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As influências de “Orgulho e Preconceito” e os reflexos da vida pessoal de Jane Austen em sua obra

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Introdução

Jane Austen foi uma escritora inglesa talentosa e muito a frente do seu tempo, apesar de escrever sobre o seu presente. Foi graças ao seu sarcasmo e inteligência que Jane foi capaz de colocar no papel um retrato natural e verossímil dos acontecimentos da sua época.

Publicado em 1813, Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice), foi o segundo livro de Jane Austen a ser publicado, sucedendo Razão e Sensibilidade (Sense and Sensibility). Apesar de ter se lançado ao mundo no início da década de 1810, Orgulho e Preconceito começou a ser escrito em 1796 e foi finalizado em 1797, porém, assim como muitos livros de Jane Austen, levaria alguns anos até chegar ao público.

A obra conta a história de Elizabeth Bennet e sua família, numa época em que o filho mais velho era quem herdava os bens dos pais. Caso o casal não possuísse nenhum filho homem, seus bens eram passados para o parente mais próximo da linha de sucessão. Enquanto isso, o casamento dava segurança social e financeira para a moça, mesmo que não houvesse amor romântico; porém, trazia o fardo das constantes gestações e da criação dos filhos; já a mulher solteira não tinha liberdade, pois dependia do sustento dos pais.

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No livro, vemos retratadas diversas figuras da sociedade rural inglesa, desde pobres camponeses a pessoas influentes da época, e a protagonista Elizabeth se encaixa no meio termo entre esses dois, pois sua família possui uma quantidade significativa de bens, porém, por seus pais terem apenas filhas mulheres, os casamentos eram extremamente necessários, já que suas posses seriam passadas para um primo distante de seu pai, o Sr. Collins. Nesse momento, entram as figuras do Sr. Bingley, um rapaz na idade de casar, rico e solteiro, que imediatamente se interessa por Jane, irmã mais velha de Elizabeth, mas devido à frieza da moça, a sua união demora um pouco a chegar. E acompanhando Bingley, temos Sr. Darcy, outro rapaz ainda mais rico que seu amigo e de modos rudes e orgulhosos, que logo de inicio já desperta apatia da parte de todos. Mas, com o decorrer do livro, se torna um homem respeitoso e digno do amor de Elizabeth.

Entretanto, para que Jane Austen escrevesse um de seus mais famosos, se não o maior, foi necessário recorrer a algumas inspirações de livros da época misturados com a sagacidade e a capacidade de observação da autora, além da influência do meio social e político em que vivia e de acontecimentos reais pelos quais passou.

A vida, as inspirações e a escrita de Jane Austen

Jane, filha do reverendo George Austen e de Cassandra Leigh, nasceu em 16 de dezembro de 1775, em Steventon, região rural da Inglaterra. Era a segunda de oito irmãos, sendo ela e sua irmã mais velha Cassandra as únicas filhas mulheres, o que fez com que a amizade entre as duas fosse um laço inquebrável.

A jovem não recebeu educação formal e nunca se aventurou além dos limites do pequeno condado da Inglaterra. Era dali que ela tirava suas inspirações, daquele pequeno nicho do qual fazia parte. Entretanto, Jane Austen, apesar de pouco ter frequentado uma escola feminina, pois dizia que eram lugares onde “jovens que pagam um bom dinheiro, enfraquecem sua saúde e fortalecem a vaidade”, podia tocar piano, instrumento em que era muito boa, e participar das peças de teatro que apresentava com seus irmãos, além te ter permissão para ler à vontade na biblioteca de seu pai. Foi nela que conheceu autores como Samuel Richardson, autor de Sir Charles Grandison, livro esse que a autora leu e releu inúmeras vezes e chegou a escrever uma peça baseada nele; também entrou em contato com Cecilia, de Fanny Burney, uma obra que envolvia o desespero por um casamento e a cobiça por uma herança; e é bem provável que as protagonistas femininas de Jane tenham um fundo de inspirações nas personagens femininas realistas de Mary Edgeworth.

