A queda dos czares russos, o comunismo e o tempo

Muita gente conheceu a saga da família Romanov pela série recém-lançada da Netflix, Os Últimos Czares. A produção, com seis episódios, retrata a vida e a queda de Nicolau II, o último czar russo, desde sua coroação, em 1894, até a execução, em 1918, encerrando a dinastia dos Romanov. Mas quem foram esses personagens? E por que eles são importantes para a História e para as reflexões sobre o momento atual?

Os Romanov

A família Romanov governou a Rússia num sistema de autocracia de 1613 até 1917, ou seja, apenas uma família era responsável por todo o controle de um sexto de todo território do mundo. Nele, um sistema absolutamente desigual de renda, de política públicas e de acúmulo de riqueza que são incalculáveis até hoje. Durante esse período, os russos viviam de uma agricultura extremamente precária, devido ao clima da região, não tinham propriedade privada definida, e começaram a surgir grandes manifestações contra o governo. No final de 1915 até o meio de 1916, os governantes reprimiram diversas manifestações de maneira autoritária, deixando dezenas de mortos, o que incomodou até mesmo os oficiais do exército, que começaram a repensar e discutir o próprio governo.

Os czares russos acreditavam fielmente que eram enviados de Deus para se manterem no poder, e relatos contam que suas ações sempre eram observadas por ortodoxos católicos da igreja russa, que, de certa forma, a validavam. Historicamente, há o contexto de que quem discordasse a família sofreria punições e exílios.

É importante lembrar que quando lembramos da Rússia e o seu gigantesco território, sua população era estimada, em 1904, em 171 milhões de habitantes – todos sem direito à propriedade privada e trabalhando para sustentar a riqueza inimaginável da família Romanov.

Nesse sentido, até 1917, a Rússia teve quase 300 anos de governo familiar e estava sendo pressionada para ter um Parlamento, pois na Inglaterra, devido a pressões populares, as autoridades perceberam que seria interessante abrir um espaço no governo para uma voz popular, mas se manter no poder. Diferentemente, os czares russos, encabeçados pelo governo de Nicolau II, mantiveram sua postura de autocracia e não abriram espaço para nenhum movimento popular ter voz, mesmo que pequena, no governo.

A revolução

Em 1916 e início 1917, chegou-se a um momento de muita tensão na Rússia. Os movimentos populares liderados por Stalin, Lenin e Trotsky tinham ganhado enorme força e suas manifestações eram imensas. Com uma retórica forte, conseguiram ganhar apoio de grande parte do exército russo – o que motivou ainda mais o avanço de uma revolução armada.

Lênin, líder da revolução, em discurso.

Até que, enfim, chegou fevereiro de 1917, um período de conflitos e de muita repressão estatal, que levou à queda da família Romanov. Os militantes invadiram os palácios e conseguiram levar quase todos os integrantes da família real para a Casa Ipatiev (em maio de 1917), controlada pelos revolucionários russos. Nesse momento, não viviam nenhum glamour real e havia ordens e funções destinadas a cada um, porém todos foram executados em 17 de julho de 1918, pois os revolucionários estavam com receio de que um grupo do exército ainda tentasse resgatá-los – o que foi chamado de Exército Branco. Todos foram enterrados numa floresta da Sibéria e, em 1991, após exames de DNA, foram sepultados formalmente. Alguns familiares do governo Romanov conseguiram fugir e mantêm seu nome até hoje.

Evidentemente a história de 300 anos da Rússia dos Romanov é muito maior, repleta de personagens importantes e detalhes incríveis. O resumo acima é uma tentativa de nos fazer refletir sobre as consequências políticas de um governo autoritário e sem participação popular.

Os erros em torno da Revolução Russa

Algumas pessoas, idealizadas pelos pensamentos raivosos sobre o comunismo, tratam a Revolução Russa com absurdos erros históricos. Quero lembrar que Karl Max foi, sim, um grande influenciado do movimento russo, e sua obra foi de enorme importância para seus protagonistas. Entretanto, Marx faleceu em 14 de março de 1883, em Londres, onde também viveu praticamente a vida toda. Ou seja, não teve nenhuma participação no governo russo – em qualquer momento – seja na autocracia monárquica, ou após 1917, na Revolução.

Sendo assim, sempre enfatizo que o contexto que trouxe à tona a Revolução Comunista na Rússia é mais coerente quando se coloca em pauta o momento político anterior a ele. O argumento de que houve extrema violência durante vários da Revolução é real, principalmente quando Stalin chegou ao poder em 1924, em decorrência de outro golpe sobre Vladimir e Trotsky, que muitas vezes discordavam do governante comunista.

Ao entrar no assunto sobre o legado de Stalin da Rússia, esse texto não tem como objetivo criar fascínios políticos em nenhum dos lados de um vetor. Temos um vasto estudo com diferentes pontos de vistas, onde diversos autores traçam linhas de pensamentos interessantes e diferentes sobre os governos de Stalin e Lenin, mas, repito, minha intenção não é ser caracterizado por uma defesa de nenhum dos personagens e períodos aqui citados. A intenção é fazer uma análise de transição em momentos políticos.

Como agir diante do autoritarismo?

Por fim, é difícil imaginar como seria a tomada de poder – pela retirada de um império de 300 anos de uma monarquia autoritária e violenta – sem o uso dos mesmos meios. Realmente acredito que temos um consenso de que a família Romanov não deixaria o poder por própria vontade, ou cedendo às pressões populares. Existiria outro caminho para derrubar um governo não democrático?

Como o cidadão quebra a sanha de poder, quando os personagens mais poderosos de uma nação não querem largá-la? Qual o nosso papel, enquanto cidadãos, ao nos depararmos com regimes autoritários e ditatoriais? Devemos usar quais meios para demonstrar nossa insatisfação? Usar a violência para deter um governo violento nos assemelha aos bárbaros ditadores? Quais são os limites de um governo democrático representado por políticos que não respeitam o próprio regime? O que é Estado de bem-estar social? Onde ficamos, o que falamos, como agimos para demonstrar nossa insatisfação?

Citei brevemente a história Russa para dar início à contextualização dos limites dos governos perante as garantias individuais do povo, pois a relação entre autoritarismo e movimentos populares sempre existiu e continuará existindo. O povo sempre vai à luta: alguns pela música, outros pela arte, outros pela palavra, outros pela revolução. O quanto de autoritarismo você aguenta? O que você faz?

Para saber mais: 

Séries: Os Últimos Czares (Netflix) e Trostky (Netflix)

Filme: O Jovem Karl Marx, dirigido por Raoul Peck (2017)

Livro: História concisa da Revolução Russa, de Richard Pipes

Lista Livro & Café: 20 livros para entender e enfrentar o fascismo

 

* Imagem de capa: Fotografia da família Romanov.

Carlos Belo
Carlos Belo

Engenheiro Civil, Químico, gosto de cerveja, tenho uma gata e "a religião é o ópio do povo". Dizem que sou comunista, mas eu não sou. Morte ao capitalismo.

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