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Guerra e Paz, de Tolstói: um livro para 2020

Uma das obras mais famosas de Leon Tolstói, Guerra e Paz se passa no momento das expansões e guerras napoleônicas na Europa (1803-1815). General do exército francês que se auto coroou imperador em 1804, dando fim a uma era de revoluções despertada em Paris em 1789, não satisfeito em ser governante da França ou em usar sua força e astúcia militar para restaurar a antiga ordem, Napoleão Bonaparte deu início a uma guerra de conquista, que gerou consequências mundiais. A ambição imperial de Bonaparte é o tema principal da conversa dos convidados de Anna Pavlovna Scherer, na festa que promove quando se encontra tomada pela gripe. Seus convidados, membros da elite nobiliárquica russa, íntimos de imperatrizes e defensores do Czar, avaliam os riscos que podem ser enfrentados pela Rússia diante da ameaça francesa. Um ano após a coroação de Napoleão, portanto, em julho de 1805, Anna Pavlovna reúne os grandes de sua sociedade nessa festa, e assim dá início a uma das obras mais respeitadas da literatura russa e mundial.

Logo nos primeiros capítulos, é possível entender o que faz deste um livro clássico, já que seu primeiro mérito é ser escrito em um estilo marcadamente irônico. Ouvimos não só as vozes dos próprios atores sociais, nos diálogos que travam entre si, como seus pensamentos são revelados concomitantemente à voz do narrador que não poupa nenhum de seus personagens e expõe suas contradições e fingimentos sociais. Em uma peça teatral de múltiplos cenários, Tolstói faz caricaturas dos protagonistas e figurantes, exagerando e satirizando suas características a partir do uso de repetições: o rosto feio e assustado de Maria; a face em lágrimas e consternada da manipuladora Anna; o lábio fino com um bigodinho preto da princesinha grávida; a gordura espalhafatosa de Pierre. Com isso, revela as máscaras sociais que vestem em nome da manutenção do jogo social.

Essa exposição caricatural dos personagens, arrisco-me a dizer, é intencional e coloca o leitor em posição de desconforto e mesmo de antipatia em relação a eles. De pouca ou nenhuma identificação. Poderíamos pensar que não nos deixamos tocar porque estamos anos-luz de distância da Rússia czarista com seus bailes, generais corajosos e belas Helenas. Mas basta pensar em Anna Kariênina, personagem também de Tolstói pertencente ao mesmo ambiente social; ou nos dramas do casal da série turca Kurt Seyit ve Şura, que assisti sem parar no Netflix em 2016, para entender que a identificação e a empatia não se produzem apenas em conformidade com aquilo que nos parece semelhante. Muitas vezes, a história e a literatura atraem justamente por apresentarem aquilo que nos é diverso, por nos ajudarem a sonhar outras vidas ou a entender sociedades distintas das nossas e, então, lançarem luzes ao nosso próprio modo de ser. Mas não foi isso o que senti com os personagens de Guerra e Paz e confesso que, assim como a Bruna comentou em seu primeiro diário de leitura, também deixei o livro abandonado após ter concluído a leitura das 100 primeiras páginas.

Mas retornei a ele quando a peste tomou conta do mundo, o isolamento bateu à porta e o clube de leitura virtual ganhou novo ânimo. Passei a acompanhar a aristocracia russa se preparando para deslocar sua tropa e o desenrolar da guerra no terreno do Império Sacro Romano Germânico, contando com a Áustria e a Alemanha como aliados. Ainda não sabia que o despreparo e o conflito de opiniões de homens com postos de comando poderiam custar caro aos inimigos dos franceses. Da mesma forma, sem saber plenamente o que os aguardava, nos salões, homens ambiciosos se despediam e faziam os arranjos necessários para a partida. Com motivações diversas, príncipe Andrei Bolkónsky, Nicolas Rostóv e Boris são alguns dos personagens que se preparam para partir. Enquanto o que move alguns desses jovens é o sentimento patriótico de que a Rússia sozinha pode salvar o mundo das garras do usurpador, como defende Anna Pavlona muitas vezes usando de perfeito francês, outros desejam apenas adentrar o exército para encontrar um lugar social, ou mesmo para dele fugir.

E aqui temos uma primeira contradição escancarada por Tolstói: a crítica ao projeto expansionista napoleônico é feita por uma sociedade de corte que se expressa em francês, o que demonstra que a influência francesa sobre a Rússia antecede a própria chegada de Napoleão ao poder. Mas de que França e de que Rússia estamos falando? Em certo momento, um dos convidados de Anna Pavlona evidencia que o problema de Napoleão era ter conquistado o poder para dar início ao seu próprio reinado, ao invés de empenhar sua força para restaurar a ordem rompida com a decapitação de monarcas e aristocratas por franceses revolucionários. A sociedade de corte deseja a restauração dos privilégios aristocráticos, e a guerra se torna o veículo desta realização, deste recolocar em marcha o passado.

