11 livros para ler durante a quarentena pelo Covid-19

Segundo as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e dos órgãos governamentais, um dos meios de desacelerar o avanço do Covid-19 (coronavírus) é adotar o distanciamento social. Sabemos que ficar em casa, fazendo home office ou aproveitando férias adiantadas, é um luxo, quando, na verdade, a quarentena deveria ser um direito a todos e todas. Muita gente ainda precisa se deslocar para seus trabalhos e manter sua rotina para garantir sua renda, mesmo com a pandemia. Enfim, sabemos que está tudo mundo preocupado com o Covid-19, mas o problema mesmo é esse sistema falido que coloca o mercado acima de vidas. Tema para refletir durante o isolamento.

Se você conseguirá ficar em casa pelos próximos dias, também aproveitar o momento para colocar as leituras em dia. Por isso, deixamos aqui onze dicas de livros que, de alguma forma, dialogam ou podem nos ajudar a atravessar este momento tenebroso por conta do Covid-19.

 

A peste

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A peste, de Albert Camus, virou um best-seller em meio à pandemia do Covid-19. Na obra, o Nobel de Literatura imagina uma epidemia na cidade argelina de Oran, no norte da África, sitiada para contenção de sua disseminação. A cidade, de 200 mil habitantes, é surpreendida pela misteriosa morte de milhares de ratos, que, desgovernados, morriam em locais que não frequentavam. Enquanto a população, apreensiva, especula sobre a doença dos roedores, se dá a sua manifestação entre humanos, que sofrem com febre seguida de morte em poucos dias. Narrado do ponto de vista de um médico envolvido nos esforços para conter a doença, o texto de Albert Camus ressalta a solidariedade, a solidão, a morte e outros temas fundamentais para a compreensão dos dilemas do homem moderno. + Compre na Amazon

Leia mais: 15 citações de Albert Camus

 

Estação 11

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Certa noite, o famoso ator Arthur Leander tem um ataque cardíaco no palco, durante a apresentação de Rei Lear. Jeevan Chaudhary, um paparazzo com treinamento em primeiros socorros, está na plateia e vai em seu auxílio. A atriz mirim Kirsten Raymonde observa horrorizada a tentativa de ressuscitação cardiopulmonar enquanto as cortinas se fecham, mas o ator já está morto. Nessa mesma noite, enquanto Jeevan volta para casa, uma terrível gripe começa a se espalhar. Os hospitais estão lotados, e pela janela do apartamento em que se refugiou com o irmão, Jeevan vê os carros bloquearem a estrada, tiros serem disparados e a vida se desintegrar.  Abarcando décadas, a narrativa vai e volta no tempo para descrever a vida antes e depois da pandemia. Impressionante, único e comovente, Estação Onze, de Emily St. John Mendel, reflete sobre arte, fama e efemeridade, e sobre como os relacionamentos nos ajudam a superar tudo, até mesmo o fim do mundo. + Compre na Amazon

 

A parábola do semeador

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Confesso que este é um dos livros que mais me perturba ultimamente e a disseminação do coronavírus não ajudou nem um pouco, rs. A incrível Octavia E. Butler conseguiu, em seu romance de 1995, prever muitas das ameaças e respostas governamentais e sociais dos nossos tempos e construir uma trilogia distópica de fôlego. Na obra, quando uma crise ambiental e econômica leva ao caos social, nem mesmo os bairros murados estão seguros (aprenda, Trump!). Em uma noite de fogo e morte, Lauren Olamina, a jovem filha de um pastor, perde tudo e se aventura por um Estados Unidos dominado pela violência e pelo terror. Mas o que começa como uma fuga pela sobrevivência acaba levando a algo muito maior: uma surpreendente visão do destino humano… e ao nascimento de uma nova fé. Um livro para ler e pensar sobre todos os medos e barreiras que construímos diante das adversidades. + Compre na Amazon

 

