Água viva (Clarice Lispector): a orgíaca beleza confusa

Clarice Lispector foi uma das maiores beneficiadas com o surgimento das redes sociais. Suas frases passaram a adornar postagens dos mais variados tipos. Não importa muito a foto postada. Poder ser uma paisagem, uma selfie, um churrasco de amigos ou mesmo uma bunda de biquini. Uma frase de Clarice logo abaixo da imagem já muda o status da postagem, de banal para intelectual.

Água Viva Clarice Lispector
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Água viva (Clarice Lispector) publicado em 1973, é perfeito para quem gosta de “claricear” suas postagens. O livro fornece um arsenal imenso de boas frases que podem facilmente passar das páginas para a tela. Exemplos?

  • O instante é semente viva.
  • Gosto de intensidades.
  • Eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca.
  • Ocorreu-me de repente que não é preciso ter ordem para viver. Não há padrão a seguir e nem há o próprio padrão: nasço.
  • Os bichos me fantasticam.
  • Não humanizo bicho porque é ofensa – há de respeitar-lhe a natureza-,  eu é que me animalizo.
  • Nada existe de mais difícil do que entregar-se ao instante.
  • Dor é vida exacerbada.
  • A coragem de viver: deixo oculto o que precisa ser oculto e precisa irradiar-se em segredo.
  • A loucura é vizinha da mais cruel sensatez.
  • Sou um objeto urgente.

Paro, pois a lista é longa. Quase que a cada página é possível colher frases desse tipo, muita sugestivas para a reflexão. Mas o que é esse Água Viva, afinal?

Água viva, uma carta.

Água Viva não é bem um romance. Não há enredo, não há nenhuma história. O que lemos é uma carta escrita por uma mulher, uma pintora. O destinatário da carta parece ser um antigo amor dessa mulher. Digo parece pois, antes de tudo, a carta tem por destinatário a própria narradora. É a ela que tudo se refere. O que lemos é esse mergulho nela mesma.

O fato de o texto ser uma carta escrita por uma pintora permite algo muito caro a narradora: uma enorme liberdade.

Por ser carta, o texto não tem qualquer outra obrigação que não a de captar tudo o que a narradora quiser, da forma que quiser. Não há preocupações com enredo, personagens, estrutura. Há só o fluxo dos pensamentos e sensações sendo registrados da maneira mais imediata possível.

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Por ser uma carta escrita por uma pintora, também não há qualquer preocupação com um uso habitual das palavras. Uma pintora, desacostumada a manejá-las, não se impõe hábitos e restrições textuais.  As palavras parecem ser escritas na medida em que surgem, sem que sejam filtradas pela exigência de sentido ou inteligibilidade.

A liberdade transgressora de Clarice Lispector

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Dessa enorme liberdade que a narradora conferiu a si mesma, o que surgiu foi, nas suas próprias palavras, uma “orgíaca beleza confusa”. Da liberdade, pois, criou-se a confusão, que é vizinha da incomunicabilidade. Mas esta não surge apenas por conta da confusão, ou porque não há o que ser comunicado, nem tampouco porque há tal hermetismo impossível de ser penetrado. Surge, sim, porque aquilo que a narradora busca apreender é ainda vago. Ou até indefinível. Ou até indizível.


Ela busca descobrir em si o que ainda não sabe. Quer achar um jeito de captar o que ela é, em sua dimensão mais essencial. Quer buscar o que está atrás do pensamento, ou ainda, atrás do atrás do pensamento. Seu alvo, se há um, parece ser esse espaço entre a animalidade pura, o instintivo que há em todos nós (que por vezes é chamado de it no texto, um estado impessoal) e a consciência de si, o momento em que enfim nos determinamos como um ser, sendo aqui e agora.