Contudo, as mulheres de sua época não eram creditadas pela publicação de seus livros, muitas vezes por vontade própria, pois não era “uma atividade feminina”, e nesse contexto entra Mary Wollstonecraft, a mulher praticamente fundou a luta das mulheres por seus direitos com o livro Reivindicação dos Direitos da Mulher (1792), o que mudaria o cenário da literatura feminina para sempre, inclusive Mary morreu poucos dias após dar à luz a sua filha Mary Wollstonecraft Godwin, que viria a se tornar Mary Shelley, autora de um dos primeiros romances de ficção científica, Frankenstein.

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Foi nesse período, entre os 11 e 18 anos de Jane Austen, que se iniciou um período literário da autora conhecido como juvenilia, no qual escreveu peças, dramas, contos e alguns romance, incluindo um que se chamava Amor e Amizade (Love and Friendship), de 1790, romance epistolar que retratava satiricamente os acidentes de carruagem, assaltos e fugas. Jane escrevia para entreter sua família e caçoar dos clichês dos romances que lia.

Algo que marcou bastante a escrita de Jane Austen, não só na sua fase juvenilia como posteriormente, foi a critica ácida que ela fazia à sociedade inglesa e aos casamentos por interesse. Tal visão está presente na maioria de suas obras, o que é um reflexo do momento em que vivia; além disso, Jane escrevia sobre o tipo de gente com que passava seus dias, as ladies e os gentlemen ingleses, assim como os camponeses e as pessoas de classe média. Suas histórias também são majoritariamente de âmbito familiar, de círculos pequenos de amizade; o tema de união está quase sempre presente, como “breves impressões da humanidade, lampejos de uma visão inabalável”.

Segundo Catherine Reef, autora de Jane Austen: uma vida revelada[1] (2014):

“Jane tinha um profundo entendimento psicológico de como as pessoas pensam, se comportam e se expressam, embora ela tenha escrito sobre homens e mulheres do seu próprio tempo e lugar, […] seus personagens ainda soam verdadeiros, pois a autora capturou a essência da natureza humana.”

REEF, Catherine. Jane Austen: uma vida revelada. Barueri: Novo Século, 2014. p. 22.

Entretanto, para os leitores de Jane Austen, os temas apresentados em suas obras, apesar de se passarem há dois séculos, ainda são atuais, uma vez que os bens materiais de uma pessoa importam mais do que o caráter e dignidade, tornando uns melhores que outros.

Quando Jane se encontrava com 20 anos, em 1795, seus romances, que antes tinham um caráter mais satírico, tomaram um rumo mais sério e maduro, com personagens mais reais, que possuíam ambições, medos e esperanças. Essas figuras tornaram-se mais palpáveis e verossímeis, e Jane, ao retratar cenas do cotidiano, explorou com mais afinco os defeitos de seus personagens, colocando-os em situações que geravam dúvidas, momentos em que seus dogmas eram postos à prova contra uma decisão difícil, o que aproximava os leitores das angústias que esses homens e mulheres vivenciavam. E tudo isso escrito com uma linguagem simples e focada na resolução do problema que a autora criava.

Jane Austen morreu às 4h da manhã do dia 18 de julho de 1817, poucos anos após a publicação de Orgulho e Preconceito, livro que, junto com suas outras obras, eternizou seu nome na literatura universal.

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Foto: Bruna Bengozi.

Os reflexos da vida pessoal de Jane Austen em “Orgulho e Preconceito

Durante a vida de Jane, e mais especificamente antes da criação de Orgulho e Preconceito, diversas experiências culminaram para inspirar a autora na hora de escrever o romance, tanto as pessoas com as quais ela convivia quanto os eventos, bailes e reuniões dos quais participava, já que, segundo ela, “Todos os bailes e reuniões eram verdadeiras lições sobre o caráter humano”. Muitas personagens presentes no livro de Jane podem ser referências a figuras reais com a qual a autora teve contato, já que “Três ou quatro famílias em uma aldeia é tudo que preciso para trabalhar”, dizia[2].

