Guerra e Paz

Diário de leitura #2: Guerra e Paz, de Liev Tolstói

Querido diário de leitura,

Continuo com meu Guerra e Paz e, finalmente, cheguei à guerra. Num primeiro momento, o incômodo foi grande. Parecia que eu estava lendo aqueles manuais de guerra, repleto de estratégias militares, nomes de generais e por aí vai. Confesso que a leitura da segunda parte deste primeiro volume se arrastou por alguns dias e eu buscava o sentido de tudo aquilo. Já sabia que Liev Tolstói era um forte antibelicista, então logicamente esperava uma postura crítica diante da insensatez da guerra. Mas em sua obra-prima, nada é tão simples quanto aparenta, mesmo as passagens mais banais. Assim, a guerra não é só uma disputa política e militar entre os governos e exércitos russos e franceses. Tolstói não parece apenas descrever um embate e dar as pistas de que aquilo tudo soava irracional. Não, como tudo em Guerra e Paz, há camadas e mais camadas de significados, de leituras.

Leia mais – Diário de leitura #1: Guerra e Paz, de Liev Tolstói

Se na primeira parte do livro, tivemos aquelas pedantes cenas da aristocracia, em seus luxuosos bailes e jantares regados a expressões francesas, ou então, a encenação durante o velório do pai de Pierre, nesta segunda parte, a guerra se descortina como outro cenário desse teatro da vida. No palco, o espetáculo continua, com a diferença que a morte não é fingida. Ela é real, muito real.

Vejamos uma reflexão solta pelo nosso escritor-narrador, Tolstói, no meio de uma cena de batalha, no momento do encontro entre dois exércitos inimigos:

“Um passo além dessa linha, que lembra a linha que separa os vivos dos mortos, representa o desconhecido, o sofrimento e a morte. E o que existe lá? Quem está lá? Além daquele campo, e da árvore, e do telhado iluminado pelo sol? Ninguém sabe, e querem saber; dá medo cruzar a linha, e também dá vontade de cruzá-la; mas sei que, mais cedo ou mais tarde, vai ser preciso cruzá-la e conhecer o que está lá, do outro lado da linha, assim como é inevitável, um dia, saber o que está do outro lado da morte. Mas eu me sinto forte, saudável, alegre e animado, rodeado de pessoas igualmente saudáveis, confiantes e animadas.” Desse modo pensa, ou pelo menos sente, todo homem que se encontra à vista do inimigo, e tal sentimento confere um brilho especial e uma alegre impressão de agudeza a tudo o que acontece nesse instante.” (p. 526-527, versão Kindle)

Nessas páginas, temos o choque entre a idealização e a realidade. Somos apresentados ao já comentado príncipe Andrei, que vai para a guerra querendo conhecer e se transformar em seu ídolo, que nada mais é que Napoleão Bonaparte. Já o jovem Nicolai Rostóv, que nutre um amor platônico pelo Imperador Alexandre, também chega à batalha trazendo grandes anseios e não consegue acreditar quando acaba ferido e quando seu encontro com o líder russo é frustrado. Temos as cenas bárbaras do combate em si, jovens morrendo sabe-se lá por qual razão ou por quem.

E então algumas questões começaram a surgir na minha mente, até pelo aumento da complexidade da obra, seja em termos de trama, seja em termos de aspectos psicológicos dos personagens. Assim, a primeira grande pergunta que surge é: qual o papel dessa guerra na narrativa de Tolstói? Parece-me que, nesse momento do livro, ela serve para vários propósitos. Nesse palco turbulento, passam aqueles personagens que buscam a batalha como meio de ascensão social, como é o caso de Bóris, filho de Anna Mikháilovna, e de afirmação social para muitos integrantes da aristocracia, que esperam fazer seu nome durante e após a guerra, para conquistar bons cargos e bons casamentos. Mas me chama a atenção que, nesse cenário insólito, há também espaço para a descoberta do sujeito. Nesse jogo, vemos o conflito entre homens e entre a mitificação de grandes personagens, como Napoleão, Alexandre e os famosos generais, e a decepção. Ah, a decepção, tão presente neste livro (mas isso é assunto para um outro momento).

