Quem quer enganar a morte?

Em Contos de enganar a morte, o escritor e ilustrador Ricardo Azevedo bebe na tradição das histórias orais que circulam há séculos pelo Brasil e nos apresenta quatro personagens que tentam negociar com a Dona Morte um pouquinho mais de tempo antes da partida.

“Abotoar o paletó”, “entregar a rapadura”, “bater as botas”, “bater com as dez”, “esticar as canelas”, “ir pra cucuia”, ” ir para o bebeléu”, “estar no bico do corvo”, “comer capim pela raiz”, “virar presunto”… Você já deve ter ouvido alguma dessas expressões, né? Elas dizem respeito à morte e nos revelam a nossa dificuldade em falar diretamente sobre a única certeza que temos nesta vida, ou seja, a sua finitude. O assunto é ainda mais delicado quando temos que tratar sobre a morte com as crianças. E é aí que mora o triunfo do livro infantojuvenil de Ricardo Azevedo: apresentar de maneira leve e divertida um tema que ainda causa medo e até repulsa.

A morte contada e recontada

Publicada em 2003 pela Editora Ática, a obra ficou em 2º lugar no Prêmio Jabuti na categoria Livro Infantil em 2004 e foi considerada Altamente Recomendável pela FNLIJ no mesmo ano. Mas este não é o primeiro trabalho do Ricardo Azevedo. Desde a década de 1980, ele tem publicado livros infantojuvenis e pesquisado os contos populares para recontá-los a sua maneira.

Em Contos de enganar a morte, temos quatro histórias que nos foram legadas pelos portugueses. Elas tratam de personagens – o Zé Malandro, o ferreiro, o médico e o jovem viajante – que, tendo sido visitados pela Morte, tentam adiar a sua partida, seja por meio da negociação dos prazos ou pregando uma peça na “Ceifadora”. Os contos, cheios de reviravoltas engraçadas, apresentam o tema da morte de maneira simples, mas sem desconsiderar a realidade, isto é, que no final ela é inevitável para todos nós.

“- Fiquei muito feliz com o seu convite – disse ela [Morte]. – Já estou acostumada a ser maltratada. Em todos os lugares por onde ando as pessoas fogem de mim, falam mal de mim, me xingam e amaldiçoam. Essa gente não entende que não faço mais do que a obrigação. Já imaginou se ninguém mais morresse no mundo? Não ia sobrar lugar para as crianças que iam nascer!” (p. 13)

Leia mais: A morte na literatura e o que vem depois

As ilustrações coloridas, também feitas por Ricardo, são inspiradas nas xilogravuras do cordel e pinturas rupestres e funcionam como um retrato dos principais momentos de cada conto, deixando a obra ainda mais rica.

enganar a morte
Uma das ilustrações feitas por Ricardo Azevedo. Foto: Bruna Bengozi

Para que enganar a morte?

A morte, ainda que assustadora, é assunto que alimenta a nossa vida e a nossa cultura. Como não lembrar de tantos filmes e contos de terror que trazem a Morte como personagem principal? Ou então livros como Intermitências da Morte, do grande José Saramago, no qual a “ossuda” resolve fazer “greve” e não leva mais ninguém para a cova, o que acaba gerando uma série de problemas? Há ainda uma linda releitura – ou continuação – desta história no conto “As novas intermitências da morte”, escrito por Amanda Lins na coletânea Leia Mulheres, e na qual a personagem traça um diálogo com a senhora Morte em busca de mais tempo.

Assim, a arte pode nos ajudar a lidar com a morte de uma forma mais natural e quanto antes começarmos a apresentar o assunto para as crianças, por meio de livros adequados para a faixa etária, por exemplo, mais fácil será tirar a morte do campo do tabu e do medo. Contos de enganar a morte é, então, uma boa obra para divertir e, também, levar à reflexão sobre a nossa própria vida e seu fim.

“Segundo o ditado popular,
não é preciso se preocupar com
a morte. Ela é garantida e
ninguém vai ser bobo de querer
roubá-la da gente.
O importante é cuidar da vida,
que é boa, bela, rica,
preciosa e inesperada,
mas muito frágil.
Ela, sim, pode ser roubada.” (Ricardo Azevedo)

Leitura recomendada a partir de 10 ou 11 anos e leitura compartilhada a partir dos 5 anos.

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Bruna Bengozi

Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

3 Comentários
  1. Bom dia! Gostei muito da resenha do livro, vocês tem alguma dica de como fazer uma resenha boa? Obrigada!
    P.s. adoro essa revista!!

    1. Olá, Yasmin, tudo bem? Muito obrigada pelo comentário e por ter gostado da resenha. Além do post com as dicas que a Fran indicou, acredito que uma boa sugestão para fazer resenha é sempre pensar em quem vai ler o seu textos, quais elementos da obra resenhada essa pessoa gostaria que você indicasse etc.

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