Hollywood

Ficção e história em Hollywood

Recentemente, a Netflix lançou uma nova série chamada Hollywood. São tantos novos nomes a cada semana que é difícil de acompanhar o catálogo da poderosa do streaming; e é possível que essa série passe despercebida pela maioria. Até o momento, ela não causou grande comoção. Talvez ainda precise ser descoberta.

A produção não é incrível. Mas o interessante é que ela apresenta uma tendência na ficção: recontar a história. O que seria um pecado mortal para os historiadores, na narrativa ficcional tem-se assumido como uma virtude.

A lista de filmes e séries com temas “históricos” é imensa. A gente poderia passar dias listando boas e más produções. Em todas elas, é discutível o seu valor histórico – ao menos para o historiador; o público, sabemos, não se importa com isso. No entanto, apenas recentemente os ficcionistas deixaram de lado o pudor e resolveram meter a mão na história; não mais apenas retratá-la, com mais ou menos verossimilhança; com x ou y ideologia.

Acho que devemos dar o crédito a Quentin Tarantino por tal feito. Ainda que, claro, possamos citar outras obras que fizeram algo parecido antes, foi ele quem levou a prática a outro patamar. Não tenho muito o que falar sobre o diretor que já não seja do conhecimento geral. Então, vou direto ao ponto: Bastardos Inglórios (2009). A película conta a história de um grupo de soldados judeus que caça nazistas, com direito até a escalpelamento. No final do filme, o diretor resolve presentear o seu público. Em uma cena espetacular, assistimos Hitler e seus asseclas serem assassinados por milhares de tiros, no melhor estilo Tarantino, e depois morrerem queimados em um incêndio no cinema. É como se o filme tivesse colocando fogo na história. Não há quem não fique satisfeito com esse final fictício.

Depois, o diretor ainda seguiu a mesma receita em Django Livre (2012), e fez um ex-escravo nos Estados Unidos assassinar seus senhores. Spike Lee, diretor de Faça a coisa certa (1989) criticou o filme de uma forma, pode-se dizer, “histórica”. Segundo Lee, “a escravidão no Estados Unidos não foi um western spaghetti de Sergio Leone, mas um holocausto”.

Spike Lee está alertando Tarantino de que há uma forma “correta” de falar sobre o passado. Ele deve ser apresentado tal como foi, o máximo possível. A abordagem do diretor a temas históricos é completamente diferente em seus filmes. Por exemplo, os excelentes Malcolm X (1992)e Infiltrado na Klan (2018).Não estamos falando de historiadores aqui, mas de dois ficcionistas.

Tiremos o foco do passado por um momento. Pensemos a ficção distópica, futurista ou fantástica. Não é possível fazer o tipo de crítica de Spike Lee, simplesmente porque são registros que “não existem”. Seria ridículo dizer que a saga Star Wars não foi exatamente como George Lucas o fez. Esse é o campo por excelência da ficção. O imbróglio está no passado. Por quê? Porque ele existiu, aconteceu de tal forma. Falar em ficção no passado se torna bastante delicado, sobretudo porque envolve memórias pessoais ou coletivas. À sequência da crítica a Quentin Tarantino, Spike Lee disse: “respeite a história de meus ancestrais”.  

Apesar das críticas, Tarantino voltou ao formato e outra vez alterou a história. Em Era uma vez em Hollywood (2019), o diretor deu um outro final para a atriz Sharon Tate. Tema sensível: o cruel assassinato da jovem estrela chocou o Estados Unidos no final da década de 1960. Quatro jovens da seita de Charles Manson invadiram a casa da atriz, grávida de oito meses do diretor Roman Polanski, e assassinaram todos na casa. Tate foi morta com 16 facadas.


Quando Tarantino anunciou que essa história estaria em seu novo filme, causou alguma preocupação em Hollywood. Como ele representaria o crime? 50 anos depois, ninguém ainda estava preparado para uma reprodução realista desse fato. No entanto, o diretor seguiu o caminho inaugurado por si mesmo e… recontou a história. Quando os quatro jovens chegaram à mansão de Tate, eles encontraram com um drogado e perigoso Brad Pitt. Como fez com os nazistas de Bastardos Inglórios, Tarantino acenou para o seu público e vingou Tate. Em uma cena cheia de sangue e gritaria, ele massacrou os jovens antes deles chegarem à mansão da atriz. É como se a ficção estivesse tentando fazer reparação histórica.

E se Hollywood…?

Nesse ponto, voltamos à série da Netflix. Hollywood conta a história de jovens artistas buscando construir suas carreiras e alcançar o sucesso durante a era de ouro de Hollywood, dos grandes estúdios e das grandes estrelas.  Diferente de Tarantino, a série não faz uso da violência estilizada e opta por recontar a história no estilo hollywoodiano. Ela não altera apenas o final, mas, sim, faz um exercício de “e se…?”. E se… Hollywood não tivesse sido racista, misógina e machista por todos esses anos? E se… alguém tivesse enfrentado o preconceito da indústria durante o seu auge?

