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Vox (Christina Dalcher): e se já perdemos as palavras?

No Leia Mulheres Sorocaba, começamos 2020 com duas obras consideradas distópicas: Os testamentos, de Margaret Atwood, continuação de O conto da aia; e Vox, livro de estreia de Christina Dalcher. Dadas as devidas diferenças entre as histórias, chegamos à conclusão de que já não se tratam de distopias, mas da triste e presente realidade.

Publicado em 2018 pela editora Arqueiro, com tradução de Alves Calado, a premissa de Vox é a seguinte: num futuro próximo, os Estados Unidos são comandados por fundamentalistas religiosos – uma clara alusão a Donald Trump e cia. O governo logo decreta a perda de direitos fundamentais das mulheres, que são proibidas de trabalhar, estudar, ir e vir livremente, e de falar – são permitidas apenas 100 palavras por dia. Todas, inclusive as meninas, usam uma pulseira que contabiliza as palavras e, após atingir o limite, começam a receber choques cada vez mais fortes conforme continuarem falando. Algumas nem sequer tem essa cota. Tudo isso sob os aplausos e silêncio dos homens. Aqui, vale menção à clássica frase de Simone de Beauvoir:

“Basta uma crise política, econômica e religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados.”

A narradora da história é Jean McClellan, doutora em neurolinguística, esposa e mãe de quatro filhos. Jean está em estado de negação por ser privada do seu trabalho, dos seus estudos, da sua capacidade de se expressar e, principalmente, por ver sua filha caçula, Sonia, usando a pulseira. Como especialista no campo da linguagem, ela sabe que aquele instrumento de tortura tem sérios impactos no desenvolvimento da pequena criança.

A reviravolta acontece quando é anunciado que o irmão do presidente sofreu uma lesão cerebral, no giro temporal superior, área de Wernicke, relacionada ao conhecimento, interpretação e associação de informações, mais especificamente à compreensão da linguagem escrita e falada. Por conta de suas pesquisas, Jean é convocada a ajudar na reabilitação do paciente e vê uma chance de usar seu conhecimento como moeda de troca na luta contra o regime. Além de sua trajetória pessoal e profissional, também sabemos por ela como o governo se organizou, como a sociedade reagiu e, principalmente, como uma democracia se transformou em ditadura.

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A formação de Christina Dalcher em Linguística Teórica a ajudou a construir sua personagem, Dra. Jean McClellan. Foto: Michael Zargarinejad.

Vozes que não foram ouvidas

O que chama a atenção em Vox é que a implantação da ditadura teocrática não se deu da noite para o dia. Essas mudanças politicas e sociais ficam evidentes por meio das falas da personagem Jackie, amiga de Jean da época da faculdade. Uma é o contraponto da outra: Jackie era a “revolucionária”, que estava sempre envolvida nas passeatas, apontando para o avanço dos fundamentalistas e da perda de representatividade feminina no governo; já Jean, no alto de seus privilégios, passava os dias voltada aos estudos do curso, sem maiores preocupações políticas – até votar parecia desnecessário, achando que tudo era um exagero por parte de Jackie.

Ao longo do livro, por meio de reflexões sobre o passado e o presente, vemos uma Jean profundamente arrependida por ter não ouvido a amiga. E, ao ler Vox, tal arrependimento também se apossou de mim: afinal, quantas vezes, durante a graduação e a pós, eu – sentada sobre os meus privilégios – não achei que os e as estudantes estavam exagerando em suas pautas, atrapalhando os sagrados estudos acadêmicos? E o que dizer do cenário atual, quando ainda permanecemos anestesiados, reclamando no Facebook sobre como caímos neste abismo e o que faremos?

“Estou falando sério. – Jackie apontou uma unha roxa para mim. – Espere só. Daqui a alguns anos vai ser um mundo diferente se a gente não fizer alguma coisa. Expansão do Cinturão da Bíblia, uma representação de bosta no Congresso e um bando de garotinhos famintos por poder que estão cansados de ouvir dizer que precisam ser mais sensíveis. – Então ela deu um riso maligno que sacudiu todo o seu corpo. – E não pense que serão todos homens. As Recatadas do Lar vão estar do lado deles.” (p. 25)

Sentiram o impacto? Alguma semelhança com a realidade de nosso país, governado pela extrema-direita? Será que vamos ignorar a voz de Jackie também?

Outro personagem digno de nota é Steven, filho mais velho de Jean e Patrick. O garoto, até então um adolescente normal, comenta que começou a receber educação religiosa na escola. Tudo é muito discreto e inofensivo: uma disciplina que vai ajudar a entrar na faculdade, um livro que traz apenas alguns trechos baseados na Bíblia… Até que o jovem passa a acreditar cegamente nos fundamentos da religião e do governo dominantes. Quando os pais percebem, já é tarde demais. Nem preciso citar as coincidências com os tempos atuais. Mas falar sobre escola militar, ensino religioso, programas de abstinência sexual etc., é mimimi, coisa de comunista, feminazi.


