As funções da literatura: para que e por quê?

A literatura isso e a literatura aquilo. Falamos de literatura muito mais do que imaginamos, porém, esquecemos de olhar para essa arte com todas as possibilidades ali desempenhadas. Assim, conhecer as funções da literatura, não pelos nomes técnicos, mas pelos diversos sentidos que ela desempenha na vida do leitor e na sociedade, é essencial.

No prefácio do livro “Por que estudar literatura?“, Vicent Jouve esclarece que:

“A arte […] ainda existe para a maioria dos indivíduos e, sobretudo, para uma série de instituições (ensino, imprensa, mídia) que pesam fortemente sobre nossa existência cotidiana. Assim, talvez, não seja inútil se interrogar sobre uma “realidade’ que, mesmo mal definida, “informa” – através de uma série de engrenagens – o mundo em que vivemos e nossa existência no interior deste mundo.”

Portanto, a seguir, há algumas funções da literatura escrita e reescrita por grandes teóricos. Elas não limitam a literatura, mas colaboram de forma intensa para a formação do leitor consciente, crítico e autocrítico.

A função catártica

O livro, como objeto em si, é algo histórico e potente. É ele que sempre causou medo nos detentores do poder, pois, dentro do livro há uma força que escapa, como já disse Emile Zola.

Há uma força que escapa, porque a literatura possui uma função catártica. Ou seja: leva o leitor a um campo de emoções muito particular e único. A catarse, como definiu Aristóteles no livro “Poética”, purifica e liberta.

A função estética

A estética literária é um espaço amplo e de constante transformação, uma vez que a estética é um produto de cada tempo, mas que pode ser visto de uma forma mais prática.

O que é estético relaciona-se com o que é belo. E a beleza é algo que pode partir de um julgamento pessoal. Quando dizemos que uma obra possui qualidade estética, estamos nesse amplo caminho da beleza. Por que é belo? Quem vê beleza ali? Quem não vê? É algo tão complexo porque, o julgamento pessoal esbarra em concepções objetivas e subjetivas. Eu considero belo uma obra literária que me provoque a catarse. Mas outra pessoa, pode considerar uma obra que cumpre a função estética porque ela segue uma padrão de rimas, por exemplo. “O que define a relação estética, portanto, não é a natureza do objeto apreendido, mas o tipo de olhar que se lança sobre ele.” Vincent Jouve


Portanto, quando um leitor sabe da questão estética e sua relação com a literatura, é interessante que ela parta de algum princípio mais lógico, para não julgar livros pela capa, por exemplo. Ou deixar de ler algum livro porque este não pertence ao grupo estético no qual está acostumado.

A função cognitiva

A função cognitiva também pode cair na subjetividade e pairar na dificuldade de definição. No entanto, conhecer o significado da palavra, já ajuda muito nos primeiros passos da formação de um leitor mais consciente:

“Cognitivo é uma expressão que está relacionada com o processo de aquisição de conhecimento (cognição). A cognição envolve fatores diversos como o pensamento, a linguagem, a percepção, a memória, o raciocínio etc., que fazem parte do desenvolvimento intelectual.” Fonte: significados.com.br

Assim, caíamos mais uma vez na função catártica e estética, uma vez que essas também colaboram para o processo cognitivo. E o mais bonito: quanto mais acessamos a arte, no caso aqui mais específico – os livros, colaboramos para o nosso próprio processo cognitivo. E este, à medida que o tempo passa, pode transformar nossas percepções catárticas e estéticas.

A função-político social

A literatura é a arte das palavras, da linguagem, da comunicação. Por meio delas, escritores criam narrativas e poesias sobre diversos mundos, pessoas, sentimentos, sensações… Esse mundos, muitas vezes de modo subjetivo, mas também ocorre no objetivo, são representações da vida e a sociedade. Das escolhas do escritor, suas habilidades cognitivas, estéticas, históricas etc etc etc…

Charge que andou circulando por aí na última eleição, como um recado para o discurso de ódio da política brasileira. (autor desconhecido)

Socialmente, um livro pode representar as alegrias, as dores, as lutas das pessoas. Essas pessoas, representam um grupo, uma cidade, um jeito e uma forma de viver. Então, é fácil relacionar tudo isso com a política, uma vez que é a partir dela e nela que se vive, mesmo aqueles que desconhecem e costumam dizer “não gosto de política.”

Há uma voz política em toda obra literária. Algumas de forma mais clara; outras que caem mais na percepção cognitiva, catártica e estética do leitor.

Obras literárias sobre as lutas de classe e sobre mundos distópicos estão aí aos montes. O conjunto representa uma sociedade que quer ter voz, por isso aplica-se à literatura a função político-social. A palavra, enquanto objeto de comunicação está lá nos livros, em toda a sua complexidade e possibilidade (para o terror dos políticos que odeiam as artes, os livros, os escritores e os professores).


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Francine Ramos

Editora da Livro&Café desde 2011. É professora de Língua Portuguesa e tenta ser escritora (um conto seu foi publicado na coletânea Leia Mulheres, em 2019). Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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