Utopia (Thomas More): resumo e contexto histórico

Utopia é um dos clássicos mais marcantes da Literatura Universal. Apesar de não ser um livro muito grande, sua leitura exige um conhecimento prévio. É preciso ter noções sobre a sociedade de 1500 e, também, sobre as influências do autor. Um resumo sobre Utopia, de Thomas More, pode ser muito útil!

Seja como conceito ou como vertente literária, é uma leitura importante para quem quer entender mais sobre a capacidade humana de imaginar uma sociedade mais igualitária no futuro. E, ainda, como erros são cometidos durante esta tarefa tão grandiosa.

Contexto histórico de Utopia (Thomas More)

Utopia foi publicado em 1516. Thomas More escreveu primeiro o Livro II, depois de um tempo, completou a obra com o Livro I para, então, publicá-la. O período histórico desta obra é de intensa transformação social. As navegações, o colonialismo e o contato com culturas diferentes tornaram o ambiente social efervescente.

É importante ressaltar que a obra de More foi lançada apenas um ano antes de estourar a Reforma Protestante de Lutero. Três anos antes Maquiavel havia publicado O Príncipe, obra considerada oposta aos pensamentos de More.

Quem foi Thomas More?

thomas-morusMore nasceu em Londres em 1478. Estudou na Saint Antony’s School, uma instituição religiosa de ensino. Ainda menino foi empregado pessoal, pajem, do arcebispo de Cantebury chamado John Morton. Esse trabalho teve grande influência em sua vida intelectual. Morton providenciou o ingresso de More na Universidade de Oxford, onde estudou Direito. Escolheu Jane Colt para ser sua esposa quando ela ainda era “mocinha” para “moldá-la facilmente a seu gosto”. Casou-se com ela em 1505. Jane teve 4 filhos e faleceu seis anos depois, em 1601. Casou-se novamente com Alice Middleton, uma mulher viúva, sete anos mais velha, que “não era jovem nem bela e mostrava-se hostil aos intelectuais”. Sua carreira política iniciou-se em 1504, quando se tornou membro do Parlamento. Em 1529, ocupou o cargo de Chanceler do governo britânico. Em 1535, foi processado e condenado à morte. Foi canonizado pela Igreja Católica em 1935.

As principais influências à obra de More

  • Humanismo;
  • Renascimento;
  • Epicurismo;
  • Estoicismo;
  • Platão;
  • Erasmo de Rotterdam;
  • Relatos das viagens ao “novo mundo”.

Escrever Utopia como uma obra ficcional foi uma maneira de More tentar escapar à censura. Ainda assim, não deixou de ser um risco expôr suas críticas ao regime político da época. Sua obra, tanto como ficção quanto como um ensaio sobre as possibilidades de um mundo mais justo, foi inspiração para muitos outros pensadores. Utopia é hoje mais do que a obra de More; é um conceito rico e complexo que ainda influencia a sociedade. Saiba mais sobre o conceito de Utopia neste artigo.

Resumo de Utopia (Thomas More)

Utopia é, em resumo, a transcrição do relato de Rafael Hitlodeu, um viajante que conheceu uma ilha na qual existe uma sociedade socialmente justa. O livro é divido em duas partes: na primeira o autor relata o encontro com seu amigo Pedro, o qual apresentou-lhe ao velho viajante. Durante o diálogo entre eles, há a discussão sobre diversos aspectos sociais da época: pena de morte, classe religiosa, riqueza e pobreza. Na segunda parte, o autor reproduz o relato de Hitlodeu sobre a sociedade de Utopia. O viajante descreve:

  • Das Cidades de Utopia e Principalmente da Cidade de Amaurota;
  • Dos Magistrados;
  • Das Artes e Ofícios;
  • Das Relações Mútuas entre os Cidadãos;
  • Das Viagens dos Utopianos;
  • Dos Escravos;
  • Da Guerra;
  • Das Religiões da Utopia.

Como funciona Utopia?