A cidade solitária: aventuras na arte de estar sozinho

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Este livro é uma importante reflexão sobre a solidão, que pode marcar a vida de muitas pessoas neste período de quarentena pelo Covid-19, especialmente nas grandes cidades. Na obra, Olivia parte de perguntas como “O que significa a solidão?”, “Como vivemos sem estar envolvidos intimamente com outro ser humano?”, “Como nos conectamos a outras pessoas?”, “A tecnologia nos aproxima ou nos aprisiona atrás de telas?”, para pensar sobre as suas vivências enquanto moradora solitária em Nova York. Por meio da arte e da pesquisa sobre diversos artistas, Laing conduz uma investigação admirável, deslumbrante, sobre o que significa estar sozinho, iluminando não apenas as causas da solidão, mas também como se pode resistir a ela ou se reconciliar com ela. Humano, provocativo e profundamente comovente, A cidade solitária, uma inteligente mistura entre pesquisa bem fundamentada e depoimento pessoal da autora, reflete sobre os espaços entre pessoas e coisas que as unem, sobre sexualidade, mortalidade e as possibilidades mágicas da arte. É uma celebração a um estado estranho e encantador, isolado do continente maior da experiência humana, mas intrínseco ao próprio ato de estar vivo. + Compre na Amazon

 

A amiga genial (Série Napolitana)

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A menção aos livros da Elena Ferrante é uma homenagem à Itália, um dos países mais afetados pela Covid-19, e uma sugestão para quem quer passar esses dias acompanhando a saga de duas personagens, Elena e Raffaella, pelas belezas e dores do amadurecimento e da amizade. Mais que um romance sobre a intensidade e complexa dinâmica da amizade feminina, Ferrante aborda as mudanças na Itália no pós-guerra e as transformações pelas quais as vidas das mulheres passaram durante a segunda metade do século XX. Sua prosa clara e fluída evoca o sentimento de descoberta que povoa a infância e cria uma tensão que captura o leitor. + Compre na Amazon


Leia mais: Minhas melhores leituras em 2019: uma ode à Elena Ferrante (por Rossana Pinheiro-Jones)

 

O lobo da estepe

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Outro livro sobre solidão, desta vez escrito pelo incrível Hermann Hesse. Harry Haller é um homem de 50 anos que acredita que sua integridade depende da vida solitária que leva em meio às palavras de Goethe e as partituras de Mozart; um intelectual tentando equilibrar-se à beira do abismo dos problemas sociais e individuais, ante os quais a sua personalidade se torna cada vez mais ambivalente e, por fim, estilhaçada. A primeira parte do livro é o pesadelo do lobo Haller, sua depressão e sua incapacidade de se comunicar que está na base da crueldade e da autodestruição. Na segunda o lobo se humaniza, através da entrada em cena de Hermínia, que tenta reaproximá-lo do mundo, no caso uma comunidade simplória, com salas de baile poeirentas e bares pobres. + Compre na Amazon

 

O conceito da angústia

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Em tempos de pandemia, incertezas, fake news e muito mais, sentimentos como medo, raiva, ansiedade, angústia vêm à tona. E se a gente conseguir entender melhor essas sensações por meio da leitura? No século XIX, em meio ao império dos sistemas idealistas, o pensador dinamarquês Søren Kierkegaard, com ironia socrática e muito humor, usa o pseudônimo Virgilius Haufniensis (o Vigia de Copenhague) para esclarecer psicologicamente o conceito da angústia, que reflete a dialética da responsabilidade do indivíduo e da herança do mal no gênero humano. + Compre na Amazon

 

O Decamerão

Giovanni Boccaccio é considerado uma das grandes vozes do Renascimento italiano – ao lado de Dante e Petrarca – e, com O Decamerão, que inaugurou a prosa de ficção ocidental, foi capaz como poucos de canalizar um manancial de narrativas em uma estrutura complexa, mas ao mesmo tempo acessível e atrativa. As cem histórias desta obra monumental versam sobre os mais variados traços da vida humana, com suas riquezas e contradições, suas paixões e armadilhas, no contexto da Peste Negra, que assolou a Europa no século XIV. A obra-prima de Boccaccio, ao se desprender da moral medieval e abrir caminho rumo ao realismo, tornou-se um marco singular na literatura e uma fonte de influência para luminares como Shakespeare e Cervantes, além de muitos modernos que vieram posteriormente. + Compre na Amazon