Cassandra Austen, irmã mais velha de Jane Austen, era tida como sua melhor amiga, esteve presente em quase todos os acontecimentos da sua vida, sempre apoiava as decisões de Jane e puxava sua orelha quando esta tomava alguma decisão errada, mas mantendo o carinho e a amabilidade que lhe era dedicada. Por sua postura e seus trejeitos, é justo dizer que lembramos de Jane Bennet, irmã mais velha de Elizabeth, a protagonista de Orgulho e Preconceito, que é uma personagem cuidadosa e que se importa muito com a irmã, além de nunca pré-julgar os outros sem ter algo concreto para se dizer a respeito da pessoa. Sua atenção para com a irmã Lizzy e o jeito amável característico de Cassandra Austen aparecem com frequência na figura de Jane Bennet.

George Austen, pai de Jane Austen, se assemelha bastante com o Sr. Bennet, pai de Elizabeth, com seu jeito intelectual e que sempre incentivou a leitura com seus filhos até que eles tivessem idade para lerem sozinhos. Assim como o Sr. Bennet, George possuía uma biblioteca enorme da qual seus filhos tinham livre acesso para ler o que quisessem.

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Em um dos bailes na sua juventude, Jane conheceu Tom Lefroy, um irlandês sobrinho de uma família vizinha e conhecida de Jane. Durante o evento, eles se apaixonaram e dançaram alegremente, mas se viram após o baile apenas outras três vezes. Jane até chegara a escrever para sua irmã, Cassandra, que esperava um pedido de casamento vindo dele; todavia, a família de Tom, notando o romance que fluía entre os dois amantes, mandou o rapaz de volta para Hampshire, acelerando seu retorno para Londres. Depois disso, Jane e Tom nunca mais se viram. A família de Tom tinha planos ambiciosos que envolviam casá-lo com uma garota rica, o que garantiria uma ascensão social, e Jane não tinha nada.

Essa situação lembra claramente o drama de Jane Bennet com o Sr. Bingley no começo do livro, quando, durante um baile, os dois se entreolham e Bingley fica encantado com a formosura de Jane, assim como ela fica pela simpatia e beleza do rapaz. Porém, alguns dias depois, Sr. Bingley diz que precisa ir para Londres e promete que voltaria, coisa que não acontece, não fosse a revelação de Elizabeth para o Sr. Darcy na metade do livro de que Jane amava Bingley. Assim como aconteceu com Tom Lefroy na vida real, a irmã de Bingley desejava que o mesmo se casasse com Georgiana Darcy, irmã do Sr. D., pois ela possuía muito dinheiro e isso também a ajudaria a se aproximar de Darcy com planos de se casar com ele. Porém, diferentemente da vida real, Sr. Bingley volta e Jane e ele se casam, vivendo, assim, felizes e radiantes, o que não aconteceu com Jane na vida real. Anos depois, Tom, casado com outra mulher e já feito na vida como chefe de justiça na corte de Queen’s Beach, na Irlanda, afirmou seu apaixonado por Jane, porém, considerava tudo aquilo como apenas “um amor adolescente”.

Durante seu breve caso com Tom Lefroy, Jane escreveu um romance epistolar chamado Elinor e Marianne, que viria a se chamar Razão e Sensibilidade depois de alguns anos. Entretanto, Jane o deixou de lado e se empenhou a escrever First Impression, outro romance que mudou de nome e se tornou Orgulho e Preconceito, o que pode comprovar a relação da cena de Jane B. e Bingley com os eventos entre a autora e Tom Lefroy.

A forma como era feita a divisão das heranças após a morte do pai, com os bens indo para o filho mais velho, ou, caso não tivesse um primogênito, para o parente homem mais próximo, deu origem ao personagem do Sr. Collins, que também pode ter sido inspirado em outra figura singular na vida de Jane: o reverendo Samuel Blackfall, um homem que aguardava ser chamado para uma boa paróquia em breve e estava na idade de se casar. Ele foi apresentado a Jane por Anne Lefroy, amiga de Jane e parente de Tom Lefroy, entretanto, os seus encantos não foram suficientes para convencer Jane e ela o recusou, assim como Elizabeth recusa o Sr. Collins, um homem que foi chamado para trabalhar em uma rica paróquia e que precisa de uma mulher para se casar. Jane Austen também se refere a Samuel Blackfall como alguém cuja esposa precisaria ser “uma interlocutora silenciosa – visto que ele não parava de falar – e bastante ignorante, mas naturalmente inteligente e disposta a aprender”.