Voltemos aos nossos personagens Andrei e Nicolai Rostov. Ambos se descobrem por meio da guerra e da decepção decorrente de idealizações que não se sustentam. Os heróis se mostram humanos, mesquinhos, menores, falíveis. A afirmação de uma masculinidade sucumbe perante o medo, a desolação e a morte. Esta morte, tão bela nos livros e poemas recitados nos eventos da aristocracia russa, acaba ressignificada.


E, aqui, abro espaço para uma das passagens mais bonitas do volume 1, quando o príncipe Andrei acaba gravemente ferido em batalha:

“O que é isso? Estou caindo? Minhas pernas estão fraquejando”, pensou, e caiu de costas. Abriu bem os olhos, na esperança de ver como tinha terminado a luta dos franceses contra o artilheiro ruivo e querendo saber se o artilheiro ruivo tinha sido morto ou não e se os canhões foram tomados ou salvos. Porém não viu nada, senão o céu – um céu alto, não claro, mesmo assim incomensuravelmente alto, com nuvens cinzentas que deslizavam tranquilas. “Como está tranquilo, calmo e solene, muito diferente de quando eu corria”, pensou o príncipe Andrei. “Muito diferente de quando nós corríamos, gritávamos, lutávamos; completamente diferente da maneira como o francês e o artilheiro, com rostos assustados e raivosos, puxavam a vareta de limpeza do canhão um de cada lado… é de um modo completamente diferente que as nuvens deslizam por esse céu alto e infinito. Como é que antes eu não via esse céu alto? E como estou feliz, eu, que afinal descobri esse céu. Sim! Tudo é vazio, tudo é ilusão, exceto o céu infinito. Nada existe, nada, exceto ele. Mas nem isso existe, nada existe, exceto o silêncio, a tranquilidade. Graças a Deus!…” (p. 1042-43, versão Kindle)

Mas será que esse confronto com a morte é suficiente para uma mudança na vida desses personagens? Essa descoberta do sujeito o faz tomar alguma consciência? E essa guerra, como parece implícito na escrita de Tolstói, é apenas mais um capítulo irracional na história individual e coletiva? São perguntas para as quais ainda não tenho resposta. Aliás, esse livro tem me despertado mais questões do que conclusões, o que eu, particularmente, acho ótimo.

E não custa lembrar que esses diários têm o objetivo de apresentar as minhas impressões gerais sobre a leitura, as sensações e as inquietações que ela desperta em mim. Ler Tolstói está sendo um exercício desafiador, e ainda é complicado colocar em palavras a complexidade dessa obra. Mas eu pretendo seguir até o final ao lado dos meus companheiros do clube virtual, que tanto contribuem com novas visões e abordagens sobre Guerra e Paz. E eu espero que você continue comigo nessa jornada!

Se quiser saber mais sobre a obra, temos os textos escritos pela Rossana Pinheiro-Jones para a Livro & Café, “Guerra e Paz, de Tolstói: um livro para 2020” e “Teria Tolstói algo a nos ensinar sobre a escrita da História?”.

E eu estou curiosa para saber o que você vem achando de Guerra e Paz até o momento e se você já leu esse livro ou outros livros de Liev Tolstoi. É só compartilhar suas impressões aqui nos comentários ou em nossas redes sociais no Facebook, Instagram e Twitter. Em breve, estarei aqui com mais diário de leitura! Até logo!

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Você também pode ouvir este conteúdo no podcast da Livro & Café, disponível nas principais plataformas de streaming:

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Bruna Bengozi
Bruna é mestra em História pela USP e graduanda em Letras pela Univesp. Redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome da impostora".

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