A ilha possui 200 mil passos de largura e seu formato é de uma lua crescente, formando uma bacia onde as ondas são mais calmas. A entrada neste golfo é perigosa e apenas os utopianos conhecem bem as rochas, verdadeiras armadilhas aos navegantes. A ilha foi invadida e conquistada por Utopus, homem que impôs seu projeto de civilização ao povo nativo.

Política

A família é a instituição básica da organização social. Cada família elege, por meio de voto secreto anual, um representante, que é chamado de sifogrante. Estes, usando o mesmo método, elegem o príncipe, que será o líder máximo da nação até o fim de sua vida, a menos que ele haja de forma autoritária. Embora sejam eleitos anualmente, os sifograntes geralmente ocupam o cargo de forma vitalícia, a não ser que haja alguma tentativa de tirania. Desta forma, funciona um conselho eleito que governa a ilha. O sistema de Utopia pode ser classificado, portanto, como uma democracia indireta. Não existe participação política das mulheres.

Trabalho

A cultura utopiana valoriza o trabalho, não utiliza o dinheiro. Todas as pessoas levam a sua produção até um armazém central onde os “chefes de família” se abastecem conforme suas necessidades. Tendo a abundância e a igualdade como princípios, a sociedade utopiana garante o abastecimento de todos. A jornada de trabalho é de seis horas diárias e todos têm acesso à educação básica. Todos devem praticar o serviço agrícola por pelo menos dois anos, em um sistema de rotatividade. Entre os indivíduos, são escolhidos alguns, por meio de voto, para desempenhar exclusivamente trabalhos intelectuais de educação, pesquisa e estudo, além dos sacerdotes, que são líderes espirituais da população. A classe dos letrados é hierarquicamente mais valorizada.

Prazer

A busca pelo prazer é aceita e incentivada em Utopia, desde que se estabeleça um equilíbrio entre o trabalho, o estudo e os outros aspectos da vida. O prazer é permitido com alguns limites: ninguém pode se tornar ocioso ou buscar sua satisfação pessoal em detrimento do bem comum. Assim como todo o prazer imediato que causa dor e sofrimento posteriormente deve ser evitado. Existem festas e comemorações religiosas, assim como tempo livre que pode ser usado para o descanso, jardinagem, estudo, exercícios militares e outras atividades.

Propriedade

Em Utopia, não existe propriedade privada, desta forma, cada um deve trabalhar para o coletivo para ter a garantia de sua parte na propriedade social. Todas as família participam de um sorteio a cada dez anos em que são distribuídas moradias dignas a todos. Não existem pessoas em situação de rua, doentes desassistidos nem criminosos em Utopia. A produção de bens é planejada de acordo com a necessidade, sendo que o excedente de uma cidade é usado para suprir o déficit de outra.

Cidades

Cada cidade deve ter, no máximo, 6 mil famílias, sendo que cada uma deve conter entre 10 e 16 adultos. A quantidade de crianças não é controlada, o que pode indicar uma tolerância que considera a mortalidade infantil. Quando existe excesso de pessoas em uma família, elas são enviadas a outras com falta de indivíduos. Da mesma forma, a população é distribuída entre as cidades, com o objetivo de evitar grandes aglomerações. Caso toda a ilha fique superpovoada, são iniciadas colônias de Utopia no continente, podendo haver, inclusive, conflitos entre os utopianos e os povos colonizados, pois a cultura da ilha deve ser imposta ao povo do continente.

Roupas e acessórios

A moda em Utopia evita qualquer tipo de luxo, usando modelos simples e com tecidos de qualidade sem detalhes diferenciados ou com excesso de detalhes. Todo o ouro da ilha é desprezado e usado para fins “inferiores”, como correntes, móveis e utensílios para escravos, latrinas etc. Pérolas e pedras preciosas são usadas como brinquedos para as crianças e, por isso, são associadas a coisas infantis e vergonhosas.

Escravidão

Todas as pessoas que cometem crimes são, majoritariamente, submetidos à escravidão. Os filhos de pessoas escravizadas são livres e os escravizados estrangeiros ganham a liberdade ao chegar a Utopia. O povo indígena, que vivia na ilha antes da chegada do fundador da sociedade insular, são escravizados e considerados perigosos. Os escravizados trabalham em matadouros e açougues, cozinhas (juntamente com as mulheres) e em outros serviços considerados degradantes. Trabalhadores estrangeiros podem se oferecer como escravos em Utopia.

Gênero

Em Utopia, a situação das mulheres é de inferioridade em relação aos homens. Elas não podem participar da política, fazem trabalhos relacionados à educação infantil e cuidados com bebês, também desempenham tarefas na cozinha e servem a mesa, todas atividades consideradas degradantes e inferiores de alguma forma. Os chefes das família, que são instituições sociais e políticas, são os homens. Utopia é, assim, uma sociedade patriarcal e rigidamente monogâmica.

Guerra

A sociedade utopiana despreza a guerra. Mas, caso seja preciso, entra em conflitos para defender seus interesses. Para isso, prefere utilizar o ouro, inútil para eles e muito valorizado em outros países, para contratar soldados de outras nações para lutar. Existe treinamento militar obrigatório e, inclusive, mulheres podem fazê-lo. Quando não há alternativa, entram em conflito direto com seus inimigos, mas sempre tendo como objetivo diminuir ao máximo as mortes e evitar a violência desenfreada.

Religião

Em Utopia, existe pluralidade de crenças e é garantida a liberdade de fé. No entanto, segundo a descrição das religiões da ilha, todas elas são monoteístas. O Estado não impõe nenhuma fé específica, o que é uma ideia muito inovadora e questionadora para a época. A intolerância não é aceita pela sociedade e todo aquele que ataca a fé do outro ou quer forçar sua própria religião a uma pessoa é punido.

Outros aspectos importantes de Utopia:

  • As pessoas se alimentam em restaurantes públicos, embora não seja proibido fazer refeições em suas residências;
  • Existem hospitais públicos que oferecem tratamentos e assistência a quem precisa;
  • As pessoas mais velhas possuem um prestígio social, ocupam um status elevado;
  • Para poder viajar, a pessoa ou o grupo deve pedir autorização do príncipe e receber um documento onde consta a data de ida e volta; quem estiver fora de sua cidade sem os documentos é preso e, em caso de reincidência, é escravizado;
  • O adultério é punido com a escravização do condenado e o divórcio ocorre de acordo com uma série de regras, sendo pouco comum;
  • Crimes considerados graves possuem como punição a morte, como a reincidência do adultério e assassinato, por exemplo;
  • Pessoas com doenças graves, crônicas ou deficiência, que não podem trabalhar ou que sofrem muito podem escolher pela sua morte;
  • O suicídio de uma pessoa saudável é considerado algo muito ruim e a pessoa que o comete tem seu corpo jogado nos pântanos;
  • O sexo antes do casamento não é permitido;
  • É crime ridicularizar outra pessoa, assim como humilhá-la com uma condição física;
  • As pessoas “loucas” e “bobas” possuem o papel social de fazer rir e divertir a população, sendo crime maltratá-las de qualquer forma;
  • Não existem advogados, cada cidadão defende a si mesmo e as leis da ilha não são muito numerosas nem complicadas, sendo que o cidadão comum é capaz de sabê-las todas.

 

Referências:

  • A Utopia, Thomas More: para escrever este artigo usei um exemplar da antiga Ediouro, da colação Clássicos de Bolso, com tradução de Luís de Andrade e prefácio do Prof. Mauro Brandão Lopes. Mas você pode encontrar um exemplar novinho aqui, com tradução de Alda Prado;
  • More, da coleção Os Pensadores, publicado pela antiga Nova Cultural, de 1997, com tradução e notas também de Luís de Andrade e consultoria de José Américo Motta Pessanha;
  • Resenha Crítica de Utopia, por Antonio Ozaí da Silva, disponível na Revista Espaço Acadêmico.

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Mari Mendes

Estudante de jornalismo e redatora. É autora de Potências do Encontro, livro de contos acolhido e publicado pela Editora Patuá. Escrever, para ela, é se amar.

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