O livro nos põe no meio dessa busca. E a maneira com que ela se realiza é a mais ametódica possível. Se há algum método é o do instante. Agarrar-se a ele ao máximo e registrá-lo o mais rapidamente possível. Isso, é claro, é o desejo expresso pela narradora, mas não podemos confundi-lo com o processo de escrita do próprio livro. Não podemos imaginar que um texto dessa densidade não tenha passado por muitos crivos e lapidações.

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O incomunicável e a questão do existir

É nesse ambicionado processo de reter o instante que forja-se por vezes o incomunicável. Mas também é por ele que se abre as brechas poéticas para a realidade de si e do mundo.

Suas várias tentativas de definir-se indicam esse processo, de querer penetrar em si mesma a cada momento. Quer agarrar-se, mas o si-mesmo sempre escapa. “Eu sou um objeto urgente”, “sou o próprio nome”, “eu sou puro it”, “eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca”, etc. Ela é tudo isso, mas não se encerra em nenhuma dessas definições. Há sempre uma nova definição de si para arriscar.

Em última análise, o que o livro aborda é a velha questão do existir. Existimos, somos, e estamos condenados à morte. Que fazer? Tentar não morrer, como a narradora sugere? “Aliás não quero morrer. Recuso-me contra Deus. Vamos não morrer como desafio?”. Desafio perdido de saída. Morreremos.

Como dito acima, o texto, supostamente uma carta, tem por destinatário muito mais a narradora do que qualquer amor antigo, ou mesmo o leitor. Pois tudo no texto se volta para ela. Poderíamos dizer que é um processo de autoconhecimento, mas é também uma espécie de ensimesmamento. Como uma cobra que vai enrolando-se ao redor de si mesma, a narradora cria as condições ideais para voltar cada vez mais fundamente a si própria.

Uma investigação alucinante

Deu-se todas as liberdades para escrever seu texto, mas pondera essa mesma liberdade:

“Vou te fazer uma confissão: estou um pouco assustada. É que não sei aonde me levará esta minha liberdade. Não é arbitrária nem libertina. Mas estou solta”. Ou, noutro trecho: “E quando nasço, fico livre. Esta é a base de minha tragédia”.

Permitiu-se a linguagem mais livre, os pensamentos mais obscuros e insondáveis, mas também os coloca em xeque: “Não sei sobre o que estou escrevendo: sou obscura para mim mesma”.

Como resultado dessa investigação alucinante, que avança e recua, que afirma e nega, que afunda e emerge, surge a incomunicabilidade, já citada. E que, como tinha mesmo de ser, aponta para um único alvo: a própria narradora.

Estou falando é que o pensamento do homem e o modo como esse pensar-sentir pode chegar a um grau extremo de incomunicabilidade – que, sem sofisma ou paradoxo, é ao mesmo tempo, para esse homem, o ponto de comunicabilidade maior. Ele se comunica com ele mesmo.

Uma jornada pessoal

É isso esse livro, que não é um livro porque não é assim que se escreve, como diz a narradora logo no início. Água Viva é o registro de uma jornada, muito pessoal, nos instantes e nos cantos mais recônditos da mente dessa narradora. Seu esforço é o de chegar a alguma compreensão mais profunda de si e de sua existência. Mas essa compreensão escapa às palavras. Ou, melhor dizendo, as palavras não conseguem comunicar exatamente o que é isso que se quer compreender. O que resta à narradora, então, não é compreender ou comunicar: é jorrar. Talvez o que fique depois desse jorro seja aquilo que se quer descobrir.

Água Viva pode fascinar uns e aborrecer outros. Pouco importa. Mas se não podemos aceitar o desafio de não morrer, podemos aceitar o desafio que Água Viva nos propõe: o de mergulhar numa linguagem particularíssima e sair de lá sem nos afogar.

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Cahoni Chufalo
Cahoni Chufalo, formado em Letras, com pós-graduação em crítica e curadoria de arte. Fez a curadoria das exposições Memória Imprensa, em Ouro Preto e Figuras Recorrentes, em Novo Hamburgo. Mantêm o blog fiaposblog.wordpress.com

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