobiografia do (meu) corpo, lançado no Brasil também pela Globo Livros em 2017.

 

Para conhecer mais:

Assista a esta provocante palestra ministrada por Roxane Gay para o TED.

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Bruna Bengozi

Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

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