O único personagem na contramão é Pierre, duplamente estrangeiro à sociedade de corte russa, por ser filho ilegítimo do conde Bézukhov e por ter passado a maior parte de sua vida no exterior. Para horror dos convidados e da anfitriã, Pierre defende Napoleão como um homem forte, estrategista, que salvou a França do caos revolucionário que decorreu da fuga dos Bourbons e capaz, portanto, de garantir ao mundo um estado político melhor. Aos poucos, os argumentos usados para a defesa ou negação do jogo político não nos parecem mais tão distantes! Pierre apela para a extraordinariedade do líder na condução do seu projeto salvacionista, autorizado a seguir adiante ainda que às custas de algumas vidas individuais. Repito. O grande homem, com sua aura heroica, messiânica se preferirem, deve avançar com seu projeto de governabilidade mesmo que deixe um rastro de mortos atrás de si. Afinal, o que é uma vida quando comparada à grandeza do líder? Mas, reparem: parece que o discurso de Pierre aponta, também, para a existência de uma finalidade ao exercício do poder: a promoção do bem comum, a retirada do povo de um caos instaurado. Ecos de um mundo iluminista para sempre perdido para nós.

Mesmo entre seus contemporâneos, Pierre é uma voz isolada, e seus argumentos causam constrangimentos aos demais convidados e à própria anfitriã. É evidente que ele não é bem aceito naquele ambiente, com exceção de Andrei, que procura amenizar um mal-estar crescente. O marginal Pierre, entretanto, tem sua posição social modificada em decorrência da frágil saúde de seu pai, o que o coloca em disputa direta com os herdeiros legítimos de uma das maiores fortunas da Rússia. A seu lado, aparentemente defendendo seus interesses, está Anna Mikhailovna, amiga da condessa Natália Rostov, e mulher sem lugar social definido, que se vê obrigada a fazer o jogo social em benefício de seu filho Boris, trocando e cobrando favores de outros personagens, como de sua amiga condessa e do príncipe Vassily, um dos herdeiros possíveis da fortuna do conde moribundo, juntamente com Catiche, uma das sobrinhas de Bézukhov. Anna Mikhailovna, a mulher com a face em lágrimas e consternada, conquista sua posição nesse jogo social ao promover a inserção de Pierre na respeitada sociedade daqueles que tem posse, tornando-o, assim, um dos partidos mais cobiçados e bem recebidos dos salões russos, como bem disse a Bruna em seu citado diário de leitura.

Mas, para mim, neste primeiro momento, foi o príncipe Nicolau Bolkónsky quem apontou para uma temática que subjaz às preparações para a guerra e talvez à própria escrita de Guerra e Paz. Afastado dos serviços imperiais, residente do campo, e ausente dos bailes e reuniões que ditavam a convivência social e as normas de civilidade (portanto, assim como Pierre, um outsider), ao apresentar a discussão que o príncipe tem com seu filho Andrei sobre os rumos da guerra e das estratégias militares a serem tomadas contra Napoleão, Tolstói diz sobre a figura: “O velho príncipe parecia convencido de que não só todos os estadistas contemporâneos eram crianças, não entendiam o bê-á-bá dos assuntos militares e políticos, que Bonaparte não passava de um francesinho insignificante que só obteve êxito porque já não existiam os Potiómkin e os Suvórov para se opor a ele; como também estava convencido de que não existia nenhuma dificuldade política na Europa, não existia nem guerra, havia apenas uma comédia de marionetes em que as grandes figuras contemporâneas representavam papéis, fingindo fazer algo real”.


Negacionismos à parte, parece que Bolkónsky revela um ponto importante na estratégia de guerra e abre a oportunidade de questionamentos acerca do próprio mundo contemporâneo: se os grandes de seu tempo encenam papéis e fingem fazer algo real, há possibilidades de se chegar ao âmago do ser, na realidade daquilo que é realmente? E qual o papel da guerra neste contexto? Expor a essência, o humano em cada um? Tornar real e visceral o homem despido de filtro e maquiagem sociais? Ou, contrariamente, acirrar ainda mais a encenação da vida, em um espaço em que não é a arte que retira sua fundamentação da vida, mas a vida que é recriada e se torna real por meio da arte da encenação? Quais heroísmos e grandezas extraordinárias resistem diante da iminência da própria morte?

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Rossana Pinheiro-Jones
Rossana Pinheiro-Jones é Doutora em História e Bacharel em Direito. Gosta de linhas, letras, gatos e café. Atualmente, vive em Londres com uma estante em busca de novos livros e ensina inglês para quem gosta de literatura.

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