“Quimera” ou sobre a capacidade de se encantar pelo belo em meio ao aprisionamento da vida

Era noite quando um menino de nove anos soltou um grito que ecoou pela aldeia. Atraídos por aquele lamento por socorro, seus pais retornaram para acudi-lo. E assim começa a saga de Kizua e sua família rumo a um mundo desconhecido, em um monstro de asas brancas que engole homens e desbrava mares. Kizua era pequeno para sua idade. Magro. Uma criança que sonhava em ver o mar, aquela infinitude azul esverdeada recheada de mistérios e aventuras não imaginadas. Uma criança que ainda cabia no abraço de braços musculosos da mãe, e carregava a culpa por ter gritado no momento da invasão de sua aldeia. Não era para ser assim. Não era para que Kizua, aos nove anos, testemunhasse o aprisionamento de seus pais, e fosse levado até o mar arrastando pés acorrentados. Kizua era uma criança com sonhos. Queria ver o mar. Mas era negro. E se tornou escravo.

A história de Kizua é contada em Quimera, projeto que dá cor e imagem ao garoto que conhece a um só tempo as desventuras do mar, o aprisionamento e a opressão. Desenvolvido por Celeste Baumann e Lily Carroll, um das belezas de Quimera é apostar na união entre letra e traço, já que a história narrada por Celeste ganha vida nas ilustrações de Lily. Mas não para por aí. O livro tem a força de uma narrativa que permite adentrar em um dos eventos mais desumanos da história da humanidade – a caça, o aprisionamento, a comercialização e a escravização de pessoas negras. E faz isso através do olhar de uma criança que, diante da violência e do sofrimento, ainda é capaz de se encantar com o mundo e de interpretá-lo de forma mágica, procurando atribuir sentido àquilo que não se explica. Ou se justifica.

Ilustração de Lily Carroll para o livro “Quimera”, escrito por Celeste Baumann

Entretanto, ao longo de suas páginas, acompanhamos o crescimento de Kizua. E aqui estamos no terreno de uma literatura que tornou clássica as figuras de Holden Caulfied e Scout Finch. A perda, a proximidade com a morte, a solidão, o contato com a injustiça podem ser fatores aceleradores de amadurecimento, e em seu processo de luta para recompor o decomposto da vida, Kizua nos ensina um olhar que permite encontrar beleza naquilo que é triste, cruel. Não se tem aqui uma criança qualquer. Somos colocados diante de uma criança que sofre pela cor de sua pele e nela experimenta o gosto amargo da escravização. Em poucos dias, Kizua se vê colocado diante de uma mudança radical que exige um amadurecimento quase imediato.

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Ilustração de Lily Carroll para o livro “Quimera”, escrito por Celeste Baumann

Mas a história de Kizua é mais antiga do que os poucos dias que marcam sua desventura em um navio negreiro. Sua existência começou a ganhar contornos em 2013, quando Celeste, então uma estudante de História da Universidade Federal de São Paulo, decidiu escrever uma história sobre escravidão para que virasse uma peça musical composta pelo amigo e músico Jonathan Portela, também à época estudante de História. E, de fato, basta ouvirmos peças consagradas como O Guarani, de Carlos Gomes, para sabermos que aspectos da História do Brasil já foram exaltados e mesmo romantizados. No despertar do regime republicano brasileiro, era preciso encontrar pontos de afirmação de uma identidade nacional que extrapolasse o legado europeu.

Ilustração de Lily Carroll para o livro “Quimera”, escrito por Celeste Baumann

Não é esse o caso de Quimera. Há delicadeza e respeito no trato da história, não exaltação, ou romantismo. E ele chega em um momento importante do nosso olhar sobre nós mesmos, com toda a carga de negacionismos e revisionismos vazios que rondam o fantasma da nossa história, da nossa identidade como povo. Atualmente, fala-se muito em Brasil e amor à pátria. Mas é possível a uma pátria, a uma nação, a um povo constituírem-se por exclusões e apagamentos, negando-se o direito ao próprio passado? Ler Quimera é uma oportunidade de pensar que nossa história está aí para fazer de nós o que somos. Não para ser julgada, negada ou esquecida. Mas para ser tratada com honestidade, sem manipulações. Para ser tocada com letras, traços, cifras, e, com isso, nos tocar. E quiçá para fazer com que possamos, um dia, ser melhores do que ontem. Ou hoje.

Ilustração de Lily Carroll para o livro “Quimera”, escrito por Celeste Baumann

Em tempo.

Eu tive a honra de ler o livro em primeira mão, já que ele ainda não foi oficialmente lançado. Mas para quem se interessou e tiver curiosidade em acessar e apoiar o projeto, é só seguir para a página no Catarse. Quimera fica no ar até 10/06.

Capa do livro “Quimera”. Imagem: divulgação.

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Rossana Pinheiro-Jones
Rossana Pinheiro-Jones é Doutora em História e Bacharel em Direito. Gosta de linhas, letras, gatos e café. Atualmente, vive em Londres com uma estante em busca de novos livros e ensina inglês para quem gosta de literatura.

1 comentário

  1. Muito obrigada por essas palavras tão bonitas e importantes!

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