Quinhentismo: livros e filmes para aprender mais

Eu escrevi um pouco sobre as características do Quinhentismo neste post. Mas é importante destacar as principais obras e filmes sobre o assunto para você ficar ainda mais por dentro!

Carta, de Pero Vaz de Caminha

A Carta é um documento de grande valor histórico, pois relata oficialmente a chegada dos portugueses ao Brasil. Que tal ler um fragmento da obra?

Carta a el-Rei Dom Manuel sobre o achamento do Brasil

Senhor, posto que o capitão-mor desta vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta Vossa terra nova, que se ora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta. (…)

E assim seguimos nosso caminho, por este mar, de longo, até terça-feira d’ oitavas de Páscoa, que foram 21 dias d’Abril, que topamos alguns sinais de terra (…) E à quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves, a que chamam fura-buchos. Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra, isto é, primeiramente d’um grande monte, mui alto e redondo, e d’outras serras mais baixas ao sul dele e de terra chã com grandes arvoredos, ao qual monte alto o capitão pôs o nome o Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz. (…)

E dali houvemos vista d’homens, que andavam pela praia, de 7 ou 8, segundo os navios pequenos disseram, por chegaram primeiro. (…) A feição deles é serem pardos, maneira d’avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura, nem estimam nenhuma cousa cobrir nem mostrar suas vergonhas. E estão acerca disso com tanta inocência como têm em mostrar o rosto. (…)

Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos, pelas espáduas; e suas vergonhas tão altas e tão çarradinhas e tão limpas das cabeleiras que de as nós muito bem olharmos não tínhamos nenhuma vergonha. (…)

E uma daquelas moças era toda tinta, de fundo a cima, daquela tintura, a qual, certo, era tão bem feita e tão redonda e sua vergonha, que ela não tinha, tão graciosa, que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhes tais feições, fizera vergonha, por não terem a sua como ela. (…)

O capitão, quando eles vieram, estava assentado em uma cadeira e uma alcatifa aos pés por estrado, e bem vestido, com um colar d’ouro mui grande ao pescoço. (…) Um deles, porém, pôs olho no colar do capitão e começou d’acenar com a mão para a terra e despois para o colar, como que nos dizia que havia em terra ouro. E também viu um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e então para o castiçal, como que havia também prata. (…)

Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo d’agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem! Porém, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. (…)

capitão-mor: trata-se de Pedro Álvares Cabral.

conta: relato.

oitavas de Páscoa: semana que vai desde o domingo de Páscoa até o domingo seguinte.

horas de véspera: final da tarde.

chã: plana.

cousa: coisa.

vergonhas: órgãos sexuais.

çarradinhas: alguns historiadores consideram “saradinhas”, isto é, sem doenças, e outros consideram “cerradinhas”, isto é, densas.

tinta: tingida.

alcatifa: tapete, que cobre ou se estende.

Entre-Douro-e-Minho: antiga província de Portugal.

Dá para ler a Carta na íntegra aqui.

Outras produções do Quinhentismo

Além da carta de descobrimento, destaco outras obras que marcam a Literatura Informativa e a Literatura Catequética:

Tratado da Terra do Brasil e História da Província de Santa Cruz, de Pero de Magalhães Gândavo. Foi escrito por volta de 1570 e impresso pela primeira vez em 1826. A obra de Pero de Magalhães Gândavo pode ser considerada a “primeira história do Brasil”. Descreve as capitanias em que o país era dividido e as condições de vida de seus primeiros habitantes, desenhando um panorama da fauna e flora brasileiras, os principais rios e recursos naturais e os nativos indígenas. É na História da Província de Santa Cruz que Gândavo menciona um curioso evento em que se encontrou um “monstro”, chamado pelos índios de “ipupiara”.

Diálogo sobre a conversão dos gentios, do Padre Manuel da Nóbrega. Foi escrito entre 1556 e 1557 e impresso em 1880. Este texto mostra o diálogo entre dois irmãos portugueses, Mateus Nogueira e Gonçalo Álvares, que tinham visões diferentes a respeito da conversão dos indígenas, da colonização e da inserção dos jesuítas no processo. Tem grande valor histórico, ao ao evidenciar o método utilizado pelos jesuítas para iniciar uma relação com os nativos e colocar em prática a colonização e evangelização.

Tratado descritivo do Brasil em 1587, de Gabriel Soares de Sousa. Escrito em 1587 e impresso por volta de 1839. Este clássico da literatura colonial reúne dois textos do cronista Gabriel Soares de Sousa enviados a um influente conselheiro do rei Filipe II de Espanha, no intuito de oferecer à Coroa informações acerca da situação da colônia portuguesa e demonstrar o conhecimento do autor sobre aquelas terras. Desde então, a obra tem despertado grande interesse dos estudiosos do início da colonização do Brasil e é considerada por muitos o mais importante texto quinhentista sobre o assunto. É fonte indispensável a diferentes áreas do conhecimento, como botânica, geografia, história e antropologia, pois as minuciosas descrições apresentadas por Soares fornecem preciosas informações a respeito da fauna, flora, acidentes geográficos, povos nativos e engenhos da costa do Brasil no século XVI, sobretudo da Bahia de Todos os Santos.

Teatro, do Padre José de Anchieta. O jesuíta nos legou as primeiras peças teatrais escritas no Brasil. Seu teatro é um dos momentos altos da literatura quinhentista brasileira, mostrando em todo o seu viço a cultura dos primitivos habitantes da costa do Brasil, que o trabalho missionário queria conduzir ao cristianismo, evidenciando as tensões e os desafios de tal empreendimento.

Filmes sobre o contexto do Quinhentismo

Por fim, nada como aprender mais por meio de filmes! Vou deixar algumas dicas aqui:

quinhentismo
Cena do filme “Desmundo”.

DESCOBRIMENTO do Brasil. Direção: Humberto Mauro. Brasil: [s.n.], 1936. (63 min). Disponível no Youtube.

ANCHIETA, José do Brasil. Direção: Paulo Cezar Saraceni. Brasil: [s.n.], 1977. (140 min). Disponível no Youtube.

CARAMURU: a Invenção do Brasil. Direção: Guel Arraes. Brasil: [s.n.], 2001. (88 min). Disponível no Youtube.

DESMUNDO. Direção: Alain Fresnot. Brasil: [s.n.], 2003. (101 min). Disponível no Youtube. (Aliás, tem resenha sobre o livro que deu origem a este filme aqui na Livro & Café).

Gostou das sugestões? Precisa de mais dicas para estudar Quinhentismo? Compartilha conosco nos comentários!

 

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Bruna Bengozi

Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

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