“Steven não deixou para lá. Abriu o livro daquela maldita aula da turma avançada – Babaquices Religiosas 1, ou sei lá como chamavam – e começou a ler:

– ‘A mulher não deve ir às urnas, mas tem uma esfera própria, de incrível responsabilidade e importância. Ela é a guardiã do lar, nomeada por Deus… Ela deve ter total consciência de que sua posição de esposa e mãe, e de anjo do lar, é a tarefa mais santa, mais responsável e régia designada para os mortais; e descartar qualquer ambição de algo mais elevado, já que não existe nada tão elevado para os mortais.’ Esse texto é do reverendo John Milton Williams. Está vendo? Você é uma rainha.” (p. 56)

Você fala muito

De certa forma, Vox me apavorou no começo tanto pelas suas “coincidências” com o  presente, quanto pela possibilidade de ser privada da linguagem, algo mais latente no livro de Dalcher que na Gilead de Margaret Atwood. Mas, então, durante a conversa no encontro do Leia Mulheres, percebemos o quanto já somos silenciadas de muitas formas. Seja pela violência física, seja pela institucional, seja pelas “brincadeirinhas inofensivas” dentro de relacionamentos, do tipo “você fala demais”, “você é escandalosa, deveria ser mais discreta, falar mais baixo” e assim por diante. Aliás, Patrick deixa isso claro quando a pulseira de Jean é retirada e suas palavras saem como um tsunami: “Quer saber, amor? Acho que era melhor quando você não falava.” (p. 64)

Também foi impossível não pensar na Eliane Brum falando sobre as palavras que já não significam. Palavras perdendo – ou ganhando absurdamente – seu poder; palavras em crise; distorcidas. E sobre esse assunto, além do artigo de Brum, recomendo o livro A linguagem do Terceiro Reich, do filólogo Victor Klemperer, de quem compartilho uma importante reflexão:

“O nazismo se embrenhou na carne e no sangue das massas por meio de palavras, expressões ou frases, impostas pela repetição, milhares de vezes, e aceitas mecanicamente. […] Palavras podem ser como minúsculas doses de arsênico: são engolidas de maneira despercebida e aparentam ser inofensivas; passado um tempo, o efeito do veneno se faz notar.”

Se de um lado, temos palavras envenenadas, que alimentam fake news, medos e ódios, vivenciamos, de outro, a era do “alerta de textão”. Falar e escrever demais já não é tão legal, é enjoativo, inadequado para as redes sociais. Coloque seu pensamento em 280 caracteres; de repente, chegar às cem palavras por dia já não parece tão absurdo, não é mesmo?

Vox: um O conto da aia palatável?

Não considero Vox um novo O conto da aia, como muitos tentaram vendê-lo na época do lançamento, apesar de ficar claro que Dalcher presta uma homenagem à obra de Atwood e traz elementos que lembram o enredo do livro de 1985. Afinal, estamos falando de sociedades democráticas que se transformaram em fundamentalistas cristãs, nas quais as mulheres são as principais vítimas.

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Capa do livro publicado pela editora Arqueiro. Foto: Francine Ramos.

Além disso, Vox tem alguns problemas narrativos, como a conclusão apressada e arcos de personagens mal definidos, fazendo com que qualquer comparação com O conto da aia seja injusta. Por outro lado, Dalcher apresenta um texto mais “palatável”, especialmente para quem nunca leu uma distopia. A leitura é dinâmica e se desenrola em um thriller que é difícil de largar. Além disso, ao incluir um romance bem meloso entre Jean e Lorenzo, seu colega de laboratório/amante/salvador italiano, assim como ao dar destaque à participação masculina no movimento de resistência, a escritora alcança públicos que provavelmente não teriam Vox como uma primeira escolha de leitura. Como brincamos no encontro, ele pode ser uma porta de entrada para drogas mais pesadas (no caso, os clássicos de Atwood, Octavia E. Butler e tantas outras obras distópicas).

Logo, Vox é um livro que precisa ser lido por todo mundo. Distopia de um futuro presente, seu enredo reforça o poder da linguagem e nos lembra que talvez já estejamos usando pulseiras que limitam nossas palavras e ações justamente por não ouvirmos quem ainda faz uso de suas vozes. Que o despertar de Jean nos tire deste anestesiamento.

Sobre a autora

Christina Dalcher é linguista e professora universitária com doutorado pela Universidade de Georgetown. Seus contos figuraram em mais de 100 publicações ao redor do mundo. Ganhadora de diversos prêmios, foi finalista do Bath Flash Award e indicada ao Pushcart Prize. Ela vive em Norfolk, Virgínia, com o marido.

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Leia mais:

O que é distopia?

O Conto da Aia (Margaret Atwood): necessário, porém, angustiante

Os Testamentos (Margaret Atwood): a resistência é individual, coletiva e por meio das palavras 

O anjo do lar: de Virginia Woolf a Madonna


Foto: Francine Ramos


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Bruna Bengozi
Bruna é mestra em História pela USP e graduanda em Letras pela Univesp. Redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome da impostora".

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