Abrindo a Redoma de Vidro, de Sylvia Plath: trechos da obra

Digo, sem exageros, que A redoma de vidro, romance escrito pela norte-americana Sylvia Plath e publicado em 1963, é um divisor de águas. Existe uma Bruna antes e depois da leitura deste livro, que se deu em 2014; coincidentemente, ele chegou a mim no momento em que o diagnóstico da depressão, ansiedade e síndrome do pânico também colocou um marco temporal em minha vida.

Cinco anos depois, em agosto de 2019, tive que encarar o desafio de voltar à Redoma para o encontro do Leia Mulheres Sorocaba. Qual Esther Greenwood (a persona de Sylvia Plath no livro) eu encontraria? E qual Bruna iria encontrar este livro? Como encarar esta obra com a mesma idade em que Plath tirou a sua vida e em mais um processo de recaída das minhas doenças mentais?

redoma
A poeta e escritora Sylvia Plath, em sua máquina de escrever.
Everett Collection / Rex Features

Sinceramente, não consegui colocar no papel tais respostas. Eu só sei que ainda hoje é uma grande luta buscar abrir um pouquinho da redoma de vidro que insiste em nos sufocar. Mas a leitura é uma ferramenta que tenho usado para forçar essa abertura. Então, gostaria de compartilhar, aqui, alguns trechos* da obra que me marcaram – no passado e no presente – e que ajudam a pensar tantas questões sobre a existência humana e, especialmente, sobre a condição de ser mulher!

Trechos selecionados de A redoma de vidro

“Acontece que eu não estava conduzindo nada, nem a mim mesma. Eu só pulava do meu hotel para o trabalho e para as festas, e das festas para o hotel e então de volta para o trabalho, como um bonde entorpecido. Imagino que eu deveria estar entusiasmada como a maioria das outras garotas, mas eu não conseguia me comover com nada. (Me sentia muito calma e muito vazia, do jeito que o olho de um tornado deve se sentir, movendo-se pacatamente em meio ao turbilhão que o rodeia.)” 

“Depois que Doreen foi embora, fiquei me perguntando por que eu não conseguia mais cumprir as minhas obrigações até o fim. Isso me deixou triste e cansada. Então me perguntei por que também não conseguia deixar de cumprir minhas obrigações até o fim, do jeito que Doreen fazia, e isso me deixou mais triste e cansada ainda.”

“Achei que aquele era o tipo de droga que só um homem podia ter inventado. Ali estava uma mulher passando por um grande tormento, que não gemeria daquele jeito se não estivesse obviamente sentindo cada espasmo de dor, e ela voltaria para casa e faria outro bebê porque a droga a faria esquecer de como a dor tinha sido terrível – tudo isso enquanto, numa parte secreta de seu corpo, aquele corredor de aflição continuaria à sua espera, longo, escuro, sem portas nem janelas, pronto para abrir-se e devorá-la mais uma vez.”

“Eu vi minha vida estendendo seus galhos em minha frente como a figueira verde da história. Da ponta de cada ramo, como um figo roxo e grande, um maravilhoso futuro acenava e piscava. Um figo era um marido e um lar feliz e filhos, e outro figo era uma famosa poetisa e outro figo era uma brilhante professora, e outro figo era E Gê, a editora incrível, e outro figo era Europa e África e América do Sul, e outro figo era Constantin e Socrates e Attila e um pacote de outros amores com nomes esquisitos e profissões incomuns, e outro figo era a campeã da equipe olímpica, e além e acima desses figos haviam muitos outros figos que eu não podia distinguir bem.  Eu me vi sentada na bifurcação dos galhos desta figueira, morrendo de fome, só porque eu não conseguia me decidir de qual figo escolher. Eu queria cada um deles, mas escolher um significaria perder todo o resto, e, enquanto eu estava sentada ali, incapaz de me decidir, os figos começaram a se enrugar e ficarem pretos, e, um por um, eles caíram ao chão, aos meus pés.”

“Eu sabia que havia algo errado comigo naquele verão, porque tudo o que eu podia pensar era sobre os Rosenbergs e como estúpida eu fui em ter comprado todas aquelas desconfortáveis roupas caras, penduradas frouxas como peixes em meu closet, e como todos os pequenos sucessos que eu acumulei tão alegremente na faculdade se degradavam, reduzidos à nada ante o mármore sofisticado e as fachadas de vidro laminado ao longo da Avenida Madison.”

Sylvia Plath. Cortesia: Smith College.

“Pela primeira vez na minha vida, sentada no coração à prova de som do prédio da ONU, entre Constantin, que jogava tênis tão bem quanto fazia traduções simultâneas, e a garota russa que sabia várias expressões idiomáticas, me senti totalmente inadequada. Na verdade o problema é que eu sempre fora inadequada , só não tinha pensado nisso ainda.”

“Então alguma coisa dobrou-se sobre mim e me dominou e me sacudiu como se o mundo estivesse acabando. Ouvi um guincho, iiii-ii-ii-ii-ii, o ar tomado por uma cintilação azulada, e a cada clarão algo me agitava e moía e eu achava que meus ossos se quebrariam e a seiva jorraria de mim como uma planta partida ao meio. Fiquei me perguntando o que é que eu tinha feito de tão terrível.”

“A coisa mais linda do mundo, pensei, deve ser a sombra, as milhões de formas móveis e imóveis das sombras. Havia sombras em gavetas de escrivaninhas, armários e malas; debaixo de casas, árvores e pedras; no fundo dos olhos e sorrisos das pessoas; a quilômetros e quilômetros de distância, no lado escuro da terra.”

“Eu sabia que devia ser grata à sra. Guinea, mas não conseguia sentir nada. Não teria feito a menor diferença se ela tivesse me dado uma passagem para a Europa ou um cruzeiro ao redor do mundo, porque onde quer que eu estivesse – fosse o convés de um navio, um café parisiense ou Bangcoc -, estaria sempre sob a mesma redoma de vidro, sendo lentamente cozida em meu próprio ar viciado.”

“- Vamos continuar de onde paramos, Esther – ela havia dito, com seu sorriso doce de mártir. – Vamos fingir que tudo não passou de um sonho ruim. Um sonho ruim. Para a pessoa dentro da redoma de vidro, vazia e imóvel como um bebê morto, o mundo inteiro é um sonho ruim. Um sonho ruim. Eu lembrava de tudo. Lembrava dos cadáveres e de Doreen e da história da figueira e do diamante de Marco e do marinheiro no Common Park e da enfermeira vesga e dos termômetros quebrados e do negro com dois tipos de feijão e dos nove quilos que ganhei graças à insulina e da rocha que se erguia entre o céu e o mar como uma caveira cinzenta. Talvez o esquecimento, como uma nevasca suave, pudesse entorpecer e esconder aquilo tudo. Mas aquilo tudo era parte de mim. Era a minha paisagem.”

* Trechos retirados da edição brasileira publicada pela Biblioteca Azul em 2014, com tradução de Chico Mattoso.

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Bruna Bengozi

Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

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