poemas ano novo

Cinco poemas para começar o ano novo

O ano começa com um gostinho de velho e uma pitada de esperança. Que tal alguns poemas para nos dar fôlego e novas perspectivas para 2021?

O ano novo pode começar com planos, promessas, angústias por tudo que aconteceu no passado e – por que não? – poemas. Inspirada numa lista do Book Riot, decidi selecionar algumas poesias que podem nos dar alguma luz para este 2021 que chega com tantas expectativas e medos!

Aproveite a leitura e a reflexão! E não deixe de comentar o que achou das poesias, se outros escritos também te ajudar a começar um ano novo e tudo mais!

Uma verdade corajosa e surpreendente, de Maya Angelou

Nós, esse povo, num planeta pequeno e solitário

Viajando casualmente pelo espaço

Passando por estrelas desinteressadas, pelo caminho de sóis indiferentes

Para um destino onde todos os sinais nos dizem que

É possível e imperativo aprender

Uma verdade corajosa e surpreendente.

E quando chegarmos a isso

Ao dia de pacificação

Quando soltarmos nossos dedos

Dos punhos da hostilidade

Quando chegarmos a isso

Quando a cortina cair sobre o espetáculo de menestréis do ódio

E os rostos sujos de escárnio forem esfregados

Quando os campos de batalha e o coliseu

Já não rastelarem nossos filhos e filhas únicos e particulares

Junto com a grama pisada e ensanguentada

Para deitá-los em covas idênticas em solo estrangeiro

Quando o ataque ganancioso das igrejas

E a extorsão barulhenta dos templos tiverem cessado

Quando as flâmulas balançarem alegremente

Quando as bandeiras do mundo tremerem

Por uma boa, leve brisa

Quando chegarmos a isso

Quando os rifles caírem de nossos ombros

E nossos filhos puderem vestir suas bonecas com bandeiras de trégua

Quando as minas terrestres da morte forem removidas

E os idosos puderem caminhar em noites de paz

Quando os rituais religiosos não forem perfumados

Por incensos de carne queimando

E os sonhos de infância não forem bruscamente acordados

Por pesadelos de abuso sexual

Quando chegarmos a isso

Então, admitiremos que não são as Pirâmides

Com suas pedras colocadas em perfeição misteriosa

Nem os Jardins da Babilônia Pendurados em beleza eterna

Na nossa memória coletiva

Nem o Grande Cânion

Aceso em cores deliciosas

Pelos entardeceres do Oeste

Nem o Danúbio, derramando sua alma azul na Europa

Nem o pico sagrado do Monte Fuji

Se esticando ao Sol Nascente

Nem o Pai Amazonas nem a Mãe Mississippi que, sem distinção,

Alimentam todas as criaturas das profundezas e das margens

Essas não são as únicas maravilhas do mundo

Quando chegarmos a isso

Nós, esse povo, nesse minúsculo globo

Que diariamente recorre a bombas, a lâminas e a adagas

E que ainda assim pede sinais de paz no escuro

Nós, esse povo, nesse cisco de matéria

Em cujas bocas habitam palavras corrosivas

Que desafiam nossa própria existência

Mas dessas mesmas bocas

Podem vir também sons de doçura tão requintadas

Que fazem o coração vacilar no seu trabalho

E o corpo se acalmar em reverência

Nós, este povo, neste planeta pequeno e à deriva

Cujas mãos podem atacar com tanto desembaraço

Que, num piscar de olhos, a vida é extraída de um ser vivo

Entretanto essas mesmas mãos ainda podem tocar com ternura tão terapêutica e irresistível,

Que o pescoço soberbo fica feliz em se curvar

E as costas orgulhosas têm prazer em se dobrar

Em meio a tanto caos, em meio a tanta contradição

Nós aprendemos que não somos nem anjos nem demônios

Quando chegarmos a isso

Nós, este povo, neste corpo caprichoso e flutuante

Criado nesta terra, desta terra

Temos o poder de criar para essa terra

Um ambiente em que cada homem e cada mulher

Possa viver livremente sem beatices

Sem medos paralisantes

Quando chegarmos a isso

Devemos confessar que somos o possível

Que somos o milagre, a verdadeira maravilha deste mundo

Quando, e só quando,

Chegarmos a isso.