 

A velhice

Uma das coisas que mais me impactou nessa pandemia do Covid-19 foi o descaso com os idosos, que fazem parte do grupo de risco. Saber que muitos não se importam com uma parcela da sociedade só porque esta “já viveu demais” e que muitas pessoas serão deixadas para morrer sem amparo é assustador! E acredito que isso se deve, em boa medida, a como a nossa sociedade atual vê – e descarta – a velhice. Por isso, indico o livro da grande Simone de Beauvoir, A velhice. Esta obra profunda e corajosa alcançou grande repercussão em todo mundo, levantando questões e soluções para os problemas dos idosos. A velhice é um livro intenso, aparentemente cruel porque retrata muitas vezes uma realidade cruel, mas carregada de sensibilidade. + Compre na Amazon

Leia mais: Mal-entendido em Moscou (Simone de Beauvoir): decepções individuais e coletivas

 

Léxico familiar

Talvez um dos maiores desafios para quem ficará em isolamento por causa do Covid-19 será conviver com os familiares. Neste caso, a literatura pode nos ajudar a entender e suportar a dinâmica de diferentes pessoas sob o mesmo teto. Vamos começar com outra escritora italiana de peso, que se dedicou a escrever sobre famílias: Natalia Ginzburg. “Neste livro, lugares, fatos e pessoas são reais. Não inventei nada”, escreve Natalia Ginzburg sobre sua obra mais célebre, Léxico familiar, de 1963. Nos anos 1930, como consequência da criação de leis raciais na Europa, inúmeras famílias foram obrigadas a deixar seu lar, tornando-se apátridas ou sendo literalmente destroçadas pela guerra que se seguiu. É nesse cenário que se inscrevem as memórias de Ginzburg. Nelas, o vocabulário afetivo de um clã de judeus antifascistas se contrapõe a um mundo sombrio, atravessado pelo autoritarismo. Trata-se de uma história de resistência, narrada em tom menor, e, sobretudo, da gênese de uma das escritoras mais poderosas do nosso tempo. + Compre na Amazon

 

Laços de família

Mais um livro sobre família, desta vez escrito pela nossa querida Clarice Lispector. Com treze contos, esta coletânea contém algumas das obras-primas da narrativa curta brasileira. Neles, os personagens são sempre surpreendidos por uma modalidade perturbadora do insólito, no meio da banalidade de seus cotidianos. Clarice cria situações onde uma revelação, que desconstrói e ameaça a realidade, desvela a existência e aponta para uma apreensão filosófica da vida. A autora trata a solidão, a morte, a incomunicabilidade e os abismos da existência através da rotina de dona de casa (“Devaneio e embriaguez duma rapariga”, “Amor”, “A imitação da rosa”), do mergulho trágico em uma festa familiar nos 89 anos da matriarca (“Feliz aniversário”), da domesticação da natureza mais selvagem das mulheres (“Preciosidade”, “O búfalo”), ou dos pequenos crimes cometidos contra a consciência, como o drama do professor de Matemática diante do abandono e da morte de um animal. + Compre na Amazon

Leia mais: Precisamos ressignificar Clarice Lispector

 

Além de cuidar da saúde física e mental, não custa lembrar algumas ações para passar por essa quarentena por causa do Covid-19: lavar bem as mãos, ter um consumo consciente (nada de correr para os supermercados achando que o apocalipse se aproxima), e respeitar e ajudar as pessoas que não podem deixar seus trabalhos ou estão sendo afetadas por cancelamentos, diminuição de serviços etc. A quarentena é para proteger cada um e todos! Hora de pensar no coletivo!

 

Imagem: Moises Castillo/The Associated Press


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Bruna Bengozi
Bruna é mestra em História pela USP, redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome do impostor".

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