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O estrangeiro (Albert Camus): as entrelinhas hipócritas

Peguei o livro O estrangeiro (Albert Camus) sem muitas ideias do que eu encontraria na obra. Como faço parte daquele grupo de pessoas que não estão conseguindo se concentrar em muitas leituras durante a pandemia, tenho me colocado em um estado de que estará tudo bem se eu não conseguir finalizar um livro. Então, ler O estrangeiro (Albert Camus), começou assim, despretensiosamente.

A princípio, o personagem-narrador, Meursault, relata a morte de sua mãe e todos os acontecimentos comuns ao momento: velório, conversas, enterro. Já nos próximos capítulos, esse personagem vai ganhando forma e sua falta de caráter vem em vários sentidos, como a sua postura diante da violência a terceiros e também sua própria narração, que diz ao leitor que ele não se importa com nada. Tudo para ele é um tanto faz ou tanto fez.

Camus
Albert Camus (1913-1960), lê um jornal em Paris, em 1959. Fonte: AFP.
Saiba mais sobre o autor: 15 citações de Albert Camus

As entrelinhas hipócritas da vida

Mas no decorrer da história um crime acontece e, então, a mente de Meursault fica cada vez mais interessante. Que homem é esse que não sente, não chora e escancara entrelinhas hipócritas da vida?

“Eu costumeiramente pensava que tinha sido obrigado a viver no tronco de uma árvore morta, sem nada para fazer além de olhar para o pedaço de céu que estava bem acima, eu me acostumei com isso gradativamente.”

ALBERT CAMUS. O estrangeiro, p. 77

O verão argelino produz na história de Albert Camus um cenário que alinha-se aos acontecimento da vida de Meursault: o calor escaldante e a fotofobia causada pelos reflexos solares caminham paralelamente com o desenvolvimento e ações de Meursault até o grande clímax da obra. De um homem comum e uma vida banal (como uma manhã suave), ele está nos abismos da vida (como o calor insuportável, vermelho e pulsante).

“Então tudo começou a rodar diante de meus olhos, uma rajada de fogo veio do mar, enquanto o céu se partiu em dois, de ponta a ponta, e uma grande chama de fogo desceu pela fenda. Cada nervo do meu corpo era uma mula de aço e meu aperto se fechou no revólver. (…) Eu sacudi meu suor no sol. Sabia que tinha quebrado o equilíbrio do dia, o excepcional silêncio de uma praia onde eu estava feliz.”

ALBERT CAMUS, O estrangeiro, p. 62

O estrangeiro vive à margem

A princípio, pensando em outros pontos de vista, os personagens que fazem parte da história, parecem intrigados com a forma de Meursault lidar com a vida. Será por sua simplicidade e descompromisso irritante? Ou por um conhecimento tão profundo sobre si mesmo que o coloca distante de tudo, como um estrangeiro, como alguém que vive à margem?

Nesse sentido, é interessante observar que a tentativa dos personagens de se aproximarem de Meursault conecta-se com o momento em que ele está na praia e com o sol cortando sua pele. Ou seja, os segundos de seu ato violento e banal, ficam repletos de entrelinhas sobre uma possibilidade de encontrar o sentido de uma vida, mas que se perde em si. Assim, essa mesma impossibilidade está nos laços frágeis que ele constrói com sua namorada e amigos.

Por fim, diferente de muitos clássicos, que o desfecho tende a caminhar para algo mais suave, devido ao clímax que tanto surpreende, Albert Camus constrói os últimos parágrafos com intensidade e entrega para o leitor aquela sensação deliciosa de epifania.

Do horizonte escuro do meu futuro, uma brisa lenta e persistente soprava em minha direção, durante toda a minha vida, dos anos que estavam por vir.

ALBERT CAMUS. O estrangeiro, p. 120

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Francine Ramos
Editora da Livro&Café desde 2011. É professora de Língua Portuguesa e tenta ser escritora (um conto seu foi publicado na coletânea Leia Mulheres, em 2019). Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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