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O mito antes de Drácula: as histórias que inspiraram Bram Stoker em sua magnum opus

Um passeio pelas histórias de personagens que serviram de inspiração para a criação do grande Conde Drácula.
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O Vampiro, de John William Polidori

John William Polidori, por F.G. Gainsford, data desconhecida, doado ao National Portrait Gallery, Londres, em 1895.

Escrito em 1819 por John William Polidori, um médico e escritor inglês, O Vampiro é tido como a primeira obra de sucesso sobre vampiros que inspirou os livros que sucederam a sua publicação, além de apresentar o mito do vampiro para uma nova gama de pessoas, tornando o vampirismo numa espécie de subgênero literário, que posteriormente inspirou Bram Stoker a escrever seu livro Drácula. A obra foi publicada sob falsa atribuição a Lord Byron, e, em outros momentos, creditada tanto a Byron quanto a Polidori. Sua criação se deu em 1816, durante uma competição entre Lord Byron, John Polidori e a fantástica Mary Shelley, e foi desse encontro que, além de O Vampiro, surgiu a obra que viria a se tornar célebre e um marco na literatura inglesa, Frankenstein, ou o Prometeu Moderno, publicado em 1818.

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O livro de Polidori conta a história de um jovem inglês chamado Aubrey e o misterioso Lord Ruthven, um homem de feições sinistras e de comportamento incomum. Durante a narrativa, Aubrey fica ciente da lenda do vampiro através de uma jovem de nome Ianthe, que é encontrada morta logo após a conversa entre os dois. Certo tempo depois, Aubrey e Ruthven são atacados por um grupo de agressores, deixando Ruthven gravemente ferido e, antes de morrer, pede a Aubrey que jure não contar a ninguém sobre sua morte durante um ano e um dia.

Entretanto, após retornar à cidade de Londres, o jovem encontra Ruthven sã e salvo, e para piorar a situação do rapaz, Ruthven começa a seduzir a irmã dele sem que ele possa fazer nada, o que lhe causa um colapso nervoso. Antes de falecer, Aubrey escreve para sua irmã, que iria se casar com o Lord Ruthven no dia do término do juramento, contando a história do homem que virá a se tornará seu marido. Porém, a carta não chega ao seu destino e Ruthven se casa com a mulher, que é encontrada morta no dia de núpcias sem uma gota de sangue sequer.

Vlad, o Empalador

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Pintura a óleo de Vlad Țepeș no Palácio de Ambras, Áustria, datada de 1560, que alegadamente é uma cópia de um original pintado em vida. Fonte: Wikipedia.

Vlad III da Valáquia; Vlad, o Empalador; ou Vlad Draculea. Não importa como o chamem, este personagem foi uma das pessoas mais sádicas a pisar na terra. Vlad nasceu em 1431, em Sighișoara, na Romênia, neto de Mircea, o Velho, príncipe dos valáquios, e filho de Vlad II. Sua mãe era, provavelmente, filha ou parente próxima de Alexandre I da Moldávia, sendo o irmão do meio de três irmãos, o mais velho chamado Mircea e o mais novo Radu.

Vlad III foi ter uma educação real de fato a partir do momento em que seu pai conquistou o trono valaquiano em 1436 ao matar Alexandru I. Recebeu um treinamento comum para filhos de nobres, tendo como tutor um guerreiro que lutou na batalha de Nicópolis contra os turcos, e com ele aprendeu tudo que lhe era exigido para ser um cavaleiro cristão.

O nome Dracul significa O Dragão em romeno (Drac = Dragão, Ul = O) e foi colocado em sua linhagem pois o pai de Vlad III foi convocado pelo imperador germânico Sigismundo, da Hungria, para fazer parte da Ordem do Dragão, um grupo que visava proteger o imperador e a cristandade. Vlad II se apoderou do nome Dracul e, quando seu filho do meio, Vlad III, entrou para a Ordem, recebeu o nome Draculea, que significa Filho do Dragão. Já seu apelido, O Empalador, é devido ao fato de que Vlad III empalava seus inimigos em estacas de madeira.

