Nós e os ratos

Lata de lixo. Fedor. Fome. Até ontem, eram os outros. Invisíveis.

Estude. Trabalhe. Aprenda outro idioma. Tenha bons relacionamentos. Não use drogas. Tudo para não se tornar o outro, tudo para não ser invisível, tudo para ter um futuro.

Mas somos pobres e sem futuro. Roubaram nosso futuro. Roubaram nossa comida. Os ratos que usam terno e gravata. Brancos, velhos, donos de terras, de igrejas, de armas. Ajoelha e reza pela sua vida, enquanto Deus te ignora. Ratos que controlam nossas vidas, nossos corpos e, agora, a nossa morte. Nem chegaremos aos 65 anos para aposentar, fiquem tranquilos. Ajoelha e reza para morrer logo, antes de chegar ao hospital público. Pelo menos não será assassinato.

É assassinato quando nos roubam a esperança, a vontade de viver, os sonhos. É assassinato quando só resta desespero, medo, angústia.

Hoje. Amanhã. Lata de lixo. Nós. E os ratos? São eles? Jamais.

Foto: Câmara dos Deputados, Brasil, 2019. Imagem meramente ilustrativa.

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Bruna Bengozi

Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

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