Poema inspirado pelo texto “Pálido Ponto Azul”, de Carl Sagan, e traduzido por Lubi Prates no livro Maya Angelou — Poesia Completa, publicado pela Astral Cultural, 2020.

A brave and startling truth, de Maya Angelou

We, this people, on a small and lonely planet
Traveling through casual space
Past aloof stars, across the way of indifferent suns
To a destination where all signs tell us
It is possible and imperative that we learn
A brave and startling truth

And when we come to it
To the day of peacemaking
When we release our fingers
From fists of hostility
And allow the pure air to cool our palms

When we come to it
When the curtain falls on the minstrel show of hate
And faces sooted with scorn are scrubbed clean
When battlefields and coliseum
No longer rake our unique and particular sons and daughters
Up with the bruised and bloody grass
To lie in identical plots in foreign soil

When the rapacious storming of the churches
The screaming racket in the temples have ceased
When the pennants are waving gaily
When the banners of the world tremble
Stoutly in the good, clean breeze

When we come to it
When we let the rifles fall from our shoulders
And children dress their dolls in flags of truce
When land mines of death have been removed
And the aged can walk into evenings of peace
When religious ritual is not perfumed
By the incense of burning flesh
And childhood dreams are not kicked awake
By nightmares of abuse

When we come to it
Then we will confess that not the Pyramids
With their stones set in mysterious perfection
Nor the Gardens of Babylon
Hanging as eternal beauty
In our collective memory
Not the Grand Canyon
Kindled into delicious color
By Western sunsets

Nor the Danube, flowing its blue soul into Europe
Not the sacred peak of Mount Fuji
Stretching to the Rising Sun
Neither Father Amazon nor Mother Mississippi who, without favor,
Nurture all creatures in the depths and on the shores
These are not the only wonders of the world

When we come to it
We, this people, on this minuscule and kithless globe
Who reach daily for the bomb, the blade and the dagger
Yet who petition in the dark for tokens of peace
We, this people on this mote of matter
In whose mouths abide cankerous words
Which challenge our very existence
Yet out of those same mouths
Come songs of such exquisite sweetness
That the heart falters in its labor
And the body is quieted into awe

We, this people, on this small and drifting planet
Whose hands can strike with such abandon
That in a twinkling, life is sapped from the living
Yet those same hands can touch with such healing, irresistible tenderness
That the haughty neck is happy to bow
And the proud back is glad to bend
Out of such chaos, of such contradiction
We learn that we are neither devils nor divines

When we come to it
We, this people, on this wayward, floating body
Created on this earth, of this earth
Have the power to fashion for this earth
A climate where every man and every woman
Can live freely without sanctimonious piety
Without crippling fear

When we come to it
We must confess that we are the possible
We are the miraculous, the true wonder of this world
That is when, and only when
We come to it
.


Ano Novo em Dartmoor, de Sylvia Plath

Esta é a novidade: cada pequeno, trivial

E peculiar obstáculo envolto em cristal,

Cintilando e tinindo em falsete de santo. Só tu

Não sabes o que fazer desse resvaladiço imprevisto,

O cego, alvo, assustador, inacessível declive.

Não há como apreendê-lo por meio das palavras que conheces.

Não há como superá-lo nem sobre elefante, rodas ou sapatos.

Nós viemos tão apenas para olhar. Tu és muito nova

Para ambicionar o mundo num chapéu de cristal.

PLATH, Sylvia. New year on Dartmoor. 1962, In: __________. The collected poems. Edited by Ted Hughes. 4th ed. New York, NY: Harper & Row, 1981. p. 176. Tradução literal de J. A. Rodrigues.

New Year on Dartmoor, de Sylvia Plath

This is newness: every little tawdry

Obstacle glass-wrapped and peculiar,

Glinting and clinking in a saint’s falsetto. Only you

Don’t know what to make of the sudden slippiness,

The blind, white, awful, inaccessible slant.

There’s no getting up it by the words you know.

No getting up by elephant or wheel or shoe.

We have only come to look. 

You are too new

To want the world in a glass hat.

