A redoma de vidro (Sylvia Plath): o horror silencioso do cotidiano

A obra de Sylvia Plath chega aos leitores da mesma forma que é possível imaginá-la entrando em um espaço comum; de uma cidade comum; em dias comuns. No entanto, a presença de Plath nos puxa como a correnteza de uma mar aparentemente calmo. No livro “A redoma de vidro” (lançado em 1963), viveremos a experiência do mergulho completo: autor, personagem, vida, alento e depressão.

Narrado em 1ª pessoa, A redoma de vidro é sobre uma garota universitária e sua vida em Nova York. A princípio, tirando toda a carga dramática presente, pode-se pensar que é um romance fútil, sobre a vida glamourosa de uma mulher bonita, privilegiada e que possuiu uma certa autocrítica perante sua realidade:

“Vejam só do que esse país é capaz, elas diriam. Uma garota vive em uma cidade no meio do nada por dezenove anos, tão pobre que mal pode comprar uma revista, e então recebe uma bolsa para a universidade e ganha um prêmio aqui e outro ali e acaba em Nova York, conduzindo a cidade como se fosse seu próprio carro. (…) eu não estava conduzindo nada, nem a mim mesma.” (p. 8)

Entretanto, Sylvia Plath tece uma narrativa tão rica em percepções, que a vida social da personagem Esther Greenwood conduz a uma interpretação crescente, por parte do leitor, sobre a silenciosa depressão. Entre festas, belas roupas, maquiagens e conversas, o declínio da personagem-narradora é evidente, solitário e angustiante.

A redoma de vidro
Publicado originalmente em 1963, esta edição, com tradução de Chico Mattoso, traz nova capa e desenhos da autora. Lançado semanas antes da morte de Sylvia, o livro é repleto de referências autobiográficas. Compre na Amazon

O horror silencioso do cotidiano

O ato de encarar a vida não é o suficiente para vencê-la. Junto a essa ação, é necessário compreender a artilharia social que é jogada contra aqueles que decidem viver.

A decisão pela vida já possui em si uma força. No entanto, se aprende a viver vivendo – e perdendo muitas vezes. E, neste sentido, quando a personagem Esther Greenwood vai para Nova York porque ganhou um prêmio por ter se destacado na escrita de ensaios, contos e poemas, o que era para ser positivo, torna-se um fardo difícil para carregar.

O que Esther ganhou, de fato, quando chegou em Nova York? Roupas, maquiagens, festas, muito luxo e drinks. Entretanto, do que Esther precisava?

A futilidade não é apenas no âmbito da vida particular de Esther, mas também no que “a sociedade” lhe devolveu quando ela se destacou. Se você ganhou um prêmio por escrever, é claro que você quer roupas, maquiagens, luxo e drinks… Mas Esther não estava preparada para isso. E, no fundo, quem está?

O romance “A redoma de vidro” é um grito de socorro de uma mulher em depressão. Um exemplo de como a vida cotidiana mata todos os dias um pouquinho quem está sozinha, quando o horror do cotidiano bate à porta mas ninguém vê.

Depressão: a redoma de vidro

Já é muito difícil e imensurável ter depressão hoje em dia. E no século passado a situação era mais complexa ainda, uma vez que pouco se sabia sobre essa doença tão grave e tão negligenciada por todos. Internações e tratamentos de choques eram bastante comuns, bem como a falta de empatia de familiares e amigos próximos.

Abrindo a Redoma de Vidro, de Sylvia Plath: trechos da obra

Assim como Esther, a própria Sylvia Plath teve depressão e procurou ajuda sem obter êxito. A autora, em 11 de fevereiro de 1963, cometeu suicídio e os motivos que a levaram a tal ação fazem parte do que a personagem Esther narra no livro, que foi lançado no mesmo ano, após a morte trágica da autora.

A redoma de vidro é a própria depressão que sufoca o pedido de ajuda e a ação de quem precisa conviver com uma doença tão séria e invisível. É estar presa na redoma de vidro, ver o mundo além dela, mas não conseguir quebrá-la, não conseguir ser ouvida.

Sylvia Plath
Sylvia Plath e os filhos Frieda e Nicholas. Reprodução.

“A redoma de vidro”é um livro que mostrará ao leitor o quanto não basta. Ser dona de si, ter autoconhecimento, ter uma profissão, uma vida social, um colo para quem recorrer, sentir o coração bater e ter esperança não bastam quando a redoma de vidro está trancada.

“Para uma pessoa dentro da redoma de vidro, vazia e imóvel como um bebê morto, o mundo inteiro é um sonho ruim (….). Talvez o esquecimento, como uma nevasca suave, pudesse entorpecer e esconder aquilo tudo. (…) Mas aquilo tudo era parte de mim. Era a minha paisagem.” (p. 232)


Se você tem depressão, procure ajuda.

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Francine Ramos

Faz da Livro&Café parte essencial de sua vida desde 2011. É professora de Língua Portuguesa, adora ler, escrever (um dia vai publicar um livro) e trabalhar com mediação de leitura. Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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