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Em 1448, Vlad Draculea assumiu o trono valaquiano com o apoio turco, mas em pouco tempo foi obrigado a entregar o cargo a um membro do clã Danesti, Vladislav II. Já em 1456, Draculea retorna ao poder após a derrota de Vladislav II, e seu reinando se estendeu até 1462, quando foi aprisionado pelos turcos. Mantido em cativeiro em Visegrado por doze anos, Vlad III deu início a sua fama macabra ali mesmo. Ele só retornaria ao trono pela última vez em 1476, apenas dois anos após ser libertado. Ele é lembrado por sua batalha contra o avanço islã na Europa Oriental a mando da Igreja Católica e, apesar de sua crueldade, é considerado herói nacional da Romênia.

Vlad, o Empalador foi morto em batalha contra os turcos no final do ano de 1476. Entretanto, existem discordâncias sobre sua morte, já que algumas indicam que ele foi assassinado pela burguesia valaquiana próximo ao fim de sua batalha, que no momento cantava vitória, enquanto outras fontes dizem que ele morreu rodeado pelos corpos de seus guarda-costas, e ainda há quem diga que foi morto por acidente por um de seus homens. Vlad III teve sua cabeça decepada e enviada à Constantinopla, onde foi exposta em uma estaca por muitos anos. Vlad III teve filhos e os dois netos gerados por sua filha Mhnea continuaram a linhagem do sádico Vlad Draculea.

O caso de Mercy Brown

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Lápide de Mercy Lena Brown.

George Brown era um homem sadio, integrante da família Brown, dona de uma comunidade rural em Exeter, Rhode Island. Protestantes, trabalhavam duro em sua propriedade. Entretanto, em 1884, um grande mal recaiu sobre a vida de todos naquela casa. primeiramente Mary Elizabeth, esposa de George, morreu devido a uma doença conhecida popularmente como peste branca, ou tuberculose. Logo depois de Mary, a filha mais velha de George, Mary Olive, padeceu do mesmo mal em 1886, sobrando apenas George, Edwin Brown, o filho mais velho de George, e Mercy Lena Brown, a filha mais nova. Após uma pausa de tantas tragédias, parecia que as coisas estavam indo bem, até que, em 1892, Edwin Brown foi acometido pela doença, seguido pela sua irmã Mercy no mesmo ano, que apesar de mais nova foi a primeira a falecer, aos 19 anos de idade.

A tuberculose era uma doença desconhecida até pouco tempo antes da morte de Mary Elizabeth, e ainda mais obscura para as pessoas que viviam em cidades rurais e que tinham pouco acesso a informações e moravam longe das capitais que passavam por grande avanço tecnológico e cientifico na época. As pessoas acreditavam também que a doença sugava a vida dos outros membros da família, sem saber que era altamente contagiosa, o que deu a ela a fama da doença do vampiro.

Após o falecimento de Mercy e a piora do quadro de saúde de Edwin, George estava desesperado para encontrar uma solução para que não perdesse o seu querido filho. Foi quando um homem, chamado Willian Rose, veio lhe visitar e lhe disse que Edwin estava possuído, mas que havia um remédio para curá-lo. Tal medicação exigia desenterrar os corpos dos membros da família Brown e descobrir quem era o hospedeiro do mal que recaiu sobre eles. Tudo isso era necessário para comprovar que, ao checar os corpos e ver que estavam em estado de decomposição, estavam mortos; por outro lado, se algum dos corpos possuísse uma coloração anormal, aparentando ainda estar vivo, seria preciso verificar o coração para ver se ainda havia sangue, e, caso houvesse, era a prova de que o demônio estava alojado ali e seria necessário queimá-lo.

Essa prática era conhecida como exumação terapêutica, que servia para garantir que o corpo estivesse realmente sem vida. Uma prática oriunda do trabalho de George Stahl, médico alemão que, de acordo com suas crenças, afirmava que o corpo só entraria em decomposição após o animus – uma força que ele acreditava ser a razão pela qual o corpo se mantinha vivo – sair do corpo, o que levou à criação de superstições nas quais o animus, semelhante ao conceito de alma, precisava se alimentar dos humanos para se manter vivo, o que espalhava as doenças tão temidas. Quando, ao exumar o corpo, fossem encontrados vestígios de sangue não-coagulado ou carne ainda não decomposta, eles arrancavam o coração do cadáver e o queimavam.