Leia mais: 5 outras poesias de Sylvia Plath


Se lembre, de Joy Harjo

Se lembre do céu sob o qual você nasceu,
saiba todas as histórias estrelares.
Se lembre da lua, saiba quem ela é.
Se lembre do nascer do sol ao amanhecer, este é o
ponto mais forte do tempo. Se lembre do entardecer
e do entregar-se à noite.
Se lembre do seu nascimento, como sua mãe se esforçou
pra te dar forma e fôlego. Você é uma evidência da
vida dela, e da mãe dela, e da dela.
Se lembre do seu pai. Ele é sua vida, também.
Se lembre da terra da qual sua pele é:
terra vermelha, terra preta, terra amarela, terra branca
terra marrom, terra-somos.
Se lembre das plantas, árvores, vidas animais que têm suas
tribos, suas famílias, suas histórias, também. Converse com elas,
escute elas. Elas são poemas vivos.
Se lembre do vento. Se lembre da sua voz. Ela sabe a
origem deste universo.
Se lembre que você é toda gente e toda gente
é você.
Se lembre que você é este universo e este
universo é você.
Se lembre que tudo se mexe, cresce, é você.
Se lembre que a linguagem vem daí.
Se lembre a dança que a linguagem é, que a vida é.
Se lembre.

Tradução de Rafael de Arruda Sobral

Remember, de Joy Harjo

Remember the sky that you were born under,
know each of the star’s stories.
Remember the moon, know who she is.
Remember the sun’s birth at dawn, that is the
strongest point of time. Remember sundown
and the giving away to night.
Remember your birth, how your mother struggled
to give you form and breath. You are evidence of
her life, and her mother’s, and hers.
Remember your father. He is your life, also.
Remember the earth whose skin you are:
red earth, black earth, yellow earth, white earth
brown earth, we are earth.
Remember the plants, trees, animal life who all have their
tribes, their families, their histories, too. Talk to them,
listen to them. They are alive poems.
Remember the wind. Remember her voice. She knows the
origin of this universe.
Remember you are all people and all people
are you.
Remember you are this universe and this
universe is you.
Remember all is in motion, is growing, is you.
Remember language comes from this.
Remember the dance language is, that life is.
Remember.


Tenta louvar o mundo mutilado, de Adam Zagajewski

Tenta louvar o mundo mutilado.
Recorda os longos dias de Junho
e os morangos silvestres, as gotas de vinho rosé.
As urtigas que cobrem metodicamente
as herdades abandonadas dos exilados.
Tens de louvar o mundo mutilado.
Observaste os iates elegantes e os navios;
um tinha uma longa viagem pela frente,
ao outro esperava-o apenas o nada salgado.
Viste os refugiados que caminhavam para lugar nenhum,
ouviste os carrascos que cantavam com alegria.
Deves louvar o mundo mutilado.
Recorda os momentos em que estiveram juntos
no quarto branco, as cortinas movendo-se.
Volta em pensamento ao concerto, quando a música eclodiu.
No Outono colheste bolotas no parque
e as folhas rodopiavam sobre as cicatrizes da terra.
Louva o mundo mutilado
e a pena cinzenta, perdida pelo tordo,
e a luz delicada, que erra e desaparece
regressa.

Tradução de João Ferrão e Anna Kuśmierczyk

Try to Praise the Mutilated World, de Adam Zagajewski

Try to praise the mutilated world.
Remember June’s long days,
and wild strawberries, drops of rosé wine.
The nettles that methodically overgrow
the abandoned homesteads of exiles.
You must praise the mutilated world.
You watched the stylish yachts and ships;
one of them had a long trip ahead of it,
while salty oblivion awaited others.
You’ve seen the refugees going nowhere,
you’ve heard the executioners sing joyfully.
You should praise the mutilated world.
Remember the moments when we were together
in a white room and the curtain fluttered.

Return in thought to the concert where music flared.
You gathered acorns in the park in autumn
and leaves eddied over the earth’s scars.
Praise the mutilated world
and the gray feather a thrush lost,
and the gentle light that strays and vanishes
and returns.

Tradução de Clare Cavanagh

Receita de ano novo, de Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?) 

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

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Bruna Bengozi
Bruna é mestra em História pela USP e graduanda em Letras pela Univesp. Redescobriu (e redescobre) o amor pelos livros, pela música e pela vida. Aguarda ansiosamente a queda do capitalismo e do patriarcado. Sofre de "síndrome da impostora".
Artigos: 239

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