Kazuo Ishiguro

Um artista do mundo flutuante (Kazuo Ishiguro): quem somos antes e depois da guerra?

Kazuo Ishiguro ganhou o Nobel de Literatura em 2017. Ele nasceu no Japão, mas ainda muito novo mudou-se para a Inglaterra. Além do mais conhecido prêmio literário, outros prêmios importantes fazem parte da carreira do autor que nos traz a beleza da boa narrativa e a construção de personagens complexos.

No romance “Um artista do mundo flutuante“, vamos conhecer o personagem-narrador Masuji Ono que, vivendo em uma mansão, recebe a visita de uma filha, preocupa-se com o casamento de de outra, tenta aproximar-se de seu neto e reconstrói suas lembranças do passado. No entanto, o passado de Ono é repleto de nuances em relação ao seu comportamento durante a Segunda Guerra Mundial. Ele, um pintor de quadros, conta ao leitor sua vida com seus amigos e também os momentos que o fizeram se tornar um artista admirado.

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No início da história, é difícil imaginar os rumos que a narrativa, uma vez que o universo que Kazuo Ishiguro construiu é pautado no dia-dia de um personagem que vive em uma mansão decadente. De repente, barulhos estranhos acontecem, seu neto brinca sozinho de uma forma que o deixa preocupado e traz ao leitor uma sutil imagem de terror. Porém, a obra nos conduz a outro tipo de horror, totalmente distante dos clichês e muito mais próximo da realidade da vida de pessoas comuns: como sobreviver às incertezas da guerra; como sobreviver às transformações sociais; como sobreviver às lembranças do passado.

Ukiyo-e: retratos do mundo flutuante

“Vivemos todos aqueles anos quase inteiramente de acordo com seus valores e estilo de vida, e isso implicava passar muito mais tempo explorando “o mundo flutuante” da cidade – o mundo noturno de prazer, entretenimento e bebida que dava forma ao pano de fundo de todas as nossas pinturas.”

Kazuo Ishiguro. Um artista do mundo flutuante. p. 158

O título do livro nos diz sobre o tipo de pinturas produzidas pelo personagem Ono. Os chamados ukiyo-e são obras chinesas que retratam a vida cotidiana, a boemia, os momentos em que a vida se mostra sensível e bela, mesmo simples.

Obra ukiyo-e de Utagawa Hiroshige, 1840.

Dessa forma, outra camada de Ono enquanto personagem é criada por Kazuo Ishiguro. Ono é um personagem que viveu uma vida totalmente entregue à arte. Ele e seus amigos nutriam uma certa devoção ao professor que ensinou a eles a arte “do mundo flutuante”. No entanto, Ono vai desenvolvendo seu próprio estilo e reflete sobre a arte e seu sentido político. Essa reflexão presente a longo da história acaba por funcionar como uma justificativa sobre Ono, em relação às suas ações no presente e em seu próprio passado.

Kazuo Ishiguro, a arte e a política

Por fim, além de ser uma história sobre a reconstrução de memórias, o livro também aborda o quanto ações do passado podem reverberar no presente. Ou seja, esse homem idoso em sua mansão, além de lidar com a rotina de sua vida atual, percebe que ainda há coisas para fazer por conta dos resquícios da guerra em sua vida. E, brilhantemente, faz o leitor refletir sobre a relação da arte com a política.

“Sensei, minha convicção é que em tempos conturbados como os nossos os artista precisam aprender a valorizar algo mais tangível que aquelas coisas prazerosas que desaparecem com a luz da manhã. Não é necessário que os artistas ocupem sempre um mundo decadente e fechado. Minha consciência, sensei, me diz que não posso continuar vendo para sempre um artista do mundo flutuante.”

Kazuo Ishiguro. Um artista do mundo flutuante. p. 197.
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Francine Ramos
Editora da Livro&Café desde 2011. É professora de Língua Portuguesa e tenta ser escritora (um conto seu foi publicado na coletânea Leia Mulheres, em 2019). Acredita que os livros podem mudar o mundo e ama Virginia Woolf.

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