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Devido às suas perdas recentes e à doença que tomava seu filho, e cada vez mais desacreditado da medicina que nunca lhe dava resultados eficientes, George Brown cedeu após muitas recusas e aceitou a sugestão de Willian Rose para fazer a exumação do corpo de Mercy Brown, a última a falecer. Ao abrir o caixão, foi descoberto que, mesmo após três meses, sua pele ainda estava conservada, levando-os a acreditar que ela ainda estava viva. Porém, tal singularidade podia ser explicada pelo fato do caixão de Mercy ter ficado dentro de um galpão, aguardando o degelo da primavera para ser enterrado, mantendo o corpo preservado pelo frio. Contudo, naquele momento, a superstição falava mais alto do que a ciência, então o coração, que possuía um nível de coagulação baixo devido ao frio, e o fígado de sua filha foram retirados e queimados, e as cinzas foram usadas para a produção de um tônico que seria dado para Edwin. Mas, infelizmente, as superstições não puderam superar a doença e, em 2 de maio de 1892, ele faleceu.

O incidente repercutiu de forma negativa e foi motivo de zombaria nos artigos da época. O monstro que alegavam existir no corpo de Mary ficou conhecido como O Vampiro, tornando-se uma sensação nos jornais do mundo todo apesar de não ter sido o único, já que em 14 de fevereiro de 1817, um jovem chamado Frederick Ranson morreu de tuberculose aos 20 anos, e seu pai, com medo de que ele atacasse sua família, exumou o corpo do filho e queimou seu coração em uma forja de ferreiro.

Até hoje o caso de Mercy Brown é um dos mais bem documentados sobre a exumação de cadáveres para a realização de um ritual. Além disso, um recorte de jornal da época, que falava sobre o caso, foi encontrado dentro das anotações do escritor Bram Stoker, causando a discussão sobre Mercy Brown ter sido uma das inspirações para o livro Drácula, publicado em 1897.

Já que falamos tanto sobre vampiros, vamos conhecer o mito em torno dessas figuras? É só ler aqui!

Referências

Arquivo confidencial #16: Vlad III, o empalador, o homem que inspirou o personagem drácula. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=tmx_Xry8TZI&ab_channel=CanalHist%C3%B3riaeTu. Acesso em: 4 fev. 2021.

Eles fizeram um tônico. (Temporada 1, ep. 1). Lore [seriado]. Direção: Darnell Martin, Thomas Wright, Nick Copus e Michael Satrazemis. Estados Unidos. Amazon Studios, 2017.

MERCY Brown vampire incident. Wikipedia. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Mercy_Brown_vampire_incident. Acesso em: 3 fev. 2021.

New England vampire panic. Wikipedia. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/New_England_vampire_panic. Acesso em: 3 fev. 2021.

O Vampiro. Wikipedia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/O_Vampiro#cite_note-4. Acesso em: 4 fev. 2021.

RUIZ, Gisely. Mercy Brown’s Story Might Be History’s Craziest “Vampire” Incident. All That’s Interesting. Disponível em: https://allthatsinteresting.com/mercy-brown-vampire. Acesso em: 3 fev. 2021.

Vlad, o Empalador. Wikipedia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Vlad,_o_Empalador. Acesso em: 4 fev. 2021.


Foto de capa: Bela Lugosi no papel de Drácula, em filme homônimo de 1931 (dir.: Tod Browning, EUA, 75min.).

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Gustavo Castanhas
Meu nome é Gustavo Castanhas, atualmente tenho 19 anos, moro no interior de São Paulo e curso Letras na Universidade Estadual de São Paulo (Unesp). Escrever sempre foi meu maior hobby e pretendo fazer disso algo para ajudar e entreter as pessoas que leem. Recentemente publiquei meu primeiro livro, chamado Histórias de Atzul, que está disponível na Amazon, e possuo uma página no Instagram onde faço resenha dos livros que leio chamada Literassa, que pretendo futuramente transformar numa editora.

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