As visitas de Jane Austen à mansão de seu irmão, que herdou a propriedade de seus tios, ajudou na criação da bela residência do Sr. Darcy, em Pemberley, e as tropas do regimento que aparecem no livro são um lembrete ao leitor de que, na época em que foi escrito, a Grã-Bretanha e a França estavam em guerra.

Outras referências a eventos e personagens podem estar ainda mais fundas nas entrelinhas de Orgulho e Preconceito, mas Jane Austen era tão habilidosa com suas críticas e sua característica acidez nas representações que algumas me passam despercebidas. Em vista dos casos que citei acima e conhecendo a biografia da autora, é bem provável que não sejam poucos os reflexos de sua história na obra.

Conclusão

Assim como disse uma certa Lady Gordon[3] sobre os trabalhos de Jane Austen:

“Na maioria dos romances, enquanto lemos, ficamos entretidos com um grupo de ideias, sobre as quais você nunca mais irá pensar ou imaginar […] ao passo que no trabalho da srta. Austen, […] o leitor, de fato, vive com elas, fantasiando ser um membro da família. […]”.

Lady Gordon. Retirado do livro Jane Austen: uma vida revelada, de Catherine Reef.

Jane Austen foi uma mulher de tantos talentos, tanto no piano quanto na escrita, que ainda jovem escreveu romances que a eternizariam. Foi autora de livros que receberam diversas adaptações para o cinema, séries e que ainda fazem parte do nosso imaginário. Livros estes, vale lembrar, que só obtiveram o devido reconhecimento quando a autora jazia em seu túmulo.

Aprender e ensinar sobre Jane Austen é algo que deixa de ser um dever e se torna fonte de paixão, afinal, é difícil ler sobre ela e não sentir vontade de ler todos os seus livros. É por causa de personalidades como Austen que a literatura pôde ser apossada por outras mulheres que vieram depois dela, como as irmãs Brontë, Mary Shelley e Margaret Atwood. Foi Jane quem abriu ainda mais espaço para que moças de todas as idades pudessem compartilhar com o mundo suas criações, pois, mesmo que outras já a antecedessem, o importante papel de Austen e sua contribuição não devem ser reduzidos.

In her (rare union) were

A fair form and a fairer mind;

Hers, Fancy quick and clear good sense

And wit which never gave offence…” [4]

Fragmento do poema que o irmão de Jane Austen, James Austen, escreveu para ela após a morte da autora.

Referências

AUSTEN, Jane. Orgulho e Preconceito. Jandira: Principis, 2017.

REEF, Catherine. Jane Austen: uma vida revelada. Barueri: Novo Século, 2014.


[1] Livro que forneceu grande parte dos materiais usados nesse trabalho sobre a vida e a obra da autora.

[2] São apenas suposições baseadas nas ações e personalidades dos amigos e familiares de Jane Austen e acontecimentos vividos por ela que lembram certos eventos e personagens dos livros.

[3] Não é deixado claro quem ou de onde é Lady Gordon.

[4] “Nela (em rara união) combinam

Uma bela forma e a mais bela mente;

Dela, a imaginação veloz e o bom senso cristalino

E humor que nunca ofende…”  

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Gustavo Castanhas
Meu nome é Gustavo Castanhas, atualmente tenho 19 anos, moro no interior de São Paulo e curso Letras na Universidade Estadual de São Paulo (Unesp). Escrever sempre foi meu maior hobby e pretendo fazer disso algo para ajudar e entreter as pessoas que leem. Recentemente publiquei meu primeiro livro, chamado Histórias de Atzul, que está disponível na Amazon, e possuo uma página no Instagram onde faço resenha dos livros que leio chamada Literassa, que pretendo futuramente transformar numa editora.

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