Virginia Woolf e a depressão: um estado de espírito?

Em setembro de 1926, Virginia Woolf oscilava entre períodos alegres e tristes. Ela estava em Monk’s House e a produção de seu livro “Ao Farol” acontecia. Em algumas anotações em seu diário, é possível perceber a relação de Virginia Woolf e a depressão, que ela mesma chamava de “um estado de espírito”. Assim, transcrevo abaixo o registro de seu diário como forma de refletir sobre a depressão e seu surgimento, como se fosse uma onda emergindo do nada, mas todas as raízes sempre estão lá.

Quarta, 15 de setembro

Usarei a forma de apontamento; por exemplo, assim: 

Um estado de espírito

Acordei talvez às três. Ai, está começando, está chegando… o horror… fisicamente, como uma onda dolorosa crescendo junto do coração… que me ergue. Estou infeliz, infeliz! Que me afunda… Meu deus, quem me dera estar morta. Pausa. Mas porque estou sentindo isso? Deixa-me olhar para a onda que sobe. Olho. Vanessa. Filhos. Fracasso. Sim; detecto-o. Fracasso, fracasso. (A onda sobe.) Ah, eles fizeram troça do meu gosto por causa da tinta verde! A onda arrebenta violenta. Quem me dera estar morta! Tenho só mais alguns anos de vida, espero. Já não consigo enfrentar mais este horror… (é a onda estendendo-se sobre mim). 

Isto continua: várias vezes, com várias espécies de horror. Depois, na altura da crise, em vez de a dor continuar intensa, torna-se bastante vaga. Durmo. Acordo num sobressalto. A onda novamente! A dor irracional: a sensação de fracasso; como por exemplo, o meu gosto por causa da tinta verde, ou comprar um vestido novo, ou convidar o Dadie para passar um fim de semana aqui. 

Por fim, digo, olhando tão desapaixonadamente quanto me é possível: vá lá, domine-se. Já chega. Raciocino. Faço um receamento dos felizes e dos infelizes. Enteso-me e empurro, atiro, quebro. Começo a andar cegamente em frente. Sinto obstáculos, afundo-me. Digo que não importa. Nada importa. Fico rígida e direita e volto a adormecer, e quase acordo e sinto a onda iniciar e olho a luz que fica branca e pergunto como será que, desta vez, o café da manhã e a luz do dia irão me dominar; e depois ouço o Leonard no corredor e finjo, tanto por mim como por ele, uma grande animação; e em geral já estou animada quando o café da manhã termina. Passará toda gente por este estado? Por que terei eu tão pouco controle? Não é digno, nem é terno. É a causa de muito desperdício e dor na minha vida. 

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