Encontro de marés (Manuela Marques Tchoe): o Brasil que grita tem voz de mulher

O livro “Encontro de Marés”, escrito pela baiana Manuela Marques Tchoe, retrata a cultura do país ao lado de temas como a pobreza e a exploração sexual

Manuela Marques Tchoe
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Quem consegue definir o Brasil? Em Encontro de Marés, escrito pela baiana radicada na Alemanha Manuela Marques Tchoe e publicado pela Editora Pendragon, o leitor irá se emocionar com a história de mulheres brasileiras negras e fortes cujas vidas foram impactadas pelos horrores, as belezas e a magia que só esse país sabe conciliar.

Encontro de Marés é um romance que conta a história de mãe e filha separadas por circunstâncias cruéis da vida. A obra é ambientada em cenários nacionais, como Salvador (BA), Rio de Janeiro (RJ), Ouro Preto (MG), Chapada Diamantina (BA) e Blumenau (SC), e se passa ao longo de quase três décadas.

A pobreza, a violência e a prostituição infantil – tema controverso muitas vezes omitido quando se retrata o país – estão presentes no livro ao lado da música, da gastronomia e do misticismo próprios do Brasil. 

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A trama

Na trama, Rosa é uma criança inocente que vive com sua carinhosa avó Dalva na Salvador dos anos de 1980. Aos 12 anos, ela tem a infância interrompida quando seu pai, Benedito, a sequestra e a obriga a se prostituir.

“Depois daquela noite maldita vieram tantos que eu perdi a conta. A dor do corpo foi embora, meus movimentos se tornaram automáticos. A tortura que eu sentia era na alma… era como se um maremoto passasse por cima dela, as ondas gigantes deixando minha pobre alma num coma profundo. Mesmo com meu espírito em petição de miséria, eu tentava agradar os clientes. Tinha medo, simples assim. E se alguém reclamasse da minha falta de putice?” (Encontro de Marés, pág. 52)

Anos mais tarde, Mariana chega ao Rio de Janeiro a contragosto, obrigada a trabalhar em um projeto na favela da Rocinha – e encarar o passado de uma vez por todas. Quando criança, fora deixada em um orfanato e adotada por um casal de alemães. Para tentar esquecer traumas, ela nega suas origens.

Aos poucos, Mariana reconecta-se com o Brasil, decide buscar respostas sobre o passado e descobre que sua vida está entrelaçada à de Rosa. Nessa trajetória, ela terá a companhia de Eduardo, com quem trabalha na filial de uma ONG alemã na favela da Rocinha e por quem se apaixona.


“Confusa com todos falando sem interrupção, Mariana mal disfarçava seu desespero, indecisa. Na Alemanha provavelmente ninguém daria bola às suas origens estrangeiras, porém aqui era a atriz principal dessa novela de quinta categoria, objeto de fascinação justamente no palco de momentos negros que agora precisavam ser ignorados, postos de lado. Tudo em prol de convencer seus supervisores de que (…) poderia se reconciliar com a nação que há tanto tempo lhe havia dado as costas.” (Encontro de Marés, pág. 26)

Uma rica experiência de vida

Manuela Marques Tchoe colocou nessa obra uma rica experiência de vida. Nascida em Salvador, ela mora em Munique, na Alemanha, desde 2005 e trabalha como executiva de marketing. Ao escrever esse que é seu segundo livro, a autora também reviveu suas origens, transformando o Brasil quase em um personagem em si.

Por fim, Encontro de Marés é uma obra linda como as culturas que expressa, tem a força das mulheres que retrata e grita como as meninas sexualmente exploradas deveriam poder gritar. 

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Francine Ramos

Editora da Livro&Café desde 2011. É professora de Língua Portuguesa e tenta ser escritora (um conto seu foi publicado na coletânea Leia Mulheres, em 2019). Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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