Esse é um tipo de pergunta que pertence apenas à ficção. Não cabe ao historiador, por exemplo, começar uma tese dessa forma. Porém, imaginar no presente o que teria acontecido se o passado tivesse sido diferente faz parte da nossa vida. Fazemos isso o tempo inteiro. Ficcionar é uma forma de entender a própria experiência. Por que eu fiz, ou não fiz tal coisa? E se eu tivesse ficado calado, ou gritado? Tecemos ficções para tentar organizar o emaranhado do que é viver e dar algum sentido para nossas escolhas.

A especulação sobre o passado, na série, se dá com a produção fictícia do filme Meg. Impossível de ter acontecido nos anos 1940, o filme é escrito por um jovem negro e publicamente gay; protagonizado por uma talentosa atriz negra e foi realizado por um poderoso estúdio gerenciado por uma mulher. A série mostra a tensão gerada por essas escolhas e, o que na história não aconteceu; na ficção, tornou-se possível: o primeiro filme protagonizado por uma mulher negra, na década de 1940. E ela não era uma personagem estereotipada, mas sim complexa, como um bom personagem deve ser. 

Com isso, a história mistura personagens fictícios e reais. Aparecem no filme a grande atriz Hattie MacDaniel (E o vento levou), a primeira mulher negra a ganhar um Oscar – foi também a primeira pessoa negra a ser convidada para a cerimônia de premiação, mas não a deixaram entrar no salão e ela recebeu o seu prêmio após o fim da festa, no hall; Anna May Wong (O expresso de Shangai), a primeira atriz de ascendência asiática de Hollywood, que durante toda a sua carreira não conseguiu se livrar do estereótipo oriental; e Henry Wilson, produtor famoso pelo seu envolvimento com a máfia e por ser um predador de jovens atores. Entre uma de suas vítimas estava o ator Rock Hudson.

Jim Parsons como Henry Wilson em cena de “Hollywood”. Foto: divulgação/Netflix

Típico galã de hollywood, Rock Hudson estrelou diversos filmes durante sua carreira, entre eles Sublime obsessão (1954) e Assim caminha a humanidade (1956). Seu nome estava no mesmo patamar de Cary Grant e James Dean e foi par romântico de Doris Day e Elizabeth Taylor. Em 40 anos de vida pública, nunca assumiu sua homossexualidade. Manteve um relacionamento secreto com o produtor Henry Wilson por anos, chegando a se casar com a sua secretária Phyllis Gates após ameaça de revelarem o segredo dos dois. Em 1985, Hudson foi a primeira celebridade vítima do vírus da Aids. Nesse momento, veio a público os seus relacionamentos com outros homens.

A série Hollywood reconta a história de todos esses personagens reais. No começo de sua carreira, após ceder a chantagens sexuais, Hudson consegue enfrentar Henry Wilson e vai à cerimônia do Oscar acompanhado de seu namorado e desfilam de mãos dadas pelo tapete vermelho. Anna May Wong ganha o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por seu papel em Meg; Hattie MacDaniel finalmente entra no salão da cerimônia e até o podre Henry Wilson consegue um final redentor.

A ficção como reflexão

Nada disso aconteceu de verdade. Uma grande parte das estrelas desse período foi submetida a abusos sexuais, terror psicológico, e aqueles que se negaram foram jogados na vala de Hollywood. Os que aceitaram o jogo da indústria passaram anos lutando contra o vício em álcool e drogas. Por trás das câmeras, a grande indústria norte-americana de cinema é pura podridão.

A ficção não é capaz de mudar tais fatos, mas ela consegue ressignificá-los e, ao fazer isso, convida-nos a refletir. Por mais que exista o desejo de contar “uma história definitiva”, não podemos cair nessa falácia. Existem diversas formas de contar uma mesma história. Qualquer que seja o objeto, quando nos deparamos com ele, imediatamente começamos a enchê-lo de significados. Apenas dizer que ele existe não basta; queremos saber o que ele (ainda) tem a nos contar. Para isso, precisamos dar sentido ao caos das ideias; organizá-lo. Esse é o papel da ficção: encontrar a palavra certa, aquela que mais se aproxima do verossímil. As melhores histórias são as que conseguem tal feito. Com a ficção conseguimos ver o horror do que aconteceu e pensar sobre “o que poderia ter sido diferente”. Ao fazer esse movimento, Hollywood ressignifica o passado; conta-o de novo e o faz em diálogo com o presente. É só pensarmos no movimento Me too e Oscar so white. Há uma pressão cada vez maior por novos rostos nas narrativas, porque precisamos continuar ressignificando o mundo. E enquanto as pessoas existirem, elas continuarão contando e recontando histórias. Se pararmos de criar ficções, deixamos de existir: o mundo fica sem sentido.

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Bruno Ribeiro
Formado em Artes cênicas pelo Senac e estudante de História da EFLCH/Unifesp. Apaixonado por cinema e literatura.

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