After Life

“After Life”: por que continuar quando se perdeu tudo?

Como superar o luto sem trilhar o caminho da (auto)destruição? É essa a pergunta que sustenta After Life, série da Netflix.
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Um dia estava perdendo tempo circulando pelo feed do Facebook e acabei vendo uma publicação da jornalista e escritora Eliane Brum recomendando a série After Life. Diante da autoridade de quem a sugeriu, fui conferir a produção e não me arrependi.

Na verdade, nos últimos tempos resolvi dar chance a algumas comédias dramáticas. Uma delas foi a maravilhosa Fleabag, que para mim foi muito mais trágica do que cômica (por isso mesmo nem consegui digerir muito bem ainda), e After Life também me deixou com um gosto agridoce na boca, com aquele choro engasgado disfarçado por um sorriso resignado.

Sobre o que é After Life?

Talvez seja assim que o protagonista da produção da Netflix, Tony, interpretado pelo comediante britânico Ricky Gervais (The Office, Derek), possa ser caracterizado. Após perder a esposa para o câncer, Tony entra numa depressão com tendências suicidas e decide ser o mais desagradável possível consigo e com os demais, os “idiotas”. O humor sombrio do personagem por vezes se confunde com a própria acidez de Gervais, que também criou, produziu e dirigiu a série. Quem já o viu apresentando o Globo de Ouro sabe que ele é conhecido por ser irônico com celebridades da “elite” de Hollywood, sem receio algum de xingá-las e ofendê-las.

Cena da série “After Life”. (Foto: Divulgação/Netflix)

Ao longo das duas temporadas, em um total de 12 episódios – com a terceira já confirmada -, vamos entrando nessa espiral de luto, desespero e sarcasmo. Em todas as vezes que tenta se matar, Tony é “salvo” por sua cachorra, a fofa Brandy, a segunda criatura que ele mais ama na vida. Então, como não consegue se libertar pelo suicídio, acaba vivendo essa espera pela morte da pior forma possível, num marasmo destrutivo.

E a produção da série também segue preguiçosa. Os cenários são praticamente os mesmos, os diálogos se repetem, até a trilha sonora parece seguir em uníssono. Mas tudo me soa proposital justamente para mostrar o que é uma existência sem sentido e perspectivas, marcada pelo luto. A vida de Tony se resume a ver vídeos de Lisa no hospital ou em cenas cotidianas, alimentar a cachorra, levá-la para passear, trabalhar em um jornal local gratuito, voltado a registrar casos absurdos da cidade (como o garoto que toca flauta pelas narinas, ou a senhora que conversa com gatos), visitar o pai com Alzheimer em uma casa de repouso, encher a cara e se drogar enquanto continua assistindo aos registros de sua esposa.

Todo mundo está enfrentando uma batalha

Mas Tony, apesar de sua resistência em viver, não pode fugir de sua “essência”, tantas vezes lembrada pelos conselhos gravados pela falecida Lisa. Enquanto o jornalista quer destruir todos ao redor com o rolo compressor da sua dor, sem poupar nas ofensas que nos deixam, por vezes, ruborizados, várias pessoas mostram que estão lutando com os próprios demônios, mas que, apesar disso, importam-se com ele.

After Life
Os personagens Tony (Rick Gervais) e Anne (Penelope Wilton). (Foto: Divulgação/Netflix)

After Life tem a proeza de nos lembrar que a tragédia faz parte da existência humana, gostemos disso ou não, e que a empatia é necessária para viver minimamente bem. E Tony, por mais machucado que esteja, vai revelando uma sensibilidade e uma esperança que talvez sejam inerentes do ser humano. Ele, no fundo, quer ser feliz e ver as pessoas felizes. E como ressalta Anne, uma senhora enlutada que se torna amiga e confidente de Tony:

─ Não estamos aqui só para nós dois, mas pelos outros também.

─ Eu não acredito em Deus e nessas coisas.

─ Nem eu, é um monte de besteira. Tudo que temos é um ao outro. Temos que nos ajudar a passar pelas dificuldades até morrermos, até tudo acabar. Não tem por que sentirmos pena de nós mesmos e fazermos os outros infelizes. Seria melhor se matar mesmo se você se sente assim.

Diálogo entre Tony e Anne, “After Life”, 1ª temporada.

A série vem em uma boa hora, na qual vivenciamos esse luto mal trabalhado no ar, em que a falta de consideração com o próximo parece a regra e que há uma pulsão de morte definindo os passos no plano individual e coletivo. Pode parecer um lugar-comum – e After Life não tem vergonha alguma em trazer elementos clichês à tela -, mas abraçar as nossas tragédias (novamente, individuais e coletivas) pode ser o único caminho para continuarmos e até transformarmos a nossa vida, mesmo que nada faça sentido (e provavelmente não tem mesmo).


Enfim, se a minha recomendação não for suficiente, espero que a indicação da Eliane Brum te motive a dar uma chance à série e à reflexão sobre as dores e alegrias que todas e todos nós carregamos!


Série: After Life

Plataforma: Netflix

Ano: 2019 – atualmente (2 temporadas, 12 episódios)

Direção: Ricky Gervais

Roteiro: Ricky Gervais

Elenco: Ricky Gervais, Tom Basden, Mandeep Dhillon, David Bradley, Asheley Jensen, Kerry Godliman, Penelope Wilton.


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Bruna Bengozi
Bruna é mestra em História pela USP e graduanda em Letras pela Univesp. Redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome da impostora".

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