HIV/AIDS e a literatura: 10 livros para combater a ignorância

Ontem (05/02), o presidente Jair Bolsonaro declarou que uma pessoa com HIV é “despesa para todos no país”.

Em primeiro lugar, não custa repetir que as verbas para saúde, educação e outras áreas não são “despesas”, mas investimentos em políticas públicas essenciais pagos com as contribuições de todos, inclusive daqueles que fazem uso dos serviços públicos. Não é nada “de graça”. Em segundo, a afirmação do presidente escancara o preconceito com as pessoas portadoras do vírus HIV e associa a transmissão à promiscuidade (e esta aos homossexuais, vítimas de outros comentários preconceituosos de Bolsonaro). Digo isso pois a declaração foi dada em meio às discussões sobre o plano de abstinência apresentado pela ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, um projeto por si só extremamente problemático e moralista.

O presidente, ministra e eleitorado parecem ignorar os estudos que mostram que, além do crescimento de novos casos entre jovens, os heterossexuais adultos são maioria nas novas notificações de infecção pelo vírus HIV, e que a maior incidência de contaminação está na faixa de 30 a 49 anos, incluindo héteros e homossexuais. Eles também parecem ignorar que são os fortes investimentos em educação, saúde e demais políticas públicas que justamente têm impacto na conscientização e prevenção contra o HIV/Aids e DSTs, assim como no auxílio e qualidade de vida dos pacientes.

Não é só a doença que mata; a ignorância também. Uma declaração como essa, proferida por um chefe de Estado, presta um desserviço a milhares de pessoas que já enfrentam no dia a dia o medo, o preconceito e o descaso do governo e da sociedade.

E a literatura, como tantas outras formas artísticas, é uma arma contra a desinformação e o obscurantismo. Então, gostaria de deixar aqui 10 livros que trazem em suas páginas histórias de pessoas soropositivas e/ou reflexões sobre a doença.

Que possamos espalhar conhecimento contra a ignorância, este mal que também alimenta a necropolítica.*

 

Doença como metáfora. Aids e suas metáforas, de Susan Sontag

HIV

Diagnosticada nos anos 70 como portadora de câncer, Susan Sontag, uma das intelectuais mais influentes e polêmicas de nossa época, mergulhou no estudo da doença para compreender suas metáforas em nossa cultura. O resultado dessa reflexão é o célebre ensaio Doença como metáfora, de 1978. Uma década depois, quando o mundo assistia perplexo e desorientado ao crescimento de uma doença fatal ainda pouco compreendida – a AIDS -, as metáforas associadas à síndrome levaram Sontag a atualizar e aprofundar sua reflexão sobre o imaginário em torno das doenças. Assim nasceu, em 1988, o igualmente clássico ensaio Aids e suas metáforas. Nos dois textos, que podem ser vistos como um único estudo dividido em duas partes, o objetivo é dissipar a névoa de irracionalismo pré-científico que cerca a compreensão dessas doenças e libertar suas vítimas do peso de uma injustificável culpa. + Compre na Amazon

 

A cidade solitária, de Olivia Laing

Quando se mudou para Nova York, aos trinta e tantos anos, Olivia Laing se tornou uma habitante da solidão. Cada vez mais fascinada com essa experiência das mais vergonhosas, ela começou a explorar a cidade solitária por meio da arte. Movendo-se com fluidez entre obras e vidas – de Nightwalks de Edward Hopper às Time Capsules de Andy Warhol, da acumulação de Henry Darger ao ativismo de Aids de David Wojnarowicz –, Laing conduz uma investigação admirável, deslumbrante, sobre o que significa estar sozinho, iluminando não apenas as causas da solidão, mas também como se pode resistir a ela ou se reconciliar com ela. Humano, provocativo e profundamente comovente, A cidade solitária, uma inteligente mistura entre pesquisa bem fundamentada e depoimento pessoal da autora, reflete sobre os espaços entre pessoas e coisas que as unem, sobre sexualidade, mortalidade e as possibilidades mágicas da arte. É uma celebração a um estado estranho e encantador, isolado do continente maior da experiência humana, mas intrínseco ao próprio ato de estar vivo. + Compre na Amazon


 

Cartas, de Caio Fernando Abreu

Este volume de correspondências do escritor gaúcho, que era portador do vírus HIV, é composto por cartas enviadas por Caio a Maria Adelaide Amaral, Hilda Hilst, Flora Süssekind, Cida Moreira, Gilberto Gawronski, Jacqueline Cantore, João Silvério Trevisan, Mario Prata, entre outros. Por iniciativa de Heloisa Buarque de Hollanda, a presente edição das cartas de Caio foi publicada em homenagem aos vinte anos de sua morte, ocorrida em 1996, e foi atualizada e enriquecida pelo acréscimo de cartas e cartões que traçam sua vida profissional e suas inquietações pessoais. Com prefácio e organização de Italo Moriconi, a edição saiu exclusivamente em e-book. + Compre na Amazon

Leia mais: Dragões, um romance-móbile

 

Antes que anoiteça, de Reinaldo Arenas

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7 de dezembro de 1990. O escritor cubano Reinaldo Arenas suicida-se em Nova York e deixa este impressionante relato autobiográfico que havia concluído poucos dias antes de morrer. Portador do vírus HIV, Arenas reunia três condições essenciais para se tornar uma vítima do regime de Fidel Castro: era escritor, homossexual e dissidente. O testemunho do autor é violento, mas, ao mesmo tempo, de extrema sensibilidade. Esta obra foi adaptada para o cinema por Julian Schnabel, com Javier Bardem no papel do protagonista. O ator espanhol foi indicado ao Oscar de 2001 pela atuação. + Compre na Amazon

 

HIV/AIDS – Confissões de um soropositivo, de Léo Cezimbra

HIV

Um dia, Léo recebeu o resultado de um exame de sangue que mudou toda a sua vida. Medo, angústia, sofrimento e superação. Todas as confissões de um soropositivo estão presentes neste e-book. + Compre na Amazon

 

Depois daquela viagem, de Valéria Polizzi

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A adolescente Valéria narra como contraiu o vírus HIV durante uma relação sem preservativo com o namorado e conta como convive com a doença. Uma leitura indispensável para a educação do adolescente. + Compre na Amazon

 

Tente entender o que tento dizer: Poesia + hiv/aids, organizado por Ramon Nunes Mello

Uma coletânea de poemas em torno do tema HIV/Aids não deixa de ser uma radiografia da trajetória do vírus e suas repercussões no corpo, na sociedade e na própria poesia, desde os anos 1980, momento que marcou a explosão da epidemia, até as experiências da chamada era pós-coquetel. Os noventa e sete poetas reunidos nessa edição – organizada por Ramon Nunes Mello, com título emprestado de uma crônica de Caio Fernando Abreu – rompem o silêncio a que essas siglas ficaram confinadas pelo estigma, pelo medo e pelo preconceito, criando um novo imaginário e provocando novas expressões e reflexões sobre o vírus e a linguagem. + Compre na Amazon

 

As horas, de Michael Cunningham

As horas , prêmio Pulitzer de literatura de 1999, pode ser definido como a saga da consciência de três mulheres – uma real, duas fictícias – em busca de algum tipo de inserção no mundo “normal”, tendo como pano de fundo constante a presença palpável e inquietante da loucura e da morte. Virginia Woolf, num dia normal e suburbano de 1923, esforça-se por manter sob controle os sintomas da loucura e para redigir Mrs. Dalloway, romance que mantém com As horas uma habilidosa simbiose. Laura busca, em vão, ajustar-se ao seu triplo papel de mãe, esposa e dona de casa, confeccionando, ao lado do filho Ritchie, de três anos, um bolo de aniversário para o marido Dan. Acontece que tudo o que Laura mais deseja na vida é solidão e a companhia de Virginia Woolf, sob a forma de seu romance Mrs. Dalloway , que ela lê apaixonadamente. Clarissa, cinqüentona e ex-hippie ainda atraente, bem casada com uma produtora de tevê, compra flores e organiza uma festa em homenagem a Richard, amigo gay e aidético terminal que acaba de ganhar um prêmio literário.O cruzamento surpreendente dessas três histórias, urdido com a mão imaginativa e experiente de Michael Cunningham, vai mergulhar o leitor numa das experiências mais comoventes da literatura contemporânea.

 

O tribunal da quinta-feira, de Michel Laub

Um publicitário faz confissões por e-mail ao melhor amigo. Os textos falam de sexo e amor, casamento e traição, usando termos e piadas ofensivas que contam a história de uma longa crise pessoal. Quando a ex-mulher do protagonista faz cópias das mensagens e as distribui, tem início o escândalo que é o centro deste romance explosivo.
O fio condutor da história, que une o destino dos personagens diante de um tribunal inusitado, são os reflexos tardios e ainda hoje incômodos da epidemia da Aids, e o que está em jogo são os limites do que entendemos por tolerância — mas para chegarmos a eles é preciso ir além do que seria uma literatura “correta” ao tratar de homofobia, assédio, violência, empatia, liberdade e solidariedade. + Compre na Amazon

 

Augusto & Lea: um caso de (des)amor em tempos modernos

Fato: uma doença fatal (no caso, Aids) detectada em uma família bem-sucedida da elite paulista. Consequências: quebra de uma aparente harmonia familiar e revelações sobre segredos guardados por tantos anos. Forma: depoimento das oito vozes envolvidas na tragédia. O resultado é um livro fascinante e envolvente, fruto de uma história real com sabor de romance. O autor do feito é o historiador José Carlos Sebe B. Meihy, consultor de roteiros de televisão e um dos maiores especialistas em História Oral do país. Respeitado por suas pesquisas rigorosas e dono de uma escrita deliciosa, já teve alguns de seus textos usados como apoio para telenovelas. Augusto e Lea: um caso de (des)amor em tempos modernos certamente pode render uma. Das boas. Leia a nossa resenha sobre o livro aqui. + Compre na Amazon

 


* Necropolítica é um conceito desenvolvido pelo filósofo negro, historiador, teórico político e professor universitário camaronense Achille Mbembe que, em 2003, escreveu um ensaio questionando os limites da soberania quando o Estado escolhe quem deve viver e quem deve morrer. O ensaio virou livro e chegou ao Brasil em 2018, publicado pela editora N-1. Para Mbembe, quando se nega a humanidade do outro qualquer violência torna-se possível, de agressões até morte. Fonte: Ponte.

 


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Bruna Bengozi

Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

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