A existência do outro também fere a minha existência. Entretanto, o pensamento raso sugere que é necessário a não existência do outro para que a minha existência não deixe de ser. Neste ponto, um grande espaço vazio e desconhecido acompanha as atitudes daqueles que estão presos aos pensamentos religiosos e sociais lá do século XV ou XVI ou XVII ou…

A existência do outro também fere a minha existência. Eu quero dizer que me importo quando o outro não pode usufruir de suas liberdades que, mesmo diferentes das minhas, me deixam diminuída se eu não compreender a importância de sua existência.

A existência do outro também fere a minha existência. E isso me lembra Clarice Lispector e o seu mergulho tão íntimo na experiência de ser, nem que seja por alguns segundos. Se conseguimos alcançar o espaço tão íntimo de nossa existência e poder tocá-la como se fosse algo concreto, como a dor, o medo, o berro e o sorriso, dá aquela sensação de que não sou mais eu, sou um tudo existencial, sou o outro. Assim, se o outro não consegue o mergulho íntimo e profundo dentro de sua própria existência, a minha existência também fica prejudicada, porque, no fundo, a conexão entre as pessoas são maiores do que podemos imaginar ou suportar.

A existência do outro também fere a minha existência. Eu também sou aquele que interfere na existência do outro. Eu também moro nos parasitas religiosos que veem naturalidade na violência, mas não conseguem ver a dimensão do amor em todas as suas formas e gestos. Eu moro ali, porque quando consigo atingir minha existência e me torno o todo, o parasita religioso me atinge como se eu fosse a ferida da bala que ele mesmo lançou em mim.

A existência do outro também fere a minha existência. Portanto, preciso defender a existência daqueles que não possuem os mesmos direitos que eu. Para ser livre, para se conectar nas entranhas dos sentimentos de ser, eu preciso olhar para o outro e ter a certeza que ele também pode se conectar com o seu eu mais íntimo e particular e transpor, como eu transponho, em sua pele, seus gestos, suas atitudes, seus beijos, seus abraços, seus sexos.


Imagem em destaque: Salvador